Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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Vários assinantes testemunharam o seu pesar por não haverem encontrado, em nossa Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, uma prece especial, para uso habitual, para a manhã e a noite.

Faremos notar que as preces contidas nessa obra não constituem um formulário que para ser completo deveria ter que encerrar um número muito maior. Elas fazem parte das comunicações dadas pelos Espíritos; nós as reunimos no capítulo consagrado ao exame da prece, como adicionamos a cada um dos outros capítulos as comunicações que aos mesmos poderiam referir-se. Evitando de propósito as da manhã e da noite, quisemos tirar de nossa obra o caráter litúrgico, por isso nos limitamos às que têm uma relação mais direta com o Espiritismo. As outras, cada um poderá encontrar entre as de seu culto particular. Nada obstante, para atender ao desejo que nos é expresso, damos a seguir a que se nos afigura responder melhor ao objetivo que se propõe. Contudo a precedemos de algumas observações, para que melhor se compreenda o seu alcance.

Na Imitação, nº 274, fizemos ressaltar a necessidade das preces inteligíveis. Aquele que ora sem compreender o que diz, habitua-se a ligar mais valor às palavras do que aos pensamentos; para ele as palavras é que são eficazes, ainda que o coração não participe. Assim, muitos se julgam quites quando recitaram algumas palavras que os dispensam de se reformarem. É fazer da Divindade uma ideia estranha, acreditar que ela se satisfaz com palavras, mais do que com atos que atestam um melhoramento moral.

Eis, aliás, a respeito deste assunto, a opinião de São Paulo:

“Se eu não entendo o que significam as palavras, serei um bárbaro para aquele a quem falo, e aquele que me fala será para mim um bárbaro. Se eu oro numa língua que não compreendo, meu coração ora, mas meu entendimento fica sem fruto. Se louvais apenas com o espírito, como é que um homem desses que não entendem senão sua própria língua dirá Amen, no final de vossa ação de graças, considerandose que ele não compreende o que dizeis? Isto não significa que vossa ação de graças não é boa, mas os outros não são edificados.” (São Paulo, 1ª epístola aos Coríntios, cap. XIV, versículos 11, 14, 16 e 17).

É impossível condenar de maneira mais formal e mais lógica o uso das preces ininteligíveis. Pode-se admirar que seja tão pouco levada em conta a autoridade de São Paulo neste assunto, ao passo que ela é tantas vezes invocada sobre outros pontos. Outro tanto poder-se-ia dizer da maioria dos escritores sacros, considerados como luzes da Igreja, e cujos preceitos todos estão longe de ser postos em prática.

Uma condição essencial da prece é, pois, segundo São Paulo, ser inteligível, para que possa falar ao nosso espírito. Para isto não basta que seja dita em língua compreendida por aquele que ora, porquanto há preces em língua vulgar que não dizem muito mais ao pensamento do que se fossem ditas em língua estrangeira, e que, por isso mesmo, não vão ao coração, porque as raras ideias que elas encerram são frequentemente abafadas pela superabundância de palavras e pelo misticismo da linguagem.

A principal qualidade da prece é ser clara, simples e concisa, sem fraseologia inútil, nem luxo de epítetos, que não passam de vestimentas de lantejoulas. Cada palavra deve ter o seu alcance, despertar um pensamento, mover uma fibra, numa palavra, deve fazer refletir. Só com esta condição a prece pode atingir o seu objetivo, do contrário não passa de ruído. Vede, também, com que ar distraído e com que volubilidade elas são ditas na maior parte do tempo! Veem-se os lábios se movendo, mas, pela expressão da fisionomia e pelo tom da voz se reconhece um ato maquinal, puramente exterior, ao qual a alma fica indiferente.

O mais perfeito modelo de concisão, no caso da prece, é, sem contradita, a Oração dominical, verdadeira obra prima de sublimidade em sua simplicidade. Sob a mais reduzida forma, ela resume todos os deveres do homem para com Deus, para consigo mesmo e para com o próximo. Contudo, em razão de sua própria brevidade, o sentido profundo encerrado nas poucas palavras de que ela se compõe escapa à maioria; os comentários já feitos a respeito nem sempre estão presentes à memória, ou mesmo são desconhecidos pela maior parte das pessoas, por isto geralmente ela é dita sem que o pensamento seja direcionado à aplicação de cada uma de suas partes. Dizem-na como uma fórmula cuja eficácia é proporcional ao número de vezes que é repetida. Ora, é quase sempre um dos números cabalísticos três, sete ou nove, tirados da antiga crença na virtude dos números, e em uso nas operações de magia. Pensai ou não penseis no que dizeis, mas repeti a prece tantas vezes, que isto basta. Agora que o Espiritismo repele expressamente toda eficácia atribuída às palavras, aos signos e às fórmulas, a Igreja acusa-o de ressuscitar as velhas crenças supersticiosas.

Todas as religiões antigas e pagãs tiveram sua língua sagrada, língua misteriosa, apenas inteligível aos iniciados, mas cujo sentido verdadeiro era oculto ao vulgo, que a respeitava tanto mais quanto menos a compreendia. Isto podia ser aceito na época da infância intelectual das massas, mas hoje, que elas estão espiritualmente emancipadas, as línguas místicas não mais têm razão de ser e constituem um anacronismo; elas querem ver tão claro nas coisas da religião quanto nas da vida civil; não se pede mais para crer e orar, mas se quer saber por que se crê e o que se pede orando.

O latim, de uso habitual nos primeiros tempos de Cristianismo, ficou sendo para a Igreja a língua sagrada, e é por um resto do antigo prestígio ligado a essas línguas que a maioria dos que não o sabem dizem a Oração dominical nessa língua, de preferência à sua própria. Dir-se-ia que dão tanto mais valor à coisa quanto menos a compreendem. Por certo tal não foi a intenção de Jesus quando a ditou, e tal também não foi o pensamento de São Paulo, quando disse: “Se eu oro numa língua que não compreendo, meu coração ora, mas meu entendimento fica sem fruto.” Ainda se, por falta de inteligência, o coração orasse sempre, haveria apenas meio mal, entretanto, infelizmente, muitas vezes o coração não ora mais que o espírito. Se o coração realmente orasse, não se veria tanta gente, entre aqueles que rezam muito, aproveitar tão pouco, não ser nem mais benevolentes nem mais caridosos nem menos maledicentes para com o próximo.

Feita esta ressalva, diremos que a melhor prece matinal e da noite é, sem contradita, a Oração dominical, dita com inteligência, de coração e não apenas com os lábios. Mas, para suprir o vago que a sua concisão deixa no pensamento, aqui acrescentamos, a conselho e com a assistência dos bons Espíritos, um desenvolvimento a cada proposição.

Conforme as circunstâncias e o tempo disponível, pode, pois, dizer-se a Oração dominical simples ou com os comentários. Também se podem acrescentar algumas das preces contidas na Imitação do Evangelho, tomadas entre as que não tenham um objetivo especial, como, por exemplo, a prece aos anjos da guarda e aos Espíritos protetores, nº. 293; a para afastar os maus Espíritos, nº. 297; para as pessoas que nos foram afeiçoadas, nº. 358; para as almas sofredoras que pedem preces, nº. 360, etc. Fica entendido que é sem prejuízo das preces especiais do culto ao qual se pertence por convicção, e ao qual o Espiritismo não manda renunciar.

Aos que nos pedem uma linha de conduta a seguir no que concerne às preces quotidianas, aconselhamos cada um a fazer uma coletânea apropriada às circunstâncias em que se encontra, por si mesmo, para outrem ou para os que deixaram a Terra, e desenvolvê-las ou restringi-las conforme a oportunidade.

Uma vez por semana, no domingo, por exemplo, pode-se a isto consagrar um tempo mais longo, e dizer todas, quer em particular, quer em comum, se houver lugar, a isso acrescentando a leitura de algumas passagens da Imitação do Evangelho e de algumas boas instruções ditadas pelos Espíritos. Isto é mais especialmente dirigido às pessoas que são repelidas pela Igreja por causa do Espiritismo, e que não sentem menos a necessidade de se unirem a Deus pelo pensamento.

Mas, salvo este caso, nada impede que aqueles que sentem a necessidade de assistir, nos dias consagrados às cerimônias de seu culto, ali digam, ao mesmo tempo, algumas das preces relacionadas com suas crenças espíritas. Isto não pode senão contribuir para elevar sua alma a Deus pela união do pensamento e das palavras. O Espiritismo é uma fé íntima. Ele está no coração e não nos atos exteriores. Ele não prescreve nenhum ato que seja de natureza a escandalizar os que não partilham dessa crença, mas recomenda, ao contrário, a sua abstenção, por espírito de caridade e de tolerância.

Em consideração e como aplicação das ideias precedentes, damos abaixo a Oração dominical desenvolvida. Se algumas pessoas acharem que aqui não seria o lugar adequado para um documento desta natureza, nós lhes lembraríamos que a nossa Revista não é apenas uma coletânea de fatos e que o seu plano abarca tudo o que pode ajudar no desenvolvimento moral. Houve um tempo em que os casos de manifestações eram os únicos a interessar os leitores. Hoje, porém, que o objetivo sério e moralizador do Espiritismo é compreendido e apreciado, a maioria dos adeptos aqui procuram mais o que toca o coração do que o que agrada ao espírito. É, pois, a esses que nos dirigimos nesta circunstância. Por esta publicação, sabemos ser agradável a muitos, senão a todos. Só isto nos teria feito decidir, se outras considerações, sobre as quais devemos guardar silêncio, não nos tivessem determinado a fazê-lo neste momento, e não em outro.

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