Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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Um de nossos correspondentes de Maine-et-Loire, o Dr. C..., transmite-nos este fato:

“Eis um curioso exemplo da faculdade mediúnica aplicada ao desenho, que se manifestou vários anos antes que fosse conhecido o Espiritismo e mesmo antes das mesas girantes.

“Há três semanas, estando em Bressuire, eu explicava o Espiritismo e as relações dos homens com o mundo invisível a um advogado de meus amigos, que lhe ignorava o á-bê-cê. Ora, eis o que ele me contou como tendo grande relação com o que lhe dizia:

“Em 1849, disse ele, fui com um amigo visitar a aldeia de Saint-Laurent-surSèvres e seus dois conventos, um de homens, outro de mulheres. Fomos recebidos da mais cordial maneira pelo Padre Dallain, superior do primeiro, e que tinha autoridade também sobre o segundo.

“Depois de ter percorrido os dois conventos, disse-nos ele:

“─ Agora, senhores, quero mostrar-vos uma das coisas mais curiosas do convento das senhoras.

“Mandou trazer um álbum, onde admiramos, com efeito, aquarelas de grande perfeição. Eram flores, paisagens e marinhas. Então ele nos disse:

“─ Estes desenhos tão bem reunidos foram feitos por uma de nossas jovens religiosas que é cega.

“E eis o que ele nos contou de um lindo ramo de rosas, com um botão azul:

“─ Há algum tempo, em presença do Sr. Marquês de La Rochejaquelein e de vários outros visitantes, chamei a religiosa cega e pedi que ela se pusesse a uma mesa para desenhar alguma coisa. Trouxeram as tintas, deram-lhe papel, lápis, pincéis, e ela imediatamente começou o ramo que vedes. Durante o trabalho várias vezes colocaram um corpo opaco, ora um papelão, ora uma prancheta entre os seus olhos e o papel, mas o pincel continuou a trabalhar com a mesma calma e a mesma regularidade. À observação de que o ramo estava um pouco fino, ela disse: ‘Está bem! Vou fazer sair um botão do vazio deste ramo.’ Enquanto ela trabalhava nessa correção, substituíram o carmim de que se servia pelo azul. Ela não percebeu a mudança, e é por isso que vedes um botão azul.

“O Padre Dallain era tão notável por seus conhecimentos e sua grande inteligência quanto por sua elevada piedade. Não encontrei ninguém que me tivesse inspirado mais simpatia e veneração.”

Em nossa opinião, o fato não prova, de modo evidente, uma ação mediúnica. Pela linguagem da jovem cega, é certo que ela via, do contrário não teria dito: “Vou fazer sair um botão do vazio deste ramo.” Mas o que não é menos certo é que ela não via pelos olhos, desde que continuava o trabalho a despeito do obstáculo que punham à sua frente. Ela agia com conhecimento de causa, e não maquinalmente, como um médium. Assim, parece evidente que ela era dirigida pela segunda vista. Ela via pelos olhos da alma, abstração feita dos olhos do corpo. Talvez ela mesma estivesse, de forma permanente, num estado de sonambulismo desperto.

Fenômenos análogos foram observados muitas vezes, mas contentavam-se em achá-los surpreendentes. A causa não podia ser descoberta, tendo em vista que, ligando-se essencialmente à alma, era preciso, em primeiro lugar, reconhecer a existência da alma. Entretanto, mesmo que fosse admitido, esse ponto ainda não bastava, pois faltava o conhecimento das propriedades da alma e das leis que regem suas relações com a matéria.

Revelando-nos a existência do perispírito, o Espiritismo nos deu a conhecer, se assim se pode dizer, a fisiologia dos Espíritos. Dessa forma, ele nos deu a chave de uma porção de fenômenos incompreendidos e, em falta de melhores razões, qualificados por uns de sobrenaturais e por outros de bizarrias da Natureza.

Pode a natureza ter bizarrias? Não, porque bizarrias são caprichos. Ora, sendo a Natureza obra de Deus, Deus não pode ter caprichos, sem o que nada seria estável no Universo. Se há uma regra sem exceção, deve ser, certamente, a que rege as obras do Criador; as exceções seriam a destruição da harmonia universal. Todos os fenômenos se ligam a uma lei geral, e uma coisa só nos parece bizarra porque observamos um único ponto, ao passo que, se considerarmos o conjunto, reconheceremos que a irregularidade daquele ponto é apenas aparente e depende de nosso limitado ponto de vista.

Isto posto, diremos que o fenômeno de que se trata nem é maravilhoso, nem excepcional. É o que trataremos de explicar.

No estado atual dos nossos conhecimentos, não podemos conceber a alma sem seu envoltório fluídico, perispiritual. O princípio inteligente escapa completamente à nossa análise. Só o conhecemos por suas manifestações, que se dão com o auxílio do perispírito. É pelo perispírito que a alma age, percebe e transmite. Desprendida do envoltório corporal, a alma ou Espírito ainda é um ser complexo.

De acordo com a experiência, ensina-nos a teoria que a visão da alma, assim como todas as outras percepções, é um atributo do ser inteiro. No corpo, ela é circunscrita ao órgão da visão, por isso é-lhe preciso o concurso da luz, e tudo o que se acha no trajeto do raio luminoso o intercepta. Não é assim com o Espírito, para o qual não há obscuridade nem corpos opacos.

A seguinte comparação pode ajudar a compreender esta diferença. A céu aberto, o homem recebe a luz por todos os lados; mergulhado no fluido luminoso, o horizonte visual se estende por toda a volta. Se ele estiver encerrado numa caixa na qual foi feita uma pequena abertura, em sua volta tudo estará na obscuridade, salvo o ponto por onde lhe chega o raio luminoso. A visão do Espírito encarnado está neste último caso. A do Espírito desencarnado está no primeiro. Esta comparação é justa quanto ao efeito, mas não o é quanto à causa, porque a fonte da luz não é a mesma para o homem e para o Espírito ou, melhor dito, não é a mesma luz que lhes dá a faculdade de ver.

Assim, a cega de que se trata via pela alma e não pelos olhos. Eis por que o anteparo colocado diante do desenho não a perturbava mais do que aos olhos de um vidente ante os quais tivessem posto um cristal transparente. É também por isto que ela tanto podia desenhar de noite quanto de dia. Radiando em torno dela e tudo penetrando, o fluído perispiritual trazia a imagem, não sobre a retina, mas à sua alma. Nesse estado, a visão abarca tudo? Não. Ela pode ser geral ou especial, conforme a vontade do Espírito; pode ser limitada ao ponto onde ele concentra a sua atenção.

Mas então, irão perguntar, por que não se apercebeu ela da substituição da cor? Primeiramente, pode ser que a atenção voltada para o lugar onde ela queria pôr a flor a tenha desviado da cor. Além disto, é preciso considerar que a visão da alma não se opera pelo mesmo mecanismo que a visão corporal, e que assim há efeitos de que não nos poderíamos dar conta. Depois, ainda é preciso notar que nossas cores são produzidas pela refração da nossa luz. Ora, sendo as propriedades do perispírito diferentes das dos nossos fluidos ambientes, é provável que a refração aí não produza os mesmos efeitos; que para o Espírito as cores não tenham as mesmas causas que para o encarnado. Assim, ela podia, pelo pensamento, ver róseo o que nos parecia azul. Sabe-se que o fenômeno da substituição das cores é muito frequente na visão ordinária. O fato principal é o da visão bem constatada sem o concurso dos órgãos da visão.

Como se vê, esse fato não implica a ação mediúnica, mas, também, não exclui, em certos casos, a assistência de um Espírito estranho. Essa jovem podia, pois, ser ou não ser médium, o que um estudo mais atento poderia ter revelado.

Uma pessoa cega gozando dessa faculdade era precioso objeto de observação. Mas para tanto teria sido necessário conhecer a fundo a teoria da alma, a do perispírito e, por consequência, o sonambulismo e o Espiritismo. Naquela época não se conheciam essas coisas, e mesmo hoje não seria nos meios onde as consideram como diabólicas que poderiam entregar-se a esses estudos. Também não é naqueles onde se nega a existência da alma que o mesmo pode ser feito.

Dia virá, certamente, em que reconhecerão que há uma física espiritual, como começam a reconhecer a existência da medicina espiritual!

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