Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Punição do ateu

Viagem pitoresca e sentimental ao Campo de Repouso em Montmartre e ao Père-Lachaise, por Ans. Caillot, autor da enciclopédia das jovens e das novas lições elementares da História da França.” Tal é o título de um livro publicado em Paris em 1808, e que hoje deve ser muito raro. Depois de haver contado a história e dado a descrição desses dois cemitérios, o autor cita um grande número de inscrições tumulares, sobre cada uma das quais faz reflexões filosóficas marcadas por um profundo sentimento religioso, provocadas pelo pensamento que as ditou. Inicialmente aí observamos a passagem seguinte, na qual se encontra expressa claramente a ideia da reencarnação:

“Que sábio e que homem profundamente religioso foi o primeiro a chamar de Campo de Repouso o último asilo desse ser cuja existência, até seu último suspiro, é atormentado pelos seres que o cercam e por si próprio! Aqui todos repousam no seio da mãe comum, num sono que não é senão o precursor do despertar, isto é, de uma nova existência. Esses restos veneráveis, a terra os conserva como um depósito sagrado; e se ela se apressa em dissolvê-los, é para depurar seus elementos e tornálos mais dignos da inteligência que os reanimará um dia para novos destinos. Mais adiante ele diz:

“Oh! Quão admirado ficou o cego e audacioso mortal que ousou te expulsar de seu espírito e de seu coração (o ateu que renega a Deus) quando sua alma compareceu ante a Majestade Infinita! Como não foram vistos seus despojos agitarse e tremer de surpresa e de terror? Como sua língua gelada não se animou para exprimir o espanto de que estava ferida, quando a carne não mais se achou entre ela e teus olhares divinos! Grande Deus! Causa universal e alma da Natureza! Todos os seres te reconhecem e te celebram como seu único autor. Só o homem desviaria de ti o espírito inteligente e racional que lhe dás para te glorificar? Ah! Sem dúvida, e apraz-me crê-lo, não houve um só dos quarenta mil mortais cujos corpos jazem aqui no pó, que não tivesse a convicção de tua existência e o sentimento de tuas adoráveis perfeições.

“Quando eu acabava de pronunciar com emoção estas últimas palavras, um ruído se fez ouvir ao meu lado. Lancei o olhar para o lado de onde vinha, e percebi, coisa admirável e incrível! Um espectro que, envolto em sua mortalha, tinha saído de um túmulo e avançava gravemente para mim para me falar. Essa aparição não seria um jogo de minha imaginação? É o que me é impossível assegurar, mas o diálogo seguinte, de que me lembro muito bem, me faz crer que eu não era o único interlocutor para dois papéis ao mesmo tempo.”

Aqui faremos uma pequena observação crítica, inicialmente sobre a qualificação de espectro dada pelo autor à aparição, real ou suposta. Esta palavra lembra muito as ideias lúgubres que a superstição liga ao fenômeno das aparições, hoje perfeitamente explicado, conforme o conhecimento que se tem da constituição dos seres espirituais. Em segundo lugar, porque ele faz essa aparição sair do túmulo, como se a alma dele fizesse sua morada. Mas isto é apenas um detalhe de forma, devido a preconceitos longamente arraigados; o essencial está no quadro que ele apresenta da situação moral dessa alma, situação idêntica à que hoje nos revelam as comunicações com os Espíritos.

O autor relata da seguinte forma o diálogo que teve com o ser que lhe apareceu:

“Quando o espectro aproximou-se de mim, fez-me ouvir estas palavras com uma voz tal que me era impossível especificar o som, pois jamais tinha ouvido um semelhante entre os homens:

O ESPECTRO: ─ Fazes bem em adorar a Deus. Guarda-te de jamais me imitar, porque fui um ateu.

EU: ─ Então não acreditavas que existia um Deus?

O ESPECTRO: ─ Não, ou melhor, eu fingi que não acreditava.

EU: ─ Que razões tinhas para não crer que o Universo foi produzido e é governado por uma inteligência suprema?

O ESPECTRO: ─ Nenhuma. Por mais que procurasse, eu não tinha pontos sólidos e estava reduzido a repetir vãos sofismas que havia lido nas obras de alguns pretensos filósofos.

EU: ─ Se não tinhas boas razões para ser ateu, então tinhas motivos para o parecer?

O ESPECTRO: ─ Sem dúvida. Vendo todos os meus semelhantes penetrados da ideia de um Deus e do sentimento de sua existência, o orgulho que me cegava levou-me a distinguir-me da multidão, sustentando a quem quer que me quisesse ouvir que Deus não existia e que o Universo era obra do acaso, ou mesmo que tinha existido sempre. Eu considerava como uma glória pensar neste grande assunto de modo diverso de todos os homens, e não achava nada mais lisonjeiro que ser considerado no mundo como um Espírito bastante forte para me insurgir contra a crença comum de todos os homens e de todos os séculos.

EU: ─ Não tinhas outro motivo senão o orgulho para abraçar o ateísmo?

O ESPECTRO: ─ Sim.

EU: ─ Qual era esse motivo? Dize a verdade.

O ESPECTRO: ─ A verdade!!... Sem dúvida eu a direi. Porque me é impossível, na ordem de coisas em que existo, combatê-la ou dissimulá-la.

“Como todos os meus semelhantes, nasci com o sentimento da existência de um Deus, autor e princípio de todos os seres. Esse sentimento, que inicialmente era apenas um germe, no qual meu espírito nada descobria, desenvolveu-se pouco a pouco, e quando atingi a idade da razão e adquiri a faculdade de refletir, não tive que fazer qualquer esforço para dele me livrar. Quanto as lições de meus pais e de meus mestres me agradavam! Quando Deus e suas perfeições infinitas eram o assunto! Quanto me encantava o espetáculo da Natureza e que suave satisfação eu experimentava quando me falavam desse grande Deus que tudo criou por seu poder, e tudo sustenta, governa e conserva por sua sabedoria!

“Entretanto, cheguei à adolescência, e as paixões começaram a me fazer ouvir sua voz sedutora. Eu estabelecia ligações com gente moça, da minha idade. Segui seus funestos conselhos e passei a viver conforme os seus perigosos exemplos. Entrando no mundo com essas disposições culposas, não pensei mais senão em lhe fazer o sacrifício de todos os princípios de virtude e de sabedoria que a princípio me haviam inspirado. Esses princípios, diariamente atacados por minhas paixões, refugiaram-se no fundo de minha consciência e aí se transformaram em remorsos. Como esses remorsos não me permitiam nenhum repouso, resolvi aniquilar, na medida das minhas possibilidades, a causa que os tinha feito nascer. Achei que essa causa não era outra coisa senão a ideia de um Deus remunerador da virtude e vingador do crime; ataquei-o com todos os sofismas que meu Espírito pôde inventar ou descobrir nas obras destinadas a engrandecer a doutrina do ateísmo.

EU: ─ Ficaste mais tranquilo quando amontoaste sofismas sobre sofismas contra a existência de Deus?

O ESPECTRO: ─ Por mais que fizesse, o repouso me fugia incessantemente. Malgrado meu, eu estava convencido, e embora minha boca não pronunciasse uma palavra que não fosse uma blasfêmia, eu não tinha um sentimento que não combatesse contra mim, em favor de Deus.

EU: ─ Que se passou em ti durante a moléstia de que morreste?

O ESPECTRO: ─ Eu quis sustentar até o fim o caráter de espírito forte; o orgulho impedia-me de confessar o meu erro, embora sentisse interiormente a premente necessidade. Foi nessa criminosa e falsa disposição que cessei de existir.

EU: ─ Que te aconteceu quando teus olhos para sempre se fecharam à luz?

O ESPECTRO: ─ Encontrei-me totalmente envolvido pela majestade de Deus e fui tomado de um terror tão profundo que não acho um termo que possa dar-te uma justa ideia. Eu esperava muito ser rigorosamente castigado, mas o soberano juiz, cuja misericórdia suaviza a justiça, relegou-me a uma tenebrosa região, habitada pelos Espíritos que tiveram mãos inocentes e um cérebro doente.

EU: ─ Qual a sorte dos ateus que cometeram crimes contra a Sociedade de seus semelhantes?

O ESPECTRO: ─ O Ser dos Seres os pune por terem sido maus e não por se terem enganado, porque ele despreza as opiniões e não recompensa ou não pune senão as ações.

EU: ─ Então não és castigado na morada tenebrosa onde estás exilado?

O ESPECTRO: ─ Eu aí sofro uma pena mais cruel do que podes imaginar. Deus, depois de me haver condenado, afastou-se de mim. Imediatamente perdi toda ideia de minha existência, e o nada apresentou-se-me em todo o seu horror.

EU: ─ O quê! Perdeste inteiramente a ideia da existência de Deus?

O ESPECTRO: ─ Sim. É o maior suplício que um Espírito imortal pode suportar, e nada pode fazer conceber o estado de abandono, de dor e de desordem em que se encontra.

EU: ─ Qual é, pois, a tua ocupação com os Espíritos sujeitos ao mesmo suplício?

O ESPECTRO: ─ Nós discutimos incessantemente, sem nos entendermos. O despropósito e a loucura presidem a todos os nossos debates, e na profunda escuridão em que se acha mergulhada nossa inteligência, não há uma opinião, um sistema que ela não adote, para logo o repelir e conceber novas extravagâncias. É, pois, a agitação perpétua desse fluxo e refluxo de ideias sem fundamento, sem continuidade, sem ligação, que consiste no castigo dos filósofos que foram ateus. EU: ─ Contudo, neste momento raciocinas.

O ESPECTRO: ─ É porque meu suplício em breve vai terminar. Ele foi muito longo, porque embora na Terra não contem senão dois anos desde a minha morte, sofri de tal modo todas essas loucuras que disse e ouvi, que me parece já ter passado milhares de séculos na região dos sistemas e das disputas.

Tendo assim falado, o Espectro inclinou-se, adorou a Deus e desapareceu.

Quando me refiz da emoção que o que acabava de ver e ouvir me tinha causado, meus pensamentos foram para as coisas espantosas que o espectro me havia ensinado. O que ele me disse do primeiro ser corresponde à ideia que tão grande número de homens fizeram? O que acabo de ouvir? O quê! O próprio ateu, o horror de seus semelhantes, acabou por encontrar graça aos olhos dessa divindade que me apresentam como uma natureza vingativa e invejosa? Ah! Quem ousará agora dizer-me: Se não adotares tal ou qual opinião, serás condenado a eternos suplícios? Que bárbaro ousará dizer: Fora de minha comunhão não há salvação? Ser incompreensível e todo misericordioso, encarregaste alguém do cuidado de te vingar? Cabe a uma vil criatura dizer aos seus semelhantes: Pensa como eu, ou serás infeliz para sempre! Que limites, grande Deus, podemos nós, limitados que somos, estabelecer para a tua clemência e para a tua justiça? E com que direito eu te diria: Aqui tu recompensarás, ali tu punirás? Respondei, ó mortos que jazeis nesse pó! Possível vos foi ter todos a crença na qual eu nasci? Vossas inteligências foram todas igualmente tocadas por provas que estabelecem os mistérios que eu adoro e os dogmas nos quais creio? Ah! Como os degraus de uma crença seriam os mesmos em toda parte, bem como os degraus da convicção? Homem intolerante e cruel, vem, se tiveres coragem, sentar-te ao meu lado, e ousa dizer às vítimas da morte cujas lições escutei, ousa dizer-lhes: “Aqui sois quarenta mil; pois bem, não há senão dez, cinquenta, cem entre vós, que o Deus vingador não destinou às chamas eternas!”

Se esse discurso não fosse de um insensato, para que serviria a religião dos túmulos? Por que deveria eu respeitar as cinzas daqueles que não adoram o grande Ser à minha maneira? É neste recinto, onde os inimigos de minha crença repousam, confundidos com seus sectários, que eu poderia ouvir as lições da verdadeira sabedoria? E de que impiedade tornar-me-ia culpado por comunicar-me com inteligências reprovadas, a cujos despojos venho render uma homenagem inspirada pela religião, como pela Humanidade?

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