Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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No número precedente, relatamos a notável cura obtida por meio da prece, pelos espíritas de Marmande, de uma jovem obsedada dessa cidade. Uma carta posterior confirma o resultado dessa cura, hoje completa. O rosto da moça, alterado por oito meses de torturas, retomou a frescura, a boa disposição e a serenidade.

Seja qual for a opinião que professemos; seja qual for a ideia que se faz do Espiritismo, qualquer pessoa animada de sincero amor ao próximo deve ter-se alegrado de ver a tranquilidade voltar a essa família, e o contentamento substituir a aflição. É lamentável que o senhor cura da paróquia tenha preferido não associar-se a esse sentimento, e que essa circunstância lhe tenha fornecido o texto de um sermão pouco evangélico, numa de suas pregações. Suas palavras, ditas em público, são do domínio da publicidade. Se ele se tivesse limitado a uma crítica leal da doutrina do seu ponto de vista, disso não falaríamos, mas julgamo-nos na obrigação de responder aos ataques dirigidos contra pessoas muito respeitáveis, tratando-as de saltimbancos, a propósito do fato acima.

Disse ele: “Assim, o primeiro engraxate que aparecer poderá, então, se for médium, evocar um membro de uma família honrada, quando ninguém na família poderá fazê-lo? Não acrediteis nesses absurdos, meus irmãos. Isto é trampolinice, é besteira. De fato, que vedes nessas reuniões? Carpinteiros, marceneiros, que sei mais?... Algumas pessoas me perguntaram se eu tinha contribuído para a cura da moça. ‘Não, respondi-lhes eu, não entrei nisto absolutamente; eu não sou médico.’”

Aos parentes ele dizia: “Não vejo nisso senão uma afecção orgânica da alçada da medicina”, acrescentando que se tivesse julgado que as preces pudessem operar algum alívio, as teria feito desde muito tempo.

Se o senhor cura não crê na eficácia das preces em casos semelhantes, fez bem em não fazê-las. Disso pode-se concluir que, como homem consciencioso, se os pais lhe tivessem vindo pedir missas pela cura da sua filha, ele teria recusado o pagamento porque, aceitando-o, teria recebido o pagamento por uma coisa que considerava sem valor.

Os espíritas creem na eficácia das preces pelos doentes e nas obsessões. Eles oraram, curaram e nada pediram em troca; ainda mais, se os pais estivessem necessitados, eles teriam ajudado.

Diz ele: “São charlatães e palhaços.”

Desde quando ele viu charlatães trabalharem de graça? Fizeram a doente usar amuletos? Fizeram sinais cabalísticos? Pronunciaram palavras sacramentais? Ligaram a essas palavras uma virtude eficaz? Não, porque o Espiritismo condena toda prática supersticiosa. Eles oraram com fervor, em comunhão de pensamentos. Essas preces eram palhaçadas? Aparentemente não, porquanto se elas obtiveram sucesso é porque foram ouvidas.

Que o senhor cura trate o Espiritismo e as evocações de absurdos e besteiras, é direito seu, se tal é sua opinião, e ninguém tem nada com isto. Mas quando, para denegrir as reuniões espíritas, diz que aí só se veem carpinteiros, marceneiros, etc., não é apresentar essas profissões como degradantes e os que as exercem como gente aviltada? Então esqueceis, senhor cura, que Jesus era carpinteiro e que seus apóstolos eram todos pobres artífices ou pescadores? Será evangélico lançar do alto do púlpito o desdém sobre a classe dos trabalhadores, que Jesus quis honrar, nascendo entre eles? Compreendestes o alcance de vossas palavras quando dissestes: “O primeiro engraxate que aparecer poderá, então, se for médium, evocar um membro de uma família honrada?” Então desprezais esse pobre engraxate, quando limpa os vossos sapatos? Por quê? Porque sua posição é humilde, não achais que seja digno de evocar a alma de um nobre personagem? Então temeis que essa alma se suje quando, para ela se erguerem ao céu mãos enegrecidas pelo trabalho? Então credes que Deus faça diferença entre a alma do rico e a do pobre? Não disse Jesus: Amai ao vosso próximo como a vós mesmos? Ora, amar ao próximo como a si mesmo, é não fazer qualquer diferença entre si mesmo e o próximo; é a consideração do princípio: Todos os homens são irmãos, porque são filhos de Deus. Recebe Deus com mais distinção a alma do grande que a do pequeno? A do homem a quem fazeis um serviço pomposo, pago largamente, que a do infeliz ao qual não dedicais senão as mais curtas preces? Falais do ponto de vista exclusivamente mundano e esqueceis que Jesus disse: “Meu reino não é deste mundo; lá não existem as distinções da Terra; lá os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos?” Quando ele disse: “Há várias moradas na casa de meu pai”, significa que há uma para o rico e outra para o proletário? Uma para o senhor e outra para o servo? Não, mas que há uma para o humilde e outra para o orgulhoso, porque ele disse: “Que aquele que quiser ser o primeiro no Céu seja o servo de seus irmãos na Terra.” Então cabe a esses a quem vos apraz chamar de profanos vos lembrar o Evangelho?

Senhor cura, em qualquer circunstância tais palavras seriam pouco caridosas, sobretudo no templo do Senhor, onde só deveriam ser pregadas palavras de paz e de união entre todos os membros da grande família. No estado atual da Sociedade são uma inabilidade, porque semeiam o fermento do antagonismo. Compreenderíamos se tivésseis dito tais palavras numa época em que os servos, habituados a dobrar a cerviz, se julgavam uma raça inferior, porque lho haviam dito, mas na França de hoje, em que todo homem honesto tem direito de levantar a cabeça, quer seja plebeu, quer patrício, é um anacronismo.

Se, como é provável, havia no auditório carpinteiros, marceneiros e engraxates, eles devem ter sido mediocremente tocados por esse discurso. Quanto aos espíritas, sabemos que pediram a Deus que perdoasse ao orador as suas palavras imprudentes, porque eles mesmos perdoaram ao que lhes dizia Racca. É o conselho que damos a todos os irmãos.

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