Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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(Por Camille Flammarion) (2º Artigo. Vide REvista Espírita de março, último.)

Deixamos Lumen em Capela, ocupado em considerar a Terra, que ele acabara de deixar. Estando esse mundo situado a 170 trilhões e 392 bilhões de léguas da Terra, e percorrendo a luz 70.000 léguas por segundo, esta não pode chegar de um ao outro senão em 71 anos, 8 meses e 24 dias, ou seja, cerca de 72 anos. Disso resulta que o raio luminoso que leva a imagem da Terra só chega aos habitantes de Capela ao cabo de 72 anos. Tendo Lumen morrido em 1864 e lançando o olhar sobre Paris, a viu tal qual era 72 anos antes, isto é, em 1793, ano de seu nascimento.

Inicialmente ele ficou muito surpreendido por encontrar tudo diferente do que tinha visto, de ver ruelas, conventos, jardins e campos, em vez de avenidas, novos bulevares, estações de estrada de ferro, etc. Viu a Praça da Concórdia ocupada por uma imensa multidão e foi testemunha ocular do acontecimento de 21 de janeiro. A teoria da luz lhe deu a chave desse estranho fenômeno. Eis a solução de algumas dificuldades que ele levanta[1].

Sitiens. ─ Mas, então, se o passado pode, assim, confundir-se com o presente; se a realidade e a visão se casam do mesmo modo; se personagens falecidas há muito tempo podem ser vistas representando em cena; se as construções novas e as metamorfoses de uma cidade como Paris podem desaparecer e deixar ver em seu lugar a cidade de outrora; se, enfim, o presente pode apagar-se para a ressurreição do passado, sobre que certeza, daqui para o futuro, nos podemos confiar? Em que se tornam a ciência e a observação? Em que se tornam as deduções e as teorias? Em que se fundamentam nossos conhecimentos, que nos parecem os mais sólidos? E se essas coisas são verdadeiras, não devemos de agora em diante duvidar de tudo ou crer em tudo?

Lúmen. ─ Estas e muitas outras considerações, meu amigo, me absorveram e atormentaram, mas não impediram de ser a realidade que eu observava. Quando tive a certeza que tínhamos presente, sob os nossos olhos, o ano de 1793, pensei imediatamente que a própria Ciência, em vez de combater essa realidade (porque duas verdades não podem opor-se uma à outra), devia me dar a sua explicação. Assim, interroguei a Física e esperei sua resposta. (Segue a demonstração científica do fenômeno).

Sitiens. ─ Assim, o raio luminoso é como um correio que nos traz notícias do estado do país que o envia, e que, se levar 72 anos para chegar até nós, dá-nos o estado desse país no momento de sua partida, isto é, 72 anos antes do momento em que o recebemos.

Lumen. ─ Adivinhastes o mistério. Para falar com mais exatidão ainda, o raio luminoso seria um correio que nos traria, não notícias escritas, mas a fotografia, ou mais rigorosamente ainda, o próprio aspecto do país de onde ele saiu. Assim, pois, quando examinamos ao telescópio a superfície de um astro, não vemos essa superfície tal qual é no momento exato em que o observamos, mas tal qual era no momento em que a luz que nos chega foi emitida por essa superfície.

Sitiens. ─ De sorte que se uma estrela cuja luz leva, suponhamos, dez anos par nos chegar, fosse subitamente aniquilada hoje, nós a veríamos ainda durante dez anos, porquanto seu último raio só nos chegaria dez anos depois.

Lumen. ─ É precisamente isto. Há, pois, aí, uma surpreendente transformação do passado em presente. Para o astro observado, é o passado já desaparecido; para o observador é o presente, o atual. O passado do astro é rigorosa e positivamente o presente do observador.

Mais tarde, Lumen se vê a si próprio, menino, com seis anos, brincando e discutindo com um grupo de outros meninos, na Praça do Panthéon.

Sitiens. ─ Confesso que me parece impossível que se possa ver assim a si próprio. Não podeis ser duas pessoas. Considerando-se que tínheis 72 anos quando morrestes, vosso estado de infância tinha passado, desaparecido, estava extinto há muito tempo. Não podeis ver uma coisa que não mais existe. Não podemos ver-nos em duplicidade, menino e velho.

Lumen. ─ Não refletis bastante, meu amigo. Compreendestes muito bem ó fato geral para admiti-lo, mas não observastes suficientemente para perceber que este último fato particular se enquadra absolutamente no primeiro. Admitis que o aspecto da Terra leva 72 anos para vir a mim, não é? Que os acontecimentos não me chegam senão com esse intervalo de tempo depois de sua atualidade? Numa palavra, que eu veja o mundo tal qual era naquela época. Admitis igualmente que, vendo as ruas daquela época, eu veja, ao mesmo tempo, os meninos que corriam naquelas ruas? Então! Se eu vejo esse grupo de crianças, e se eu fazia parte desse grupo, por que quereis que não me veja tão bem quanto vejo os outros?

Sitiens. Mas não estais mais naquele grupo.

Lumen. ─ Ainda uma vez, esse grupo, na verdade, não existe mais agora, mas eu o vejo tal qual existia no instante em que partiu o raio luminoso que hoje me chega, e se eu distingo os quinze ou dezoito meninos que o compunham, não há razão para que o menino que era eu desapareça porque sou eu quem olha. Outros observadores o veriam em companhia de seus camaradas. Por que quereis que haja uma exceção quando sou eu quem olha? Eu os vejo a todos, e me vejo com eles.

Lumen passa em revista a série dos principais acontecimentos políticos acontecidos desde 1793 até 1864, quando ele próprio se vê no leito de morte.

Sitiens. ─ Estes acontecimentos passaram rapidamente sob os vossos olhos?

Lumen. ─ Eu não poderia apreciar a medida do tempo, mas todo esse panorama retrospectivo se sucedeu certamente em menos de um dia... talvez nalgumas horas.

Sitiens. ─ Então não compreendo mais. Se 72 anos terrestres passaram sob vossos olhos, deveriam ter gasto exatamente 72 anos para vos aparecer, e não algumas horas. Se o ano de 1793 só vos aparecia em 1864, o de 1864, em compensação, não vos deveria aparecer senão em 1936?

Lumen. ─ Vossa objeção é fundada e me prova que compreendestes bem a teoria do fato. Assim, vou explicar-vos como não me foi necessário esperar 72 novos anos para rever minha vida, e como, sob o impulso de uma força inconsciente, efetivamente a revi em menos de um dia.

“Continuando a seguir minha existência, cheguei aos últimos anos notáveis pela transformação radical que sofreu Paris; vi meus últimos amigos e a vós mesmo; minha família e meu círculo de amizades; enfim, chegou o momento em que me vi deitado no leito de morte e onde assisti à última cena. É dizer-vos que tinha voltado à Terra.

“Atraída pela contemplação que a absorvia, rapidamente minha alma tinha esquecido a montanha dos velhos e Capela. Como a gente sente, às vezes, em sonho, ela se evolava na direção do objetivo de seus olhares. A princípio não me apercebi, tanto a estranha visão dominava todas as minhas faculdades. Não vos posso dizer nem por que lei, nem por que força as almas podem transportar-se tão rapidamente de um a outro lugar, mas a verdade é que eu tinha voltado à Terra em menos de um dia, e que eu penetrava em meu quarto justo no momento de meu enterro.

“Sendo que nessa viagem de volta eu ia à frente dos raios luminosos, eu diminuía incessantemente a distância que me separava da Terra; a luz tinha cada vez menos caminho a percorrer e acelerava assim a sucessão dos acontecimentos. No meio do caminho, quando estava a apenas de 36 anos, eles não me mostravam mais a Terra de 72 anos antes, mas de 36. A três quartos do caminho, os aspectos eram atrasados apenas 18 anos. Na metade do último quarto, chegavam-me apenas após passados 9 anos, e assim por diante, de sorte que a série inteira de minha existência se achou condensada em menos de um dia, devido à rápida volta de minha alma, indo à frente dos raios luminosos.”

Quando Lumen chegou a Capela, viu um grupo de velhos ocupados em considerações sobre a Terra, dissertando sobre o acontecimento de 1793. Um deles disse aos companheiros: “De joelhos, meus irmãos, peçamos indulgência ao Deus universal. Esse mundo, essa nação, essa cidade manchou-se por um grande crime; a cabeça de um rei inocente acaba de cair.”

─ Aproximei-me do ancião, disse Lumen, e lhe pedi que me fizesse o relato de suas observações.

“Ele informou-me que pela intuição de que são dotados os Espíritos do grau dos que habitam esse mundo, e pela faculdade íntima de percepção que receberam em partilha, eles possuem uma espécie de relação magnética com as estrelas vizinhas. Essas estrelas são em número de doze ou quinze; são as mais próximas; fora dessa região, a percepção torna-se confusa.

“Nosso Sol é uma dessas estrelas vizinhas[2]. Eles conhecem, pois, vagamente mas sensivelmente, o estado das Humanidades que habitam os planetas dependentes desse sol, e o seu relativo grau de elevação intelectual e moral.

“Além disto, quando uma grande perturbação atravessa uma dessas Humanidades, quer na ordem física, quer na ordem moral, eles sofrem uma espécie de comoção íntima, como acontece quando uma corda vibra e faz entrar em vibração uma outra corda situada à distância.

“Há um ano (o ano desse mundo é igual a dez nos nossos), eles se tinham sentido atraídos por uma emoção particular para o planeta terrestre, e os observadores tinham seguido com interesse e inquietude a marcha deste mundo.”

Laboraríamos em erro se deduzíssemos do que precede que os habitantes das diversas esferas, do ponto onde estão, lançam um olhar investigador sobre o que se passa em outros mundos, e que os acontecimentos que aí se realizam passam sob seus olhos como no campo de uma luneta. Ademais, cada mundo tem suas preocupações especiais, que cativam a atenção de seus habitantes, conforme suas próprias necessidades, seus costumes completamente diferentes, e seu grau de adiantamento. Quando os Espíritos encarnados num planeta têm motivos para se interessarem pelo que se passa num outro mundo, ou por alguns dos que o habitam, sua alma para lá se transporta, como fez a de Lumen, em estado de desprendimento, e então se tornam momentaneamente, por assim dizer, habitantes espirituais desse mundo, ou aí se encarnam em missão. Eis, pelo menos, o que resulta do ensinamento dos Espíritos.

Esta última parte do relato de Lumen carece, pois, de exatidão, mas não se deve perder de vista que esta história não passa de uma hipótese destinada a tornar mais acessíveis à inteligência, e de certo modo palpáveis pela entrada em ação, da demonstração de uma teoria científica, como fizemos observar em nosso artigo precedente.

Chamamos a atenção para o parágrafo acima, no qual é dito que: “As grandes perturbações físicas e morais de um mundo produzem sobre os mundos vizinhos uma espécie de comoção íntima, como acontece quando uma corda vibra e faz entrar em vibração uma outra corda situada à distância.” O autor, que em matéria de Ciência não fala levianamente, anuncia aí um princípio que um dia bem poderia ser convertido em lei. A Ciência já admite, como resultado da observação, a ação recíproca material dos astros. Se, como se começa a suspeitar, esta ação, aumentada por certas circunstâncias, pode ocasionar perturbações e cataclismos, nada haveria de impossível que essas mesmas perturbações tivessem seu contragolpe. Até o presente a Ciência considerou apenas o princípio material, entretanto, se levarmos em conta o princípio espiritual como elemento ativo do Universo, e se pensarmos que esse princípio é tão geral e tão essencial quanto o princípio material, conceberemos que uma grande efervescência desse elemento e das modificações que ele sofre num ponto dado, possam ter sua reação, por força da correlação necessária que existe entre a matéria e o espírito. Há certamente nesta ideia o germe de um princípio fecundo e de um estudo sério para o qual o Espiritismo abre caminho.



[1] Segundo o cálculo, e em razão da distância do Sol, que é de 38.230.000 léguas de 4 quilômetros, a luz desse astro nos chega em 8 minutos e 13 segundos. Disso resulta que um fenômeno que se passasse em sua superfície só nos chegaria 8 minutos e 13 segundos mais tarde, e que se o fenômeno fosse instantâneo, já não mais existiria quando o víssemos. Sendo a distância da Lua apenas de 85.000 léguas, sua luz nos chega mais ou menos em um segundo e um quarto; consequentemente, as perturbações que aí pudessem ocorrer nos apareceriam pouco depois do momento em que ocorressem. Se Lumen estivesse na Lua, teria visto Paris de 1864 e não de 1793; se estivesse num mundo duas vezes mais afastado do que Capela, teria visto a Regência.


[2] 170 trilhões e 892 bilhões de léguas! Pela distância que separa as estrelas vizinhas, podemos imaginar a extensão ocupada pelo conjunto das que, entretanto, nos parecem à vista tão perto umas das outras, sem contar o número infinitamente maior das que só são perceptíveis com o auxílio do telescópio, e que não são, elas próprias, senão uma ínfima fração daquelas que, perdidas nas profundezas do infinito, escapam a todos os nossos meios de investigação. Se considerarmos que cada estrela é um sol, centro de um turbilhão planetário, compreenderemos que o nosso próprio turbilhão não passa de um ponto nessa imensidão. O que, então, nosso globo de 3.000 léguas de diâmetro, entre esses bilhões de mundos? Que são esses habitantes que durante muito tempo acreditaram que seu pequeno mundo é o ponto central do Universo, e eles próprios se crerem os únicos seres vivos da criação, concentrando apenas neles próprios as preocupações da solicitude do Eterno, e crendo de boa fé que o espetáculo dos céus não tinha sido feito senão para lhes recrear a vista? Todo esse sistema egoístico e mesquinho que durante longos séculos constituiu o fundamento da fé religiosa, esboroou-se diante das descobertas de Galileu.


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