Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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(Paris, grupo Delanne, 4 de fevereiro de 1867 - Médium: Sr. Morin)

A fé cega é o pior de todos os princípios! Crer com fervor num dogma qualquer, quando a sã razão se recusa a aceitá-lo como uma verdade, é fazer ato de nulidade e privar-se voluntariamente do mais belo de todos os dons que nos concedeu o Criador; é renunciar à liberdade de julgar, ao livre-arbítrio que deve presidir a todas as coisas na medida da justiça e da razão.

Geralmente os homens são despreocupados e não creem numa religião senão por desencargo de consciência e para não rejeitar completamente suas boas e suaves preces que lhe embalaram a juventude, e que sua mãe lhes ensinou ao pé do fogo, quando a noite trazia consigo a hora do sono. Mas se esta lembrança por vezes se apresenta ao seu espírito, é, na maioria das vezes, com um sentimento de pesar que eles fazem um retorno a esse passado, onde as preocupações da idade madura ainda estavam enterradas na noite do futuro.

Sim, todo homem lamenta esta idade despreocupada, e bem poucos podem pensar em seus jovens anos!... Mas, o que deles resta, um instante depois?... ─ Nada!...

Comecei dizendo que a fé cega era perniciosa; mas nem sempre se deve rejeitar como fundamentalmente mau tudo quanto parece conspurcado pelos abusos, composto de erros e sobretudo inventado à vontade, para a glória dos orgulhosos e para o beneficio dos interesseiros.

Espíritas, deveis saber melhor que ninguém que nada se realiza sem a vontade do Mestre supremo; a vós cabe refletir muito, antes de formular o vosso julgamento. Os homens são vossos irmãos encarnados e é possível que numerosos trabalhos dos tempos antigos sejam obras vossas, realizadas numa existência anterior. Os espíritas, antes de tudo, devem ser lógicos com seu ensino e não atirar pedras às instituições e às crenças de outras épocas, apenas porque são de outra época. A Sociedade atual necessitou, para ser o que é, que Deus lhe concedesse, pouco a pouco, a luz e o saber.

Não vos cabe, pois, julgar se os meios por ele empregados eram bons ou maus. Não aceiteis senão o que vos parece racional e lógico, mas não esqueçais que as coisas velhas tiveram a sua mocidade e que aquilo que ensinais hoje tornar-se-á velho por sua vez. Respeito, pois, à velhice! Os velhos são vossos pais, como as coisas velhas foram precursoras das coisas novas. Nada envelhece, e se faltais a esse princípio em relação a tudo o que é venerável, faltais ao vosso dever, mentis à doutrina que professais.

As velhas crenças elaboraram a renovação que começa a se realizar!... Todas, desde que não fossem exclusivamente materialistas, possuíam uma centelha da verdade. Lamentai os abusos que são introduzidos no ensino filosófico, mas perdoai os erros de outra época, se quiserdes, por vossa vez, ser desculpados pelos vossos, ulteriormente. Não deis vossa fé ao que vos parece mau, mas não creiais também que tudo quanto hoje vos é ensinado seja expressão da verdade absoluta. Crede que em cada época Deus alarga o horizonte dos conhecimentos, em razão do desenvolvimento intelectual da Humanidade.

LACORDAIRE.

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