Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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(Por Monsenhor Freyssinous, bispo de Hermópolis)

Em resposta à opinião que atribui a uma astúcia do demônio as transformações morais operadas pelo ensino dos Espíritos, temos dito muitas vezes que o diabo seria muito pouco hábil se, para levar um homem à perdição, começa por tirá-lo do atoleiro da incredulidade e reconduzi-lo a Deus, o que seria a conduta de um bobo e de um ingênuo. A isto objetam que é justamente aí que está a obra-prima da malícia desse inimigo de Deus e dos homens. Confessamos não compreender a malícia.

Um dos nossos correspondentes nos dirige, em apoio ao nosso raciocínio, as palavras que seguem, do Monsenhor Freyssinous, bispo de Hermópolis, tiradas de suas Conferences sur la religion, tomo II, pg. 341; Paris, 1825.

“Se Jesus Cristo tivesse operado seus milagres pela virtude do demônio, este teria trabalhado para destruir o seu império e teria empregado seu poder contra si mesmo. Certamente um demônio que procurasse destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude seria um demônio estranho. Eis por que Jesus, para refutar a absurda acusação dos judeus, lhes dizia: ‘Se opero prodígios em nome do demônio, então o demônio está dividido consigo mesmo; ele procura, pois, destruir-se’, resposta que não sofre réplica.”

Obrigado ao nosso correspondente pela bondade de nos assinalar esta importante passagem, da qual nossos leitores tirarão proveito oportuno. Obrigado, também, a todos os que nos transmitem o que encontram, em suas leituras, de interessante para a Doutrina. Nada se perde.

Como se vê, muitos eclesiásticos estão longe de professar, sobre a doutrina demoníaca, opiniões tão absolutas quanto certo membros de clero. Nesta matéria, Monsenhor de Hermópolis é uma autoridade cujo valor não poderiam negar. Seus argumentos são precisamente os mesmos que os espíritas opõem aos que atribuem ao demônio os bons conselhos que recebem dos Espíritos. Com efeito, que fazem os Espíritos senão destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude, e reconduzir a Deus os que o desconhecem e o negam? Se tal fosse a obra do demônio, ele agiria como um ladrão de profissão que restituísse o que tinha roubado e induzisse os outros ladrões a se tornarem honestos. Então ele deveria ser felicitado por sua transformação. Sustentar a cooperação voluntária do Espírito do Mal para produzir o bem, não é apenas um contra-senso, mas é renegar a mais alta autoridade cristã, a do Cristo.

Que os fariseus do tempo de Jesus tivessem crido nisto de boa fé, poderíamos conceber, porque então eles não eram mais esclarecido sobre a natureza de Satã do que sobre a de Deus, e porque fazia parte da teogonia dos Judeus considerá-los como dois poderes rivais. Mas hoje tal doutrina é tão inadmissível quanto a que atribuía a Satã certas invenções industriais, como a imprensa, por exemplo. Seus próprios defensores talvez sejam os últimos a nela crer; ela já cai no ridículo e não amedronta ninguém, e dentro de pouco tempo ninguém ousará invocá-la seriamente.

A Doutrina Espírita não admite poder rival ao de Deus e, ainda menos, poderia admitir que um ser decaído, precipitado por Deus no abismo, pudesse ter recuperado o poder a ponto de contrabalançar os seus desígnios, o que tiraria de Deus a sua onipotência. Segundo essa doutrina, Satã é a personificação alegórica do mal, como entre os pagãos Saturno era a personificação do tempo, Marte a da guerra, Vênus a da beleza.

Os Espíritos que se manifestam são as almas dos homens, e entre eles há, como entre os homens, bons e perversos, adiantados e atrasados; os bons dizem boas coisas, dão bons conselhos; os perversos dão maus conselhos, inspiram maus pensamentos e fazem o mal, como faziam na Terra; vendo a maldade, a velhacaria, a ingratidão, a perversidade de certos homens, reconhece-se que eles não valem mais que os piores Espíritos. Mas, encarnados ou desencarnados, esses maus Espíritos um dia chegarão a se melhorar, quando tiverem sido tocados pelo arrependimento.

Comparai uma e outra doutrina, e vereis qual delas é a mais racional, a mais respeitosa para com a divindade.

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