Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Vários de nossos correspondentes admiraram-se por não termos falado da associação designada sob o título de Liga do Ensino. Por seu caráter progressista, esse projeto parece-lhes merecer as simpatias do Espiritismo; entretanto, antes de nele participar, eles desejavam saber nossa opinião. Agradecendo-lhes essa nova demonstração de confiança, repetiremos o que lhes temos dito muitas vezes, a saber: Jamais tivemos a pretensão de cercear a liberdade de ninguém, nem de impor nossas ideias a quem quer que seja, nem pretender que elas tivessem força de lei. Guardando silêncio, quisemos não prejulgar a questão e a cada um deixar a mais inteira liberdade. Quanto ao motivo de nossa abstenção pessoal, não temos razão de não o revelar, e como desejam conhecê-lo, di-lo-emos francamente.

Nossa simpatia, como a de todos os espíritas, naturalmente vincula-se a todas as ideias progressistas, bem como a todas as instituições que tendam a propagá-las. Mas é necessário, além disto, que tal simpatia tenha um objetivo determinado. Ora, até o presente, a Liga do Ensino só nos oferece um título, sedutor, é verdade, mas nenhum programa definido, nenhum plano traçado, nenhum objetivo preciso. Ademais, esse título tem o inconveniente de ser tão elástico, que poderia prestar-se a combinações muito divergentes em suas tendências e em seus resultados. Cada um pode entendê-lo à sua maneira, e sem dúvida constrói, por antecipação, um plano conforme sua maneira de ver. Poderia então acontecer que, quando estivesse em execução, a coisa não correspondesse à ideia que certas pessoas tinham feito. Daí as inevitáveis defecções.

Mas, dizem, nada se arrisca, porque são os próprios subscritores que regulamentarão o emprego dos fundos. Razão a mais para que não se entendam, e nesse conflito de opiniões e de vistas diversas, forçosamente haverá decepções.

Ao contrário, com um objetivo bem definido, um plano traçado claramente, sabemos em que se empenha, ou, pelo menos, sabemos se aderimos a uma coisa praticável ou a uma utopia; podemos apreciar a sinceridade da intenção, o valor da ideia, a combinação mais ou menos feliz das engrenagens, as garantias de estabilidade, e calcular as chances de triunfo ou de insucesso. Ora, no presente caso, esta apreciação não é possível, porque a ideia fundamental é cercada de mistérios e tem que ser aceita como boa por ouvir dizer. Queremos acreditar que ela seja perfeita, e sinceramente o desejamos. Quando o bem que dela deve emanar nos for demonstrado, e sobretudo quando virmos o seu lado prático, nós o aplaudiremos de todo o coração. Entretanto, antes de darmos nossa adesão a seja o que for, queremos poder fazê-lo com conhecimento de causa. Precisamos ter uma visão muito clara de tudo o que fazemos e saber em que terreno pisamos. No estado em que estão as coisas, não tendo os elementos necessários para louvar ou censurar, abstemo-nos de nosso julgamento.

Esta maneira de ver, que é absolutamente pessoal, não deve induzir os que se julgam suficientemente esclarecidos.

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