Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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Os Espíritos na Espanha (Barcelona, 13 de junho de 1864 - Médium: Sra J.)

Venho a vós para que tenhais a bondade de me recomendar a Deus em vossas preces, porque sofro e desejo que as caridosas almas encarnadas tenham compaixão de um pobre Espírito que pede perdão a Deus. Vivi muito tempo no mal, mas hoje venho dizer aos Espíritos que o fazem: Cessai, almas impuras em vossas iniquidades, cessai de ser incrédulos e de levar uma vida errante tal qual a vossa; cessai, portanto, de fazer o mal, porque Deus diz aos seus bons Espíritos: “Ide e purificai essas almas perversas que jamais conheceram o bem; é preciso que cesse o mal, porque estão próximos os tempos em que a Terra deve ser melhorada. Para que ela seja melhor, é necessário que as almas maculadas que diariamente vêm povoá-la se purifiquem, a fim de habitarem novamente a Terra, porém boas e caridosas.”

É o que Deus disse a seus bons Espíritos. E eu, que era um dos mais cruéis na obsessão, hoje venho dizer aos que fazem o que eu fazia: Almas transviadas, seguime; pedi perdão a Deus e a essas almas puras que vos estendem a mão; implorai, e Deus vos perdoará; mas perdoai também vós, e arrependei-vos. O perdão é tão suave! Ah! Se o conhecêsseis, não demoraríeis um instante em vos retirardes do pântano do mal onde vos atolais, e voaríeis imediatamente para os braços dos anjos que estão junto de vós. Cessai, cessai, irmãos, eu vos peço; cessai e segui-me; arrependei-vos.

Meus amigos, ─ permiti que vos dê este nome, ainda que não me conheçais, ─ sou um desses Espíritos que tudo fizeram, menos o bem; mas a cada pecado, misericórdia, e visto que Deus me concede perdão e que os anjos quiseram chamarme irmão, espero que vós, que praticais a caridade, oreis por mim, porque tenho provas muito duras a passar. Mas elas são merecidas.

─ Faz muito tempo que tomastes o caminho do bem?

─ Não, meus amigos, faz pouco tempo, pois sou o Espírito obsessor da menina de Marmande; sou Júlio, e venho às almas caridosas para lhes pedir que orem por mim e para dizer aos meus antigos companheiros: “Parai! Não façais mais o mal, porque Deus perdoa aos pecadores arrependidos. Arrependei-vos e sereis absolvidos. Venho trazer-vos as palavras de paz. Recebei do anjo aqui presente o santo batismo, como eu o recebi.

Caros amigos, eu vos deixo, recomendando não me esqueçais em vossas preces.

Adeus.

JÚLIO


Tendo perguntando ao Espírito se o da Pequena Cárita, sua protetora, o acompanhava, ele respondeu afirmativamente. Pedimos a esse bom Espírito algumas palavras relativamente às obsessões que há tanto tempo combatemos. Eis o que disse:

“Meus amigos, as obsessões, que constituem o tormento dessas pobres almas encarnadas, são muito dolorosas, sobretudo para os médiuns que desejam servir-se de suas faculdades para fazer o bem e não podem, porque Espíritos malévolos se abateram sobre eles e não lhes deixam tranquilidade; mas é necessário esperar que essas obsessões cheguem a seu fim. Orai muito, pedi a Deus, a própria bondade, que ele se digne abreviar vossos sofrimentos e provações. Almas queridas, evocai esses Espíritos transviados; orai por eles; moralizai-os; pedi conselhos aos bons Espíritos. Vós estais bem rodeados. Não tendes perto de vós diversas dessas almas etéreas que velam por vós e vos protegem? Que procuram fazer-vos progredir, para que chegueis perto de Deus? Nisto está a sua tarefa. Elas trabalham incessantemente para vos preparar o caminho que jamais acaba. Se não estais libertos, meus caros amigos, sem dúvida é porque ainda não estais bastante purificados para a tarefa que vos impusestes. Escolhestes livremente a vossa provação e deveis esforçar-vos por levá-la a bom termo, porque os Espíritos vos guiam e vos sustentam para ajudar-vos a terminar a vida terrena santamente, depurando-vos pela expiação pelo sofrimento e pela caridade.

“Adeus, caros amigos. Deixo-vos, pedindo a Deus por vós e por esses pobres obsedados, e lhe peço que sejais sempre protegidos pelos Espíritos purificados do vosso grupo. (Vide a Revista de fevereiro, março e junho de 1864: Cura da jovem obsedada de Marmande).


PEQUENA CÁRITA.”


Eis dois Espíritos que violaram a ordem e transpuseram os Pirineus sem permissão, sem levar em conta a ordenação do Monsenhor Pantaleón e, o que é pior, sem terem sido chamados ou evocados. É verdade que a ordenação ainda não tinha aparecido. Agora veremos se eles serão menos ousados. Poder-se-ia dizer que se nessa reunião não os chamaram, estavam habituados a chamar outros e que, encontrando a porta aberta, eles aproveitaram para entrar, mas não tardarão, se isto já não aconteceu, a vê-los se introduzirem, lá como alhures, como em Poitiers, por exemplo, entre pessoas que jamais ouviram falar de Espiritismo, e mesmo entre os que, escrupulosos observadores da ordenação, lhes fecharão a entrada de suas casas, malgrado os aguazis.

Considerando-se que os Espíritos aqui referidos se permitiram essa afronta, perguntaremos ao Sr. Bispo o que há de ridículo nesse fato, e onde está o cinismo imundo que, em sua opinião, é fruto do Espiritismo: Uma jovem de Marmande, que nem ela nem os pais pensavam nos Espíritos, que talvez nem neles acreditassem, é atingida, há aproximadamente um ano, por uma doença terrível, bizarra, ante a qual falha a Ciência. Alguns espíritas pensam reconhecer nesse fato a ação de um Espírito mau. Eles tentam a sua cura sem medicamentos, pela prece e pela evocação desse mau Espírito, e em cinco dias, não só lhe devolvem a saúde, mas conduzem o mau Espírito ao bem. Onde está o mal? Onde está o absurdo? Depois, esse mesmo Espírito vem a Barcelona, sem que o chamem, pedir preces de que necessita para completar sua purificação. Ele se coloca como exemplo e concita seus antigos companheiros a renunciarem ao mal. O bom Espírito que o acompanha prega a moral evangélica. Que há nisso de ridículo e de imundo? O que é ridículo, dizeis vós, é acreditar na manifestação dos Espíritos. Mas, que são esses dois seres que acabam de se comunicar? Um efeito da imaginação? Não, pois não pensavam neles, nem no fato de que acabam de falar. Quando tiverdes morrido, Monsenhor, vereis as coisas de outro modo, e nós rogamos a Deus que vos esclareça, como fez com o vosso predecessor, hoje um dos protetores do Espiritismo em Barcelona.

Entre as comunicações por ele dadas na Sociedade Espírita de Paris, eis a primeira, já publicada nesta Revista. Nada obstante, reproduzimo-la para edificação dos que não a conhecem. (Vide a Revista de agosto de 1862: Morte do bispo de Barcelona, e, quanto aos detalhes do auto-de-fé, os números de novembro e dezembro de 1861).

“Ajudado por vosso chefe espiritual (São Luís) pude vir ensinar-vos por meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas, porque um dia, dia que durará e pesará como um século, essas ideias amontoadas gritarão como a voz do anjo: Caim, que fizeste de teu irmão? Que fizeste do nosso poder, que deveria consolar e elevar a Humanidade? O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são de corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual que sua preguiça e seu orgulho lhe fizeram evitar. Essa voz terrível me disse: Tu queimaste as ideias e as ideias te queimarão. Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe dirige o perseguido pelo perseguidor.

“Aquele que foi bispo e não é mais que um penitente.”

Os Espíritos não param em Barcelona, Madrid, Cadiz, Sevilha, Múrcia e muitas outras cidades recebem suas comunicações, às quais o auto-de-fé imprimiu um novo impulso, aumentando o número dos adeptos. Sem ter o dom profético, podemos dizer com certeza que meio século não passará sem que toda a Espanha seja espírita.


MÚRCIA, ESPANHA, 28 DE JUNHO DE 1864

Pergunta a um Espírito protetor. ─ Poderíeis falar do estado das almas encarnadas em mundos superiores ao nosso?

Resposta. ─ Tomo, em comparação com o vosso, um mundo sensivelmente mais adiantado, onde a crença em Deus, na imortalidade da alma, na sucessão das existências para chegar à perfeição são tantas verdades reconhecidas e compreendidas por todos, e onde a comunicação dos seres corpóreos com o mundo oculto é, por isso mesmo, muito fácil. Os seres ali são menos materiais que em vossa Terra e não estão sujeitos a todas as necessidades que vos pesam. Eles formam a transição entre os corpóreos e os incorpóreos. Lá não há barreiras separando povos, nem guerras; todos vivem em paz, praticando entre si a caridade e a verdadeira fraternidade; as leis humanas ali são inúteis; cada um leva consigo a consciência, que é o seu tribunal. Ali o mal é raro, e até mesmo esse mal seria quase o bem, para vós. Em relação a vós eles seriam perfeitos, mas ainda estão longe da perfeição de Deus; ainda lhes são necessárias várias encarnações em diversas terras para completarem a purificação. Aquele que na Terra vos parece perfeito seria considerado como um revoltado e um criminoso no mundo de que vos falo. Vossos maiores sábios ali seriam os últimos ignorantes.

Nos mundos superiores as produções da Natureza nada têm em comum com as do vosso globo. Tudo ali é apropriado à organização menos material dos habitantes. Não é pelo suor do rosto e pelo trabalho material que tiram o alimento. O solo produz naturalmente o que lhes é necessário. Contudo, eles não estão inativos, mas suas ocupações são muito diferentes das vossas. Não tendo que prover às necessidades do corpo, eles proveem à do Espírito; compreendendo cada um por que foi criado, está positivamente seguro de seu futuro e trabalha sem desânimo o seu próprio melhoramento e a purificação de sua alma.

A morte ali é considerada um benefício. O dia em que uma alma deixa o seu envoltório é um dia feliz. Sabe-se para onde se vai. Passa-se primeiro, para ir mais longe esperar os pais, os amigos e os Espíritos simpáticos que foram deixados para trás.

Terra de paz, morada feliz, onde as vicissitudes da vida material são desconhecidas, onde a tranquilidade da alma não é perturbada pela ambição nem pela sede de riquezas, onde são felizes os que a habitam! Eles atingem o objetivo perseguido há tantos séculos; eles veem, eles sabem, eles compreendem; eles se alegram em pensar no futuro que os espera, e trabalham com mais ardor para chegarem mais prontamente.

UM ESPÍRITO PROTETOR


Esta comunicação nada oferece que já não tenha sido dito sobre os mundos adiantados, mas não é menos interessante ver a concordância que se estabelece no ensino dos Espíritos nos os diversos pontos do globo. Com tais elementos, como não haveria unidade de doutrina?

Até agora, estando estabelecidos os pontos fundamentais da doutrina, os Espíritos têm poucas coisas novas a dizer. Eles não podem muito mais que repetir em outros termos, desenvolver e comentar os mesmos assuntos, o que estabelece uma certa uniformidade em seu ensino. Antes de abordar novas questões, eles deixam às que estão resolvidas o tempo de se identificarem com o pensamento. Mas, à medida que o momento é propício para avançar um passo, vemo-los abordarem novos assuntos que, mais cedo, teriam sido prematuros.

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