Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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“A doutrina que se baseia na crença num Deus infinitamente justo e infinitamente bom, o amor infinito; que indica como objetivo aos Espíritos criados por esse mesmo Deus, o encaminhamento para a perfeição cada vez mais completa e como castigo, no estado de Espírito, a perfeita percepção desse objetivo, com o pesar de dele se haver afastado, ao mesmo tempo que a necessidade de recomeçar essa marcha ascensional por novas encarnações... A doutrina que ensina a moral mais pura, aquela mesma que o Cristo expunha tão bem por estas simples palavras: Amai-vos uns aos outros... Uma tal doutrina de amor, digamo-lo alto e bom som, pode perfeitamente privar-se dessas manifestações que o autor dos artigos O Espiritismo em Constantinopla, depois de haver prometido explicá-las fora do Espiritismo, limita-se a qualificar de mistificações.

“Mas essas manifestações, hoje tão completamente constatadas, e cuja prova se acha quase que em cada página da história da Humanidade, Deus as permite continuamente, a fim de dar a todos a prova da solidariedade existente entre os Espíritos encarnados e os não encarnados, e isto a fim de que uns e outros se auxiliem mutuamente, e que o ser espiritual, chamado à vida eterna, possa atingir mais facilmente, e sobretudo mais seguramente, o objetivo providencial assinalado à criação.

“Se os fatos dos quais decorrem semelhantes teorias, que são a base da Doutrina Espírita, podem ser tomados, por certas pessoas, como mistificações, ao menos deveriam elas indicar as razões, e, o que seria ainda melhor, apresentar outras teorias mais racionais e sobretudo mais verdadeiras.

“Agora, chamai a verdade feitiçaria, magia, prestidigitação e outros epítetos ainda mais ridículos, e não impedireis que essa verdade se propague e estenda os seus raios benfazejos sobre todo o gênero humano.

“Eis por que o Espiritismo espalhou-se tão rapidamente em toda a face da Terra, e por que, a despeito das críticas do gênero dos citados artigos, isto não impede que os seus adeptos se contem por milhões.

“Os espíritas de Constantinopla.”

Dirigimos aos nossos irmãos espíritas de Constantinopla, tanto em nosso nome pessoal, quanto no dos membros da Sociedade de Paris, as sinceras felicitações que merece sua resposta, ao mesmo tempo digna e moderada.

A carta seguinte, que nos escreveu a respeito o Sr. Repos, advogado, presidente da Sociedade Espírita de Constantinopla, testemunha muito bem o devotamento à causa da doutrina, para que consideremos um dever e um sincero prazer publicá-la, a fim de que os espíritas de todos os países saibam que na capital do Oriente há irmãos com cuja fraternidade podem contar. Falando do Oriente, não devemos esquecer os de Smirna. Eles também fazem jus a todas as suas simpatias.

“Constantinopla, 15 de junho de 1864.

“Caro mestre e mui honrado irmão em Espiritismo,

“Recebi em tempo vossa estimável carta de 8 de abril, que me deu o maior prazer, como aos nossos irmãos espíritas, aos quais não deixei de dar conhecimento em sessão.

“Todos os espíritas de Constantinopla ligam-se a mim para, em conjunto, assegurarmos os nossos fraternos sentimentos a vós e a todos os espíritas que fazem parte da Sociedade de Paris. Nós vos agradecemos pelo encorajamento que nos dais como estímulo para combatermos por nossa grande causa. Ficai persuadido de que não falharemos na tarefa que empreendemos, e que todos os nossos esforços tenderão para a propagação da verdade, do amor ao bem e da emancipação intelectual dos outros homens, nossos mãos em Deus, ainda que tenhamos que sustentar as mais encarniçadas lutas contra os nossos inimigos. Se há homens bastante servis e bastante covardes para ousarem combater a verdade, também os há suficientemente independentes e corajosos para defendê-la, assim obedecendo aos sentimentos de justiça e de amor fraterno, que fazem do ser humano um verdadeiro filho de Deus.

“Foi com vivíssimo interesse que li os interessantes detalhes em vossa carta referida, em relação ao progresso do Espiritismo na França e alhures. Esperamos que no futuro a ideia cresça mais e mais e o desejamos ardentemente pelos nossos irmãos terrenos de todos os países e de todas as religiões.

“O jacto possante da revelação brilha por todos os lados. Cego é quem não o vê, imprudente quem o nega, insensato quem o combate buscando enterrá-lo na fonte. Sua água pura e límpida não vem do trono eterno para se espalhar em suave e fecundo orvalho sobre toda a Terra, que deve regenerar? Nenhuma força humana poderá, então, comprimi-la!... Com efeito, não vemos que, desde que um jacto surge em qualquer parte, se alguém fizer esforços para comprimi-lo, logo se veem milhares de jactos surgindo em todas as direções e em todos os degraus da escala social? Tanto é verdade que a vontade divina é onipotente, e que num dado momento nenhum obstáculo se lhe pode opor, sob pena de ser derrubado e esmagado pelo carro brilhante da justiça e da verdade.

“Caro mestre, tenho um agradável dever a cumprir, o de vos cumprimentar, em meu nome e no de todos os irmãos espíritas do Oriente, pela condenação sofrida por vossas obras pela santíssima inquisição do pensamento, quero dizer a condenação do índex. Rejubilai-vos, pois, com todos os nossos irmãos, se vossas obras levantaram grandes cóleras, que não vos puderam ferir senão se ridicularizando e cada vez mais deixando as unhas de fora. Tal julgamento já foi declarado nulo e não endossado pela opinião pública de todos os países.

“Sem dúvida recebestes os jornais de Constantinopla que vos enviei e nos quais se achavam, em sua maior parte, os artigos contra o Espiritismo e os espíritas. Vistes as nossas duas pequenas respostas? Como as julgais? Aqui produziram bom efeito e agora se fala do Espiritismo mais do que nunca. Esperamos impacientemente o que direis para nos ajudar a combater a maldade e a mentira, que são o único apanágio dos inimigos de nossa bela doutrina.

“Aqui começou a perseguição surda que anunciastes. Um dos nossos irmãos deve à sua qualidade de espírita a perda do emprego, outros são atacados e ameaçados em seus mais caros interesses de família ou nos meios de subsistência, pelas tenebrosas manobras dos eternos inimigos da luz, que ousam dizer que o Espiritismo é obra do anjo das trevas! Se é assim que julgam extingui-lo, enganamse. A perseguição, longe de deter, faz crescer toda ideia que vem do alto. Ela apressa a sua eclosão e a sua maturidade, porque é o adubo que a fecunda; ela demonstra a inexistência de qualquer meio inteligente para combatê-la. Teria a ideia cristã sido abafada no sangue dos mártires?

“Até à vista, caro mestre. Crede em minha dedicação muito sincera a vós e aos irmãos espíritas de Paris, aos quais vos peço apresenteis os meus cumprimentos.

“B. REPOS filho advogado”

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