Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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(Sociedade de Paris, 22 de março de 1867 - Médium: Sr. Desliens)

Pergunta. ─ Conforme os pensamentos contidos nos fragmentos que acabam de ser lidos, vós mesmo pareceis ter sido animado pelo espírito profético do qual falais e que descreveis tão bem. Apenas meio século nos separa da época em que escrevíeis estas linhas admiráveis, e já vemos se realizarem as vossas previsões. Talvez não seja do ponto de vista exclusivo em que então vos colocavam as vossas crenças, mas com certeza tudo nos mostra como iminente e em vias de realizar-se a grande revolução moral que pressentistes e que preparam as ideias novas. O que dizeis tem uma relação tão evidente com o Espiritismo, que podemos, com toda razão, considerar-vos como um dos profetas de sua vinda. Sem dúvida a Providência vos havia colocado no meio em que, pelo fato dos vossos princípios, vossas palavras deviam ter mais autoridade. Elas foram compreendidas por vosso partido? Ele ainda as compreende hoje? É licito duvidar.

Hoje, que podeis encarar as coisas de maneira mais larga e abarcar mais vastos horizontes, teríamos prazer em ter a vossa apreciação atual sobre o espírito profético e sobre a parte que deve ter o Espiritismo no movimento regenerador.

Além disto, ficaríamos muito honrados se pudéssemos contar-vos, para o futuro, no número dos bons Espíritos que querem concorrer para a nossa instrução.

Resposta. ─ Senhores, embora não seja a primeira vez que me encontro entre vós, como me introduzi oficialmente hoje, pedirei que aceiteis os meus agradecimentos pelas palavras benevolentes que tivestes a delicadeza de pronunciar em minha intenção e que recebais minhas felicitações pela sinceridade e pelo devotamento que presidem aos vossos trabalhos.

O amor à verdade foi o meu guia único, e se em vida fui partidário de uma seita que aprenderam a julgar com severidade, é que eu cria nela achar os elementos, a força de ação necessária para chegar ao conhecimento dessa verdade que suspeitava. ─ Eu vi a terra prometida, mas não pude nela penetrar em vida. Mais felizes que eu, senhores, aproveitai o favor que vos é conferido por vossa boa vontade, melhorando o vosso coração e o vosso espírito, e fazendo partilhar de vossa felicidade todos aqueles de vossos irmãos em Humanidade, que não oporão à vossa propaganda senão a reserva natural a cada homem colocado diante do desconhecido.

Como eles, eu teria querido racionalizar a vossa crença antes de aceitá-la, mas não a teria odiado, por mais bizarros que fossem seus meios de manifestação, pela simples razão que ela poderia prejudicar os meus interesses, ou porque me agradasse agir assim.

Pudestes convencer-vos disto, pois eu estava com o clero, como adepto da moral do Evangelho, mas não estava com ele como partidário da imutabilidade do ensino e da impossibilidade de novas manifestações da vontade divina. Penetrado das Santas Escrituras, que eu li, reli e comentei, a letra e o espírito me faziam prever o novo acontecimento. Agradeço a Deus por isso, porquanto eu era feliz em esperança, para mim que sentia intuitivamente que participaria da felicidade de conhecer as novas verdades, em qualquer parte onde eu estivesse; por meus irmãos em Humanidade que veriam se dissiparem as trevas da ignorância e do erro, diante de uma evidência irrefutável.

O espírito profético abrasa o mundo inteiro com seus eflúvios regeneradores. ─ Na Europa, como na América, na Ásia, em toda parte, entre os católicos como entre os muçulmanos, em todos os países, em todos os climas, em todas as seitas religiosas, a nova revelação se infiltra, com a criança que nasce, com o jovem que se desenvolve, com o velho que se vai. ─ Uns chegam com os materiais necessários para a edificação da obra; outros aspiram a um mundo que lhes revelará os mistérios que pressentem. ─ E, se a perseguição moral vos verga ao seu jugo, se o interesse material, a posição social detém alguns dos filhos do Espírito em sua marcha ascendente, esses serão os mártires do pensamento, cujos suores intelectuais fecundarão o ensino e prepararão as gerações do futuro para uma vida nova.

Na França o Espiritismo se manifesta sob outro nome que na Ásia. Ele tem agentes nas diversas nuanças da religião católica, como as tem entre os sectários da religião muçulmana. ─ Lá a revelação, num grau inferior de desenvolvimento, é afogada no sangue; nem por isto deixa de prosseguir a sua marcha e suas ramificações cercam o mundo numa vasta rede cujas malhas vão se apertando à medida que o elemento regenerador mais se desvela. ─ Católicos e protestantes buscam fazer penetrar a nova crença entre os filhos do Islã, ainda que encontrando obstáculos intransponíveis e mesmo que muito raros adeptos viessem colocar-se sob sua bandeira.

O espírito profético aí tomou outra forma; assemelhou ou a sua linguagem, suas instruções, às formas materiais e aos pensamentos íntimos daqueles a quem se dirigia. ─ Bendizei a Providência, que vê melhor que vós como e por quem ela deve trazer o movimento que impele os mundos para o infinito.

A aspiração a novos conhecimentos está no ar que respiramos, no livro que é escrito, no quadro que se pinta; a ideia se imprime no mármore do estatuário como na pena do historiador, e aquele que muito se admirasse de ser colocado entre os espíritas, é um instrumento da Onipotência para a edificação do Espiritismo.

Interrompo esta comunicação, que se torna fatigante para o médium, que não está habituado ao meu influxo fluídico. Continuá-la-ei em outra oportunidade, e virei, porquanto este é vosso desejo, trazer minha parte de ação aos vossos trabalhos, pois não mais me contento de a eles assistir como testemunha invisível ou como inspirador desconhecido que tenho sido muitas vezes.

J. DE MAISTRE

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