Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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“Informam de Nova Iorque que entre as petições recentemente dirigidas ao presidente dos Estados Unidos, encontra-se uma que levantou a questão da admissibilidade das mulheres nos empregos públicos. A senhorinha Françoise Lord, de Nova Iorque, pediu para ser enviada como cônsul ao estrangeiro. O presidente levou seu pedido em consideração, e ela espera que o Senado lhe seja favorável. O sentimento público não se mostra tão hostil a essa inovação quanto se poderia supor, e vários jornais defendem a pretensão da senhorita Lord.”



(Siècle, 5 de abril de 1867)

“No distrito comandado pelo General Sheridan, formado pelos estados de Louisiana e do Texas, as listas eleitorais foram abertas, e a população branca ou de cor começou a se inscrever, sem levantar objeções ao assunto da ingerência da autoridade militar em todo esse caso. Malgrado os esforços dos legisladores de Washington, a população do norte guarda uma grande parte de seus preconceitos a respeito dos negros. Com a maioria de 35 votos contra, a câmara dos deputados de Nova Jersey lhes recusou o gozo dos direitos políticos, e o senado do Estado associou-se a esse voto, que é o objeto dos mais vivos ataques em toda a imprensa republicana. Em contrapartida, um dos estados do Oeste, o Wisconsin, deu o direito de sufrágio às mulheres de mais de vinte e um anos. Este princípio novo faz seu caminho nos Estados Unidos, e não faltam jornalistas para aprovar a galanteria política dos senadores do Wisconsin. Fazendo alusão a um romance célebre, um orador de um meeting perguntou: “Como recusaríamos a capacidade política à Senhora Beecher Stowe, quando a reconhecemos como um Pai Tomás?”

(Grande Moniteur, 9 de maio de 1867)

A Câmara dos Comuns da Inglaterra também se ocupou desta questão na sessão de 20 de maio último, sobre a proposição de um de seus membros. Lê-se no relato de Morning Post:

“Sobre a cláusula 4, o Sr. Mill pede que se retire a palavra homem e que insira a expressão pessoa.

“Meu objetivo é, diz ele, admitir à franquia eleitoral uma parte muito grande da população que é agora excluída do seio da constituição, isto é, as mulheres. Não vejo por que as senhoras não casadas, maiores, e as viúvas não teriam voz na eleição dos membros do Parlamento.

“Talvez digam que as mulheres já tem bastante poder, mas sustento que se elas obtivessem os direitos civis que proponho se lhes conceda, assim elevaríamos a sua condição e as desembaraçaríamos de um obstáculo que hoje impede a expansão de suas faculdades.

“Confesso que as mulheres já possuem um grande poder social, mas elas não o têm o bastante, e não são crianças mimadas, como geralmente se supõe. Aliás, seja qual for o seu poder, quero que seja responsável, e eu lhes darei o meio de fazer conhecer suas necessidades e seus sentimentos.

“O Sr. Lang. ─ A proposição é, segundo ele, insustentável, e ele está persuadido que a grande maioria das próprias mulheres a rejeitaria.

“Sir John Bowyer pensa de outro modo. As mulheres agora podem ser vigilantes diretoras dos pobres, e ele não vê por que não votariam para os membros do Parlamento. O ilustre baronete cita o caso de Miss Burdetts Coutts, para mostrar que a propriedade das mulheres, conquanto reconhecida como a dos homens, absolutamente é não é bem definida.

“Procedeu-se à votação. A emenda foi rejeitada por 196 votos contra 73, e foi ordenado que a palavra homem fará parte da cláusula.”

O jornal La Liberté, de 24 de maio, continua o relato por estas judiciosas reflexões:

“Será que as mulheres já não são admitidas a sentar-se e votar nas assembleias de acionistas, da mesma forma que os homens?

“Se fosse certo, como pretendeu o ilustre Sr. Laing, que as mulheres não quisessem o direito que o Sr. Stuart Mill propõe se lhes reconheça, não seria uma razão para que ele não lhes fosse atribuído, porquanto já lhes pertence legitimamente. As que tivessem repugnância de exercê-lo estariam livres de votar, salvo, mais tarde, o direito de reconsiderar, quando o uso as tivesse feito mudar de opinião.

“Os Laing, cujos olhos estão vendados pela faixa da rotina, acham monstruoso que as mulheres votem e consideram muito natural e perfeitamente simples que uma mulher reine!

“Ó inconsequência humana! Ó contradição social!

“A. FAGNAN.”

Tratamos da questão da emancipação da mulher no artigo intitulado: As mulheres têm alma? publicado na Revista de janeiro de 1866, e ao qual remetemos o leitor, para não nos repetirmos aqui. As considerações que seguem servirão para complementá-lo.

Não é de duvidar que numa época em que os privilégios, restos de outra época e de outros costumes, caem diante do princípio da igualdade de direitos de toda criatura humana, os da mulher não poderiam tardar a ser reconhecidos, e que, em futuro próximo, a lei não a tratará mais como menor. Até o presente, o reconhecimento desses direitos é considerado como uma concessão da força à fraqueza, razão pela qual é regateado com tanta parcimônia. Ora, como tudo quanto é concedido benevolamente pode ser retirado, esse reconhecimento não será definitivo e imprescritível senão quando não for mais subordinado ao capricho do mais forte, mas fundado num princípio que ninguém possa contestar.

Os privilégios de raças têm sua origem na abstração que os homens geralmente fazem do princípio espiritual, para considerar apenas o ser material exterior. Da força ou da fraqueza constitucional de uns, de uma diferença de cor em outros, do nascimento na opulência ou na miséria, da filiação consanguínea nobre ou plebeia, eles concluíram por uma superioridade ou uma inferioridade natural. Foi sobre este dado que estabeleceram suas leis sociais e os privilégios de raças. Desse ponto de vista circunscrito, eles são consequentes consigo mesmos, porque, não levando em conta senão a vida material, certas classes parecem pertencer, e com efeito pertencem, a raças diferentes.

Mas se considerarmos seu ponto de vista do ser espiritual, do ser essencial e progressivo, numa palavra, do Espírito preexistente e sobrevivente a tudo, cujo corpo é simples envoltório temporário, variando, como a roupa, de forma e de cor; se, além disso, do estudo dos seres espirituais ressalta a prova que esses seres são de uma natureza e de uma origem idênticas; que seu destino é o mesmo; que, partindo todos de um mesmo ponto, tendem ao mesmo fim; que a vida corporal é apenas um acidente, uma das fases da vida do Espírito, necessária ao seu avanço intelectual e moral; que em vista desse avanço o Espírito pode sucessivamente revestir envoltórios diversos, nascer em posições diferentes, chega-se à consequência capital da igualdade da natureza e da igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e à abolição dos privilégios de raça. Eis o que ensina o Espiritismo.

Vós que negais a existência do Espírito para considerar apenas o homem corporal; a perpetuidade do ser inteligente para só encarar a vida presente, repudiais o único princípio sobre o qual está fundada com razão a igualdade de direitos que reclamais para vós próprios e para os vossos semelhantes.

Aplicando este princípio à posição social da mulher, diremos que, de todas as doutrinas filosóficas e religiosas, o Espiritismo é a única que estabelece seus direitos sobre a própria Natureza, provando a identidade do ser espiritual nos dois sexos. Considerando-se que a mulher não pertence a uma criação distinta; que o Espírito pode nascer homem ou mulher, à vontade, conforme o gênero de provas a que vem submeter-se para seu adiantamento; que a diferença não está senão no envoltório exterior, que modifica suas aptidões, na identidade na natureza do ser, necessariamente devemos concluir pela igualdade dos direitos. Isto decorre, não de simples teoria, mas da observação dos fatos e do conhecimento das leis que regem o mundo espiritual. Encontrando os direitos da mulher, na Doutrina Espírita, uma consagração fundada nas leis da Natureza, daí resulta que a propagação dessa doutrina apressará a sua emancipação, e lhe dará, de maneira estável, a posição social que lhe pertence. Se todas as mulheres compreendessem as consequências do Espiritismo, todas seriam espíritas, porque aí encontrariam o mais poderoso argumento que poderiam invocar.

O pensamento da emancipação da mulher neste momento germina num grande número de cérebros, porque estamos numa época em que fermentam as ideias de renovação social em que as mulheres, tanto quanto os homens, estão sujeitos ao hausto progressivo que agita o mundo. Depois de se haverem muito ocupado de si mesmos, os homens começam a compreender que seria justo fazer algo por elas, de afrouxar um pouco os laços da tutela sob os quais as mantêm. Devemos felicitar os Estados Unidos pela iniciativa que tomam a este respeito pelo fato de eles terem ido mais longe, concedendo uma posição legal e de direito comum a toda uma raça da Humanidade.

Mas da igualdade dos direitos seria abusivo concluir pela igualdade de atribuições. Deus dotou cada ser de um organismo apropriado ao papel que ele deve desempenhar na Natureza. O da mulher é traçado por sua organização, e isto não é o menos importante. Há, pois, atribuições bem caracterizadas, atribuídas a cada sexo pela própria Natureza, e essas atribuições implicam deveres especiais que os sexos não poderiam cumprir eficazmente saindo de seu papel. Há atribuições em cada sexo, como de um sexo em relação ao outro: a constituição física determina as aptidões especiais; seja qual for sua constituição, todos os homens certamente têm os mesmos direitos, mas é evidente, por exemplo, que aquele que não está organizado para o canto não poderia ser um cantor. Ninguém pode tirar-lhe o direito de cantar, mas tal direito não lhe pode dar qualidades que lhe faltam. Se, pois, a Natureza deu à mulher músculos mais fracos do que ao homem, é que ela não foi chamada aos mesmos exercícios; se sua voz tem um outro timbre, é que não está destinada a produzir as mesmas impressões.

Ora, é lícito temer, e é o que ocorrerá, que na febre de emancipação que a atormenta, a mulher não se acredite apta a preencher todas a atribuições do homem e que, caindo num excesso contrário, depois de haver tido muito pouco, não pretenda ter demais. Esse resultado é inevitável, mas não devemos espantar-nos nenhum pouco. Se as mulheres têm direitos incontestáveis, a Natureza tem os seus, que não perde nunca. Em breve elas se cansarão dos papéis que não são os seus. Deixai-as, pois, reconhecer pela experiência sua insuficiência nas coisas às quais a Providência não as chamou. Tentativas infrutíferos reconduzi-las-ão forçosamente ao caminho que lhes é traçado, caminho que pode e deve ser alargado, mas que não pode ser desviado sem prejuízo para elas próprias, trazendo a possibilidade da influência toda especial que elas devem exercer. Elas reconhecerão que só terão a perder na troca, porque a mulher de atitudes muito viris jamais terá a graça e o encanto que constituem a força daquela que sabe manter a condição de mulher. Uma mulher que se faz homem abdica de sua verdadeira realeza: olham-na como um fenômeno.

Tendo sido lidos na Sociedade de Paris os dois artigos acima, a seguinte questão foi apresentada aos Espíritos, como objeto de estudo:

Que influência deve ter o Espiritismo sobre a condição da mulher?

Como todas as comunicações obtidas concluíram no mesmo sentido, só transcrevemos a seguinte, por ser a mais desenvolvida.

(Sociedade de Paris, 10 de maio de 1867) (Médium, Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo; dissertação verbal)

“Em todos os tempos os homens têm sido orgulhosos. É um vício constitucional, inerente à sua natureza. O homem ─ falo do sexo ─ o homem, forte pelo desenvolvimento de seus músculos, pelas concepções um pouco ousadas de seus pensamentos, não levou em consideração a fraqueza a que se faz alusão nas santas Escrituras, fraqueza que faz a desgraça de toda a sua descendência. Ele se julgou forte e serviu-se da mulher, não como de uma companheira, de uma família; dela se serviu do ponto de vista puramente bestial; dela fez um animal bastante agradável e a acostumou a manter-se a uma respeitosa distância do senhor. Mas como Deus não quis que metade da Humanidade fosse dependente da outra, não fez duas criações distintas, uma para estar constantemente ao serviço da outra. Ele quis que todas as suas criaturas pudessem participar do banquete da vida e do infinito na mesma proporção.

“Nesses cérebros que por tanto tempo mantivemos afastados de toda ciência, como impróprios a receber os benefícios da instrução, Deus fez nascer, como contrapeso, astúcias que põem em cheque as forças do homem. A mulher é fraca, o homem é forte, é sábio, mas a mulher é astuciosa e a ciência contra a astúcia nem sempre leva a melhor. Se fosse a verdadeira ciência, ela a venceria, mas é uma ciência falsa e incompleta, e a mulher facilmente encontra o ponto fraco. Provocada pela posição que lhe era dada, a mulher desenvolveu o germe que sentia em si; a necessidade de sair de seu rebaixamento lhe deu o desejo de romper suas cadeias. Segui a sua marcha; tomai-a a partir do início da era cristã e observai-a: vê-la-eis cada vez mais dominante, mas ela não gastou toda a sua força; ela conservou-a para tempos mais oportunos, e aproxima-se a época em que vai desenvolvê-la por sua vez. Ademais, a geração que se ergue traz em seus flancos a mudança que nos é anunciada há muito tempo, e a mulher atual quer ter, na Sociedade, um lugar igual ao do homem.

“Observai bem; olhai no íntimo, e vede quanto a mulher tende a libertar-se do jugo; ela reina como senhora, por vez como déspota. Vós a tivestes muito tempo vergada, mas ela se reergue, como uma mola comprimida que se distende, porque começa a compreender que é chegada a sua hora.

“Pobres homens! Se vos désseis conta que os Espíritos não tem sexo; que o que hoje é homem pode ser mulher amanhã; que eles escolhem indiferentemente, e por vezes de preferência, o sexo feminino, deveríeis regozijar-vos em vez de vos afligirdes com a emancipação da mulher, e admiti-la no banquete da inteligência, abrindo-lhe todas as grandes portas da ciência, porque ela tem concepções mais finas, mais suaves, contactos mais delicados que os do homem. Por que a mulher não seria médica? Ela não é chamada naturalmente a dar cuidados aos doentes, e não os daria com mais inteligência se tivesse os conhecimentos necessários? Não há casos em que, quando se trata de pessoas de seu sexo, seria preferível uma médica? Inúmeras mulheres não têm dado provas de sua aptidão para certas ciências; da finura de seu tino em certos negócios? Por que, então, os homens reservariam para si o monopólio, senão por medo de vê-las ganhar superioridade? Sem falar das profissões especiais, a primeira profissão da mulher não é a de mãe de família? Ora, a mãe instruída é mais adequada para dirigir a instrução e a educação de seus filhos. Ao mesmo tempo em que alimenta o corpo, ela pode desenvolver o coração e o espírito. Sendo a primeira infância necessariamente confiada aos cuidados da mulher, se ela for instruída, a regeneração social terá dado um passo imenso, e é isto que será feito.

“A igualdade do homem e da mulher teria ainda outro resultado. Ser senhor, ser forte é muito bom, mas é também assumir uma grande responsabilidade. Partilhando o fardo dos negócios da família com uma companheira capaz, esclarecida, naturalmente devotada aos interesses comuns, o homem alivia a sua carga e diminui sua responsabilidade, ao passo que a mulher, estando sob tutela, e por isto mesmo num estado de submissão forçada, não tem voz no capítulo senão quando o homem condescender em lha dar.

“Diz-se que as mulheres são muito faladoras e frívolas. Mas de quem é a falta senão dos homens, que lhes não permitem a reflexão? Dai-lhes o alimento do espírito, e elas falarão menos; elas meditarão e refletirão. Vós as acusais de frivolidade? Mas o que é que elas têm a fazer? ─ Falo aqui sobretudo da mulher do mundo. ─ Nada, absolutamente nada. Em que pode ela ocupar-se? Se ela refletir e transcrever seus pensamentos, tratam-na ironicamente de sabichona. Se cultivar as Ciências ou as Artes, seus trabalhos não são considerados, salvo raríssimas exceções, entretanto, como o homem, ela necessita de estímulo. Lisonjear um artista é dar-lhe tom e coragem, mas para a mulher, isto realmente não vale a pena! Então lhes resta o domínio da frivolidade, no qual podem estimular-se reciprocamente.

“Que o homem destrua as barreiras que seu amor-próprio opõe à emancipação da mulher, e em breve vê-la-á tomar o seu voo, com grande vantagem para a Sociedade. A mulher, sabei-o, tem a centelha divina absolutamente como vós, porque a mulher é vós, como vós sois a mulher.”

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