Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Retrato físico dos espíritas

Lê-se na France, de 14 de setembro de 1866:

“A fé robusta das pessoas que a despeito de tudo acreditam em todas as maravilhas tantas vezes desmentidas do Espiritismo é uma verdade admirável. Mostram-lhes o truque das mesas girantes e elas creem; desvendam-lhes as imposturas do armário Davenport e elas creem mais; exibem-lhes todos os cordões, fazem-nas tocar a mentira com o dedo, furam-lhes os olhos pela evidência do charlatanismo e sua crença se torna mais obstinada. Inexplicável necessidade do impossível! Credo quia absurdum.

“O Messager franco-américan, de Nova Iorque, fala de uma convenção dos adeptos do Espiritismo realizada em Providence (Rhode-Island). Homens e mulheres se distinguem por um aspecto do outro mundo; a palidez da pele, a magreza do rosto, o profético devaneio dos olhos, perdidos num vago oceânico, tais são, em geral, os sinais exteriores do espírita. Acrescente-se que, contrariamente ao uso geral, as mulheres cortam o cabelo curto, à la mal-content, como se dizia outrora, ao passo que os homens têm uma cabeleira abundante, absalônica, longa, descendo até as espáduas. Quando se trata com os espíritas, há que se distinguir do comum dos mortais, da vil multidão.

“Muitos discursos, discursos demais, foram pronunciados. Os oradores, sem se preocuparem mais com os desmentidos da Ciência do que com os do senso comum, imperturbavelmente lembraram a longa série, que cada um sabe de cor, dos fatos maravilhosos atribuídos ao Espiritismo.

“Miss Susia Johnson declarou que, sem querer ser tomada como profetiza, previa que estão próximos os tempos em que a grande maioria dos homens não mais será rebelde às místicas revelações da religião nova. Ela apela com todos os seus votos para a criação de numerosas escolas, onde as crianças de ambos os sexos beberão, desde a mais tenra idade, os ensinamentos do Espiritismo. Só faltava isto!”

Sob o título de Sempre os Espíritas! o Événement de 26 de agosto de 1866 publicou um longo artigo, do qual extraímos esta passagem:

“Fostes alguma vez a uma reunião de espíritas, numa noite de desocupação e de curiosidade? Geralmente um amigo vos conduz. A gente sobe muito ─ os Espíritos gostam de aproximar-se do céu ─ para um pequeno apartamento já repleto. Entra-se às cotoveladas.

“As pessoas se amontoam, com suas feições bizarras e gestos de energúmenos. Fica-se abafado nessa atmosfera. Comprimem-se, curvam-se sobre as mesas onde médiuns, com os olhos no teto, lápis na mão, escrevem as elucubrações que passam por lá. De começo é uma surpresa. Procuram entre todas essas pessoas repousar o olhar. Interrogam, adivinham, analisam.

“Velhas de olhos ávidos, jovens magros e fatigados, a promiscuidade das classes e das idades, porteiras da vizinhança e grandes damas do bairro, de chita e de guipuras, poetizas por acaso e profetizas de encontro, alfaiates e laureados do Instituto confraternizam-se no Espiritismo. Esperam, fazem girar as mesas, levantam-nas, leem em voz alta as baboseiras que Homero ou Dante ditaram aos médiuns sentados. Esses médiuns estão imóveis, a mão sobre o papel, sonhando. De repente a mão se agita, corre, sacode, cobre as folhas, vai, vai mais e para bruscamente. Então alguém, no silêncio, diz o nome do Espírito que acaba de ditar e lê. Ah! Essas leituras!

“Assim ouvi Cervantes lamentar a demolição do teatro dos DéllassementsComiques e Lamennais contar que Jean Journet lá era seu amigo íntimo. A maior parte do tempo Lamennais comete erros de ortografia e Cervantes não sabe uma palavra de espanhol. Outras vezes os Espíritos tomam um pseudônimo angélico para brindar o seu público com algum apotegma à maneira de Pantagruel. Reclamam. Respondem-lhes: Nós nos queixaremos ao vosso cabeça de fila!

“O médium que traçou a frase se fecha e se zanga por estar em relação com Espíritos tão desbocados. Perguntei a que legião pertenciam esses mistificadores do outro mundo e me responderam no duro: ─ São Espíritos vadios!

“Sei de coisas mais amáveis. Por exemplo, o Espírito desenhista que impulsionou a mão do Sr. Victoren Sardou, e o fez traçar o desenho da casa em que mora Beethoven lá em cima. Profusão de folhagem, entrelaçamento de colcheias e semicolcheias, é um trabalho de paciência que exigiria meses e foi feito numa noite. Foi isto que me disseram. Só o Sr. Sardou poderia convencer-me.

“Pobre cérebro humano! Como estas coisas são dolorosas para contar! Assim, não demos um passo para o lado da Razão e da Verdade! Ou, pelo menos, o batalhão de ronceiros engrossa dia a dia, à medida que se avança! É formidável, é quase um exército. Sabeis quantas possessas há atualmente na França? Mais de duas mil.

As possessas têm sua presidente, a Sra. B..., que desde a idade de dois anos vive em relação direta com a Virgem. Duas mil! O Auvergne guardou seus milagres, as Cévennes têm sempre seus camisards. Os livros de Espiritismo, os tratados de misticismo, têm sete, oito, dez edições. O maravilhoso é mesmo a doença de um tempo que, nada tendo diante do espírito para se satisfazer, refugia-se nas quimeras, como um estômago vazio e privado de carne que se alimentasse de gengibre.

“E o número dos loucos aumenta! O delírio é como uma onda que sobe. Então,

que luz há que ser achada, para destruir essas trevas, já que a eletricidade não basta?

“JULES CLARETIE.”

Na verdade seria erro zangar-se com tais adversários, pois acreditam com tanta boa-fé e tão ingenuamente ter o monopólio do bom-senso! O que é tão divertido quanto os singulares retratos que fazem dos espíritas, é vê-los gemer dolorosamente por esses pobres cérebros humanos que não dão nenhum passo para o lado da razão e da verdade, porque querem à fina força ter uma alma e acreditar no outro mundo, a despeito do desperdício de eloquência dos incrédulos, para provar que isto não existe, para a felicidade da Humanidade; são seus pesares à vista desses livros espíritas que se esgotam sem recorrer a anúncios, reclames e elogios pagos da imprensa; deste batalhão de ronceiros da razão que, coisa desesperadora! cresce diariamente e se torna tão formidável que é quase um exército; que nada tendo diante do espírito para satisfazê-los, são bastante tolos para recusar a perspectiva do nada que lhes oferecem para encher o vazio. É realmente de desesperar desta pobre Humanidade, bastante ilógica para não preferir o nada em troca de alguma coisa, para gostar mais de reviver do que morrer de vez.

Estas facécias, essas imagens grotescas, mais divertidas que perigosas, e que seria infantil levar a sério, têm seu lado instrutivo, e por isto citamos alguns exemplos. Outrora procuravam combater o Espiritismo com argumentos, sem dúvida maus, pois a ninguém convenceram, mas, enfim, tentavam discutir a coisa, bem ou mal. Homens de real valor, oradores e escritores, cavaram um arsenal de objeções para combatê-lo. Qual foi o resultado? Seus livros estão esquecidos e o Espiritismo está de pé. Eis o fato. Hoje ainda há alguns trocistas com a força dos que acabamos de citar, pouco preocupados com o valor dos argumentos para quem rir de tudo é uma necessidade, mas não mais se discute; a polêmica adversa parece ter esgotado suas munições. Os adversários se contentam em lamentar o progresso do que chamam uma calamidade, como lamentam pelo progresso de uma inundação que não podem deter. Mas as armas ofensivas para combater a Doutrina não deram um passo à frente, e se ainda não acharam o fuzil de guerra para abatê-lo não foi por não o terem procurado.

Seria trabalho inútil refutar coisas que se refutam por si mesmas. Às lamentações com que o Jornal France precede o burlesco retrato que toma do jornal americano, só há uma coisa a responder. Se a fé dos espíritas resiste à revelação dos truques e dos cordões do charlatanismo, é que isto não é o Espiritismo; se quanto mais são descobertas as manobras fraudulentas, mais redobra a fé, é que esgrimis para combater precisamente o que ele desaprova e que ele próprio combate; se eles não se abalam com as vossas demonstrações, é que tangenciais a questão; se quando feris o Espiritismo ele não grita, é que feris de lado e então os trocistas não estão do vosso lado. Desmascarando os abusos que fazem de uma coisa, fortalece-se a própria coisa, assim como se fortalece a verdadeira religião estigmatizando os abusos. Só aqueles que vivem dos abusos podem lastimar-se, tanto em Espiritismo quanto em religião.

Contradição mais estranha! Os que pregam a igualdade social veem, sob o império das crenças espíritas, os preconceitos de casta se apagarem, as camadas extremas se reaproximarem, o grande e o pequeno se darem as mãos fraternalmente, e eles riem! Em verdade, lendo essas coisas, pergunta-se de que lado está a aberração.

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