Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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(Fragmentos do drama do Sr. Ponsard)

(Vide o nº precedente)

Um século antes de Galileu, Copérnico tinha concebido o sistema astronômico que traz o seu nome[1], Com o auxílio do telescópio que havia inventado, e juntando a observação à teoria, Galileu completou as ideias de Copérnico e demonstrou sua verdade pelo cálculo. Com seu instrumento, ele pôde estudar a natureza dos planetas e sua similitude com a Terra. Ele concluiu pela sua habitabilidade. Igualmente tinha reconhecido que as estrelas são outros tantos sóis, disseminados no espaço sem limites, e pensou que cada uma devia ser o centro do movimento de um sistema planetário. Ele acabava de descobrir os quatro satélites de Júpiter, e esse acontecimento abalou o mundo científico e o mundo religioso.

O poeta se dedica, no seu drama, a pintar a diversidade dos sentimentos que ele excitou, conforme o caráter e os preconceitos dos indivíduos.

Dois estudantes da Universidade conversam sobre a descoberta de Galileu, e como não estão de acordo, aconselham-se com um professor de renome.

ALBERTO

Sobre certo ponto, doutor, estamos em desacordo.

E queríamos saber o que pensais.


POMPEU

Ele concorda em pedir conselho a gente sensata.

─ Bem, de que se trata?


VIVIAN

De quatro satélites

Em redor de Júpiter descrevendo suas órbitas.


POMPEU

Eles não existem.


VIVIAN

Mas...


POMPEU

Não poderiam existir.


VIVIAN

Entretanto podem ser vistos e contados.


POMPEU

Não podem ser contados, de vez que não existem.


ALBERTO

Tu ouves,Vivian?


VIVIAN

E por que isto, mestre?


POMPEU

Porque sustentar que Deus pode ter feito

Quatro globos, além dos sete que se sabe,

É afirmação má, um tema quimérico, Antirreligioso, antifilosófico.

(Percebendo Galileu acompanhado por muitos estudantes)

Basbaques tolos! e charlatão infame!


ALBERTO a VIVIAN

Tu vês que o doutor Pompeu é contra ti.


VIVIAN

Tanto melhor para a doutrina na qual tenho fé;

A marcha natural de toda verdade

É logo contra ela amotinar todos os pedantes.



Aí está claramente a força do raciocínio de certos negadores das ideias novas: Isto não é porque não pode ser. Perguntava-se a um cientista: Que diríeis se vísseis uma mesa elevar-se sem ponto de apoio? ─ Não acreditaria, respondeu ele, porque sei que isto não pode ser.


UM MONGE, falando à multidão

Escutai o que diz o Apóstolo: Por que, Galileu, Passeais os olhos pelos céus?

Assim, de antemão, lançava o anátema

Contra ti, Galileu, e contra teu sistema.

Nós mesmos hoje vemos claramente

Que horror tem o céu a esse ensinamento,

E o Arno transbordado e o granizo em nossas vinhas, São lamentáveis sinais da cólera divina. ─ Meus irmãos, desprezai essas mentiras grosseiras; Para que a Terra ande, ela tem pés?

Se a lua se move, é que um anjo a guia;

Porque a cada planeta um condutor preside; Mas a Terra, onde estaria seu anjo? ─ Nos montes?

A gente o veria. ─ No centro? Este aloja os demônios.

Lívia, mulher de Galileu, é o tipo das criaturas de espírito estreito, mais preocupadas com a vida material do que com a glória e a verdade.


LÍVIA, a Galileu

... Por que esquentais as cabeças,

Derramando uma porção de máximas novas? Todas essas novidades são, para dizer de uma vez, Invenções do diabo e cheiram a mentiras.

Pela maneira por que cada um já vos olha, Isto vai acabar mal, se não vos resguardardes.

Oh! Por que não imitais os dignos professores Que dizem o que disseram os seus predecessores?

São pessoas nas quais reinam a ordem e o bom-senso;

Ensinam sem barulho o que querem que ensinem, E sem se meterem a debater em público

Se se deve crer em Aristóteles ou em Copérnico.

Sabiamente sustentam que a opinião verdadeira

Deve ser aquela para a qual se lhes paga E que, se Aristóteles abre o cofre forte, Aristóteles está certo e Copérnico errado.

Assim com ninguém se desentendem

E embolsam em paz os florins que lhes dão;

Prosperam, moram bem e estão bem nutridos; Suas filhas têm dotes e encontram maridos; Seu auditório é suave e jamais se exalta;

Voltam para casa à hora do jantar; Mas vós, vós fazeis raiva e vos aplaudem,E durante esse tempo o jantar fica frio.

Fragmentos do monólogo de Galileu, no começo do segundo ato:

Não, não mais os tempos são aqueles em que, rainha solitária,

Sobre seu trono imóvel assentavam a Terra;

Não, o carro veloz, levando o astro do dia, Da aurora ao poente não mais faz o seu giro;

O firmamento já não é abóbada cristalina

Que, como teto azul, de lustres se ilumina;

Não é mais só para nós que Deus fez o Universo; Mas longe de nos humilharmos, rejubilemo-nos

Porque se abdicamos a uma falsa realeza,

Ao reino da verdade a Ciência nos eleva;

Quando se apequena o corpo, o espírito se agiganta; Nossa nobreza cresce, ou nosso nível decai. É mais belo para o homem, ínfima criatura,

Penetrar os segredos velados pela Natureza,

E ousar abarcar, em sua concepção, A lei universal da Criação,

Que ser, como nos dias de vaidades mentirosas,

Rei de uma ilusão e detentor de um sonho,

Centro inculto de um todo que acredita ser sua obra, E que pelo pensamento ele hoje conquista.

Sol, globo de fogo, gigantesca fornalha,

Caos incandescente onde tudo começa,

Furioso oceano onde furiosos se agitam

Líquidos granitos e matais fundidos,

Ferindo, quebrando, misturando suas vagas inflamadas

Sob negras explosões de fumo carregadas,

Vagalhão ardente onde uma ilha vermelha nada,

Hoje labéu, amanhã crosta solar;

Ao teu redor se move, ó braseiro fecundo,

A Terra, nossa mãe, há pouco resfriada, E como ela resfriados, e como ela habitados, Marte sanguíneo, e Vênus, de brancas claridades;

Vizinho aos teus esplendores, Mercúrio neles se banha,

E Saturno, exilado nos confins de teu reino; E por Deus, depois por mim, no éter coroado Por quádruplo diadema de luas, Júpiter.

Porém, astro soberano, centro desses mundos todos,

Muito além de teu império, nos limites profundos,

Milhões de sóis, tão numerosos, tão densos, Que são incontáveis e em grupos confusos,

Prolongam, como tu, suas grandes crateras,

Fazem mover, como tu, mundos planetários, Que giram em torno deles, fazendo a sua corte E recebem de seu rei o calor e o dia.

Oh! sim, sois melhores que lâmpadas noturnas, Que iluminariam por nós veladores taciturnos,

Inumeráveis clarões, estrelas que empoais,

Com poeira de ouro os caminhos azulados;

Em vós também palpita a vida universal,

Grandes focos onde nosso olhar apenas vê uma centelha.

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Em toda parte a ação, o movimento e a alma!

Por toda parte, rolando em torno de seus centros em chamas,

Globos habitados, cujos seres pensantes,

Vivem como eu vivo, sentem como eu sinto,

Uns mais rebaixados, outros talvez Mais elevados que nós nos degraus do ser!

Como é grande e belo! Em que culto profundo O espírito, estupefato, se abisma e se confunde! Inesgotável autor, que tua onipotência Aí se mostra em sua glória e magnificência! Que a vida espalhada em ondas no infinito,

Vastamente proclame teu nome em toda parte abençoado!

Ide, perseguidores! Lançai vossos anátemas!

Sou muito mais religioso do que vós mesmos.

Deus, que invocais, melhor que vós eu sirvo:

Para mim brilha em todos os pontos a obra divina;

Vós a reduzis e eu a dilato; Como se punham reis em carros triunfais, Eu ponho universos aos pés do Criador.

Fragmentos do diálogo entre o Inquisidor e Galileu.



O INQUISIDOR

Não há verdade senão nas Escrituras;

Tudo o mais são erros, visões, imposturas; O que se acredita contrário ao seu ensino Não é uma claridade, é uma cegueira.


GALILEU

A fé do cristão é regida pela regra;

Sua única autoridade reina na Teologia,

E a adoração deve curvar os espíritos

Sob os dogmas divinos que aí são inscritos;

Mas o mundo físico escapa a seu domínio;

Deus o entrega por inteiro à discussão humana; Como se trata de objetos que caem sob os sentidos,

Os sentidos e a razão aí se mostram onipotentes;

A autoridade se cala; nenhuma ordem pode fazer

Raios desiguais no centro da esfera, Ninguém pode acusar o compasso de heresia, Nem decretar que um corpo que gira não gire.

O olho é juiz, numa palavra, do Universo visível.

Se o dogma imutável é fixado pela Bíblia, À Ciência repugna a imortalidade, E, morrendo nos ferros, vive para a liberdade.

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O INQUISIDOR

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Ora, não vês, então, que teu novo sistema, Perturbando a Astronomia, abala a própria fé? O erro material admitido sobre um ponto

Torna suspeito o testemunho de todo o Testamento; Quem pode ter falhado não é mais infalível; A dúvida é permitida e o exame é possível, E em breve se conclui, desde que se ouse julgar, Da falsa Física o dogma mentiroso.


GALILEU

Eu, destruir a fé, quando o culto engrandeço!
Mostrar Deus em sua obra será insultá-lo?
Ah! Compreendê-la melhor é melhor adorá-la,
E honrá-la mal é desfigurá-la.

Os céus, segundo a Bíblia, na qual devemos crer,

Os céus nos contam a glória de seu autor;

Então, mais que ninguém, escutei seu relato
E o repeti, como os céus o disseram.

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Pode-se barrar o curso de uma verdade nova?

Parar uma gota, será deter um rio?

Crede-me, respeitai estas aspirações,

Elas têm muito impulso e muitas expansões
Para suportar que um carcereiro possa mantê-las presas;
Deixai-lhes campo livre, ou desgraça às barreiras!

─ Ah! Roma, nos primeiros dias de teu proscrito culto,

Dizias não opor à clava senão o espírito;
Então só triunfaste para trocar de papel,
E tu mesma opor a clava à palavra?

Antônia, filha de Galileu, vendo o pai proscrito, lhe diz:

Eis a tua Antígona. Sim, meu amor piedoso

Conduzirá o proscrito, vencedor da esfinge dos céus.

Dirigindo teu bastão de vale em vale,

Direi: “Dai-me pão para Galileu,

Para aquele que, privado de teto pelos cristãos,

Teria tido altares entre os povos pagãos.”

Galileu sondou as profundezas dos céus e revelou a pluralidade dos mundos materiais. Como dissemos, foi toda uma revolução nas ideias; um novo campo de exploração foi aberto à Ciência. O Espiritismo vem operar outra não menor, revelando a existência do mundo espiritual que nos rodeia. Graças a ele, o homem conhece seu passado e seu verdadeiro destino. Galileu derrubou as barreiras que circunscreviam o Universo. O Espiritismo o povoa e enche o vazio dos espaços infinitos. Embora mais de dois séculos nos separem das descobertas de Galileu, muitos preconceitos ainda estão vivos; a nova doutrina emancipadora encontra os mesmos obstáculos; atacam-na com as mesmas armas, opõem-lhe os mesmos argumentos. Lendo o drama do Sr. Ponsard, poderíamos dar nomes próprios modernos a cada um de seus personagens. Entretanto, a má vontade e a perseguição não impediram que a doutrina de Galileu triunfasse, porque ela era a verdade. Darse-á o mesmo com o Espiritismo, porque também ele é uma verdade. Seus detratores serão olhados pela geração futura com os mesmos olhos com que olhamos os de Galileu.



[1] Copérnico, astrônomo polonês nascido em Thorn (Estados Prussianos) em 1473, falecido em 1543. ─ Galileu, nascido em Florença em 1564, condenado em 1633, morreu cego em 1644. O sistema de Copérnico já estava condenado pela Igreja.


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