Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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Suas relações com os outros jornais especiais

Sempre nos têm sido expresso o desejo de ver a Revista aparecer quinzenalmente ou semanalmente, mesmo à custa do aumento da assinatura. Somos muito sensível a esse testemunho de simpatia, porém, é para nós impossível mudar o nosso modo de publicidade, pelo menos até nova ordem. O primeiro motivo está na multiplicidade dos trabalhos que são a consequência de nossa posição, cuja extensão é difícil de imaginar. Nós manifestamos a mais pura verdade quando dizemos que não há para nós um só dia de repouso absoluto, e que, apesar de toda a nossa atividade, é-nos materialmente impossível dar conta de tudo. Duplicando ou quadruplicando a nossa publicação mensal, compreendemos que a maioria dos assinantes teriam tempo de a ler, mas, para nós, isto resultaria em prejuízo aos trabalhos mais importantes que nos resta fazer.

O segundo motivo está na própria natureza de nossa Revista, que é menos um jornal do que o complemento e o desenvolvimento de nossas obras doutrinárias. A forma periódica nos permite nela introduzir mais variedade do que num livro, e registrar as atualidades. Nela vêm agrupar-se, conforme as circunstâncias e a oportunidade, os fatos mais interessantes, as refutações, as instruções dos Espíritos; nela se desenham as diferentes fases do progresso da ciência espírita; nela, enfim, são experimentadas, sob forma dubitativa, as teorias novas que não podem ser aceitas senão depois de recebida a sanção do controle universal.

Numa palavra, a Revista é uma obra pessoal, cuja responsabilidade assumimos inteiramente e para a qual não devemos nem queremos ser entravado por nenhuma vontade estranha. Ela é concebida segundo um plano determinado para concorrer ao objetivo que devemos atingir. Transformada numa folha hebdomadária, ela perderia seu caráter essencial. A própria natureza de nossos trabalhos opõe-se a que entremos no detalhe das preocupações e das vicissitudes do jornalismo. Eis por que a Revista Espírita deve continuar sendo o que ela é. Nós a continuaremos enquanto se mostrar necessária sua existência sob essa forma. Aliás, mudando o seu modo de publicação, pareceria que queremos concorrer com os novos jornais publicados sobre a matéria, o que não poderia entrar em nossas ideias.

Esses jornais, por sua periodicidade mais frequente, preenchem a lacuna assinalada. Pela diversidade dos assuntos que eles podem tratar, e que entram no seu plano editorial; pelo número dos espíritas esclarecidos e de talento que neles podem manifestar-se; enfim, pela difusão da ideia sob diferentes formas, eles podem prestar grandes serviços à causa. São outros tantos campeões que militam pela doutrina cujos órgãos temos prazer em ver que se multiplicam. Apoiaremos sempre os que marcharem francamente numa via útil; que não se fizerem instrumentos nem de grupelhos nem de ambições pessoais; aqueles, enfim, que forem guiados pelos grandes princípios da moral espírita. Ficaremos felizes por encorajá-los e ajudá-los com nossos conselhos, se eles os julgarem necessários. Mas aí termina a nossa cooperação. Declaramos não ter solidariedade material com nenhum, sem exceção. Nenhum, pois, é publicado por nós, nem sob nosso patrocínio efetivo. Deixamos a cada um a responsabilidade de suas publicações. Quando os pedidos de assinatura desses jornais são dirigidos à direção da Revista, nós fazemos que cheguem a seus verdadeiros destinatários, a título de boa confraternidade, sem nisso ver qualquer interesse, nem mesmo a comissão normal atribuída aos intermediários, que não aceitaríamos, ainda que nos fosse oferecida.

Acreditamos que deveríamos explicar a situação real das coisas, para esclarecimento daqueles que pensam que certos jornais espíritas têm ligações de interesse econômico com a nossa Revista. Sem dúvida todos têm um interesse comum, porque tendem para o mesmo objetivo que nós. Sob esse ponto de vista, todos se devem benevolência recíproca, pois do contrário dariam um desmentido a sua qualificação de jornais espíritas, mas cada um atua dentro da esfera de sua atividade e de seus meios, e sob sua própria responsabilidade. A doutrina só tem a ganhar em dignidade e em crédito com a independência deles. Ao mesmo tempo, o acordo de vistas e de princípios que existe entre eles e a Revista nada teria de extraordinário da parte daqueles que emanassem da mesma fonte. Se algum dia outra publicação periódica fosse feita por nossa iniciativa e com o nosso concurso efetivo, nós o diríamos abertamente.

ALLAN KARDEC

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