Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Uma segunda carta do doutor Grégory contém o seguinte: “Numa comunicação, Erasto enunciou uma ideia que me chocou e me pôs a refletir. O homem, diz ele, tem sete sentidos: os sentidos bem conhecidos da audição, do olfato, da visão, do paladar e do tato e, além desses, o sentido sonambúlico e o sentido mediúnico.

“Acrescento a estas palavras que estes dois últimos não existem senão por exceção bastante desenvolvidos nalgumas naturezas privilegiadas, admitindo-se que existam em estado rudimentar em todos os homens. Ora, tenho uma convicção adquirida através de muita observação e de uma experiência bastante longa dos poderes homeopáticos, que nossos medicamentos bem escolhidos, tomados por longo tempo, podem desenvolver essas duas admiráveis faculdades.”

Em nossa opinião, seria errôneo considerar o sonambulismo e a mediunidade como o produto de dois sentidos diferentes, tendo em vista que não passam de dois efeitos resultantes de uma mesma causa. Essa dupla faculdade é um dos atributos da alma, e tem por órgão o perispírito, cuja radiação transporta a percepção para além dos limites da ação e dos sentidos materiais. A bem dizer é o sexto sentido, que é designado sob o nome de sentido espiritual.

O sonambulismo e a mediunidade são duas variantes da atividade desse sentido que, como se sabe, apresentam inúmeras nuanças, e constituem aptidões especiais. Fora dessas duas faculdades, mais admiráveis porque são mais aparentes, seria errôneo crer que o sentido espiritual não exista senão em estado rudimentar. Como os outros sentidos, ele é mais ou menos desenvolvido, mais ou menos sutil, conforme os indivíduos, mas todo mundo o possui, e não é ele o que presta menos serviços, pela natureza toda especial das percepções das quais é a fonte. Longe de ser a regra, sua atrofia é a exceção, e pode ser considerada como uma enfermidade, assim como a ausência da visão e da audição. É através desse sentido que recebemos os eflúvios fluídicos dos Espíritos; que nos inspiramos, malgrado nosso, em seus pensamentos; que nos são dadas as advertências íntimas da consciência; que temos o pressentimento e a intuição das coisas futuras ou ausentes; que se exercem a fascinação, a ação magnética inconsciente e involuntária, a penetração do pensamento, etc. Essas percepções são dadas ao homem pela Providência, assim como a visão, o olfato, a audição, o paladar e o tato, para a sua conservação; são fenômenos muito vulgares que ele só dificilmente constata pelo hábito que tem de experimentá-los, e dos quais não se deu conta até hoje, devido à sua ignorância das leis do princípio espiritual e da própria negação, por alguns deles, da existência desse princípio. Mas, o que quer que leve sua atenção para os efeitos que acabamos de citar, e sobre muitos outros da mesma natureza, reconhecerá quanto eles são frequentes e como são completamente independentes das sensações percebidas pelos órgãos do corpo.

A visão espiritual, vulgarmente chamada dupla vista ou segunda vista, é um fenômeno menos raro do que se pensa; muitas pessoas têm esta faculdade sem darse conta; apenas ela é mais ou menos acentuada, e é fácil certificar-se de que ela não se deve aos órgãos da visão, porquanto se exerce sem o concurso desses órgãos, tanto que até mesmo os cegos a possuem. Ela existe em certas pessoas no mais perfeito estado normal, sem o menor traço aparente de sono nem de estado extático. Conhecemos em Paris uma senhora na qual ela é permanente, e tão natural quanto a visão ordinária; ela vê sem esforço e sem concentração o caráter, os hábitos, os antecedentes de quem quer que dela se aproxime; ela descreve as doenças e prescreve tratamentos eficazes com mais facilidade que muitos sonâmbulos ordinários; basta pensar em uma pessoa ausente para que ela a veja e a designe. Um dia estávamos em casa dela e vimos passar na rua alguém com quem temos relações, e que ela jamais tinha visto. Sem ser para isso provocada por qualquer pergunta, ela fez o mais exato retrato moral dele, e nos deu a seu respeito conselhos muito prudentes.

Entretanto, essa senhora não é sonâmbula. Ela fala do que vê, como falaria de qualquer outra coisa, sem desviar-se das suas ocupações. É médium? Ela mesma nada sabe a respeito, porque até há pouco nem mesmo conhecia de nome o Espiritismo. Assim, nela essa faculdade é tão natural e tão espontânea quanto possível. Como percebe ela, senão pelo sentido espiritual?

Devemos acrescentar que essa senhora tem fé nos sinais da mão. Assim, ela a examina quando a interrogam. Ela diz que vê nas mãos o indício das doenças. Como vê certo, e é evidente que muitas das coisas que diz não podem ter nenhuma relação fisiológica com a mão, estamos persuadidos de que para ela é simplesmente um meio de se pôr em relação e de desenvolver sua vista, fixando-a num ponto determinado. A mão faz o papel de espelho mágico ou psíquico; ela aí vê como outros veem num vaso, numa garrafa de cristal ou noutro objeto. Sua faculdade tem muita relação com a do Vidente da floresta de Zimmerwald, mas ela lhe é superior em certos aspectos. Aliás, como não tira disto nenhum proveito, esta consideração afasta toda suspeita de charlatanismo, e visto que dela não se serve senão para prestar serviço, deve ser assistida por bons Espíritos. (Vide na Revista de outubro de 1864: O sexto sentido e a visão espiritual; outubro de 1865: Novos estudos sobre os espelhos psíquicos. O vidente da floresta de Zimmerwald).

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