Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864

Allan Kardec

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Vários jornais reproduziram o artigo seguinte:

“O incidente da semana, escrevem de Roma ao Times, é a ordem dada ao Sr. Home, o célebre médium, de deixar a cidade pontifical em três dias.

“Convidado a apresentar-se à polícia romana, o Sr. Home passou por um interrogatório formal. Perguntaram-lhe quanto tempo pretendia passar em Roma; se se tinha dado às práticas espíritas depois de sua conversão ao Catolicismo, etc., etc.

Eis algumas das palavras trocadas na ocasião, tais quais o próprio Sr. Home registrou em suas notas particulares, que fornece muito facilmente, ao que parece.

“─ Depois de vossa conversão ao Catolicismo, exercestes o poder de médium?
“─ Nem depois, nem antes exerci tal poder, porque, como não depende de minha vontade, não posso dizer que o exerço.
“─ Considerais esse poder como um dom da Natureza?
“─ Eu o considero como um dom de Deus.
“─ Que religião ensinam os espíritas?
“─ Isto depende.
“─ Que fazeis para que eles venham?
“Respondi que nada fazia. Mas no mesmo instante batidas repetidas e distintas foram ouvidas na mesa onde escrevia o meu investigador.
“─ Mas também fazeis as mesas se moverem? perguntou ele.
“No mesmo instante a mesa se pôs em movimento.

“Pouco tocado por esses prodígios, o chefe de polícia convidou o mágico a deixar Roma em três dias. Abrigando-se, como era seu direito, sob a proteção das leis internacionais, o Sr. Home relatou a coisa ao cônsul da Inglaterra, que obteve do Sr. Mateucci que o célebre médium não fosse incomodado e pudesse continuar sua estada em Roma, tendo em vista que ele pensava abster-se, durante esse tempo, de qualquer comunicação com o mundo espiritual. Coisa espantosa! O Sr. Home acedeu a esta condição e assinou o compromisso que lhe exigiam. Como pôde ele comprometer-se a não usar um poder, cujo exercício independe de sua vontade? É o que não procuraremos penetrar”.

Não sabemos até que ponto esta história é exata, em todos os seus detalhes, mas uma carta escrita há pouco tempo pelo Sr. Home a uma senhora nossa conhecida parece confirmar o fato principal. Quanto aos golpes vibrados na ocasião, julgamos que se pode, sem receio, contá-los entre as facécias a que nos habituaram os jornais pouco preocupados em aprofundar as coisas do outro mundo.

Com efeito, o Sr. Home neste momento está em Roma, e o motivo é muito honroso para ele para que não o digamos, levando em consideração que os jornais julgaram que deveriam aproveitar a ocasião para ridicularizá-lo.
O Sr. Home não é rico e não teme dizer que precisa buscar no trabalho uma suplementação dos recursos de que necessita para suprir suas necessidades. Ele pensou encontrar a solução no talento natural para a escultura, e foi para se aperfeiçoar nessa arte que ele foi a Roma.

Com a notável faculdade mediúnica que possui, ele poderia ser rico, muito rico mesmo, se tivesse querido explorá-la. A mediocridade de sua posição é a melhor resposta ao epíteto de hábil charlatão que lhe lançaram ao rosto. Mas ele sabe que essa faculdade lhe foi dada com um fim providencial, no interesse de uma causa santa, e julgaria cometer um sacrilégio se a convertesse em profissão. Ele tem, no mais alto grau, o sentimento dos deveres que ela lhe impõe para não compreender que os Espíritos se manifestam pela vontade de Deus para reconduzir os homens à fé na vida futura, e não para exibir num espetáculo de curiosidades, em concorrência com os escamoteadores, nem para servir à cupidez dos que pretendessem explorá-la.

Aliás ele também sabe que os Espíritos não estão às ordens nem aos caprichos de ninguém, e menos ainda de quem quer que quisesse exibir seus atos e gestos a tanto por sessão. Não há um só médium no mundo que possa garantir a produção de um fenômeno espírita num dado momento, de onde é forçoso concluir-se que a pretensão contrária é prova de absoluta ignorância dos mais elementares princípios da ciência. Então, toda suposição é permitida, porque se os Espíritos não respondem ao chamado, ou não fazem coisas suficientemente admiráveis para satisfazer os curiosos e sustentar a reputação do médium, é mesmo necessário achar um meio de dá-las aos espectadores em troca de seu dinheiro, se não quiser devolvê-lo.

Nunca nos cansamos de repetir que a melhor garantia de sinceridade é o desinteresse absoluto. Um médium é sempre forte quando pode responder aos que suspeitassem de sua boa-fé: “Quanto pagastes para vir aqui?”

Ainda uma vez: A mediunidade séria não pode ser e jamais será uma profissão, não só porque seria moralmente desacreditada, mas porque repousa sobre uma faculdade essencialmente móvel, fugidia e variável, que nenhum dos que a possuem hoje está certo de possuí-la amanhã. Só os charlatões estão sempre seguros de si mesmos.

Outra coisa é um talento adquirido pelo estudo e pelo trabalho que, por isto mesmo, é uma propriedade, da qual, naturalmente, é permitido tirar partido. A mediunidade não está neste caso. Explorá-la é dispor de uma coisa da qual realmente não se é dono; é desviá-la de seu objetivo providencial. E tem mais: Não é de si próprio que se dispõe, é dos Espíritos, das almas dos mortos, cujo concurso é posto a prêmio. Este pensamento repugna instintivamente. Eis por que em todos os centros sérios, onde se ocupam do Espiritismo santamente, religiosamente, como em Lyon, em Bordeaux e em tantos outros lugares, os médiuns exploradores seriam completamente desconsiderados.

Assim, que aquele que não tem de que viver procure alhures os recursos e, se preciso, só consagre à mediunidade o tempo que materialmente puder dar. Os Espíritos levarão em conta o seu devotamento e os seus sacrifícios, ao passo que punem, mais cedo ou mais tarde, os que esperam dela fazer uma escada, seja pela retirada da faculdade, pelo afastamento dos bons Espíritos, pelas mistificações comprometedoras, ou por meios ainda mais desagradáveis, como o prova a experiência.

O Sr. Home sabe muito bem que perderia a assistência de seus Espíritos protetores se abusasse de sua faculdade. Sua primeira punição seria a perda da estima e da consideração de famílias honradas onde é recebido como amigo e onde não mais seria chamado senão na mesma condição das pessoas que vão fazer representações a domicílio. Quando de sua primeira estada em Paris, sabemos que certos círculos lhe fizeram ofertas muito vantajosas para dar sessões e que ele sempre recusou. Todos os que o conhecem e compreendem os verdadeiros interesses do Espiritismo aplaudirão a resolução que hoje toma. De nossa parte, somos gratos pelo bom exemplo que ele dá.

Se insistimos de novo na questão do desinteresse dos médiuns, é que temos razões para crer que a mediunidade fictícia e abusiva é um dos meios que os inimigos do Espiritismo pretendem empregar visando desacreditá-lo e apresentá-lo como obra do charlatanismo. É necessário, pois, que todos os que levam a peito a causa da doutrina se mantenham atentos, a fim de desmascarar as manobras fraudulentas, quando as houver, e mostrar que o Espiritismo verdadeiro nada tem de comum com as paródias que dele poderiam fazer, e que ele repudia tudo quanto se afaste do princípio moralizador que é a sua essência.

O artigo acima transcrito oferece vários outros aspectos à observação. O autor acredita que deve qualificar o Sr. Home de mágico. Tudo aí é muito inocente, no entanto, um pouco adiante ele diz: “O mui célebre médium”, expressão usada em relação a indivíduos que adquiriram uma triste celebridade.

Onde estão, pois, as falhas e os crimes do Sr. Home? É uma injúria gratuita, não só a ele, mas também a todas as pessoas respeitáveis e altamente colocadas que o recebem e que assim parecem patrocinar um homem mal-afamado.

A última frase do artigo é mais curiosa, porque encerra uma dessas contradições flagrantes com que, aliás, os nossos adversários pouco se inquietam. O autor admira-se de que o Sr. Home tenha consentido no compromisso que lhe impunham e pergunta como pôde ele prometer não usar de um poder independente de sua vontade. Se ele quisesse sabê-lo, nós o remeteríamos ao estudo dos fenômenos espíritas, de suas causas e de seu modo de produção, e ele saberia como o Sr. Home pôde assumir um compromisso que, aliás, nada tem a ver com as manifestações que ele obtém na intimidade, ainda que sob os ferrolhos da inquisição. Mas parece que o autor não liga tanto, pois acrescenta: “É o que não procuraremos penetrar”. Por estas palavras ele insidiosamente dá a entender que tais fenômenos não passam de charlatanice.

Contudo, a medida tomada pelo governo pontifício prova que este teme as manifestações ostensivas. Ora, não se temem prestidigitações. Esse mesmo governo interditaria os que se dizem físicos e que imitam essas manifestações? Certamente não, porque em Roma permitem muitas outras coisas menos evangélicas. Por que, então, interditá-las ao Sr. Home? Por que querer expulsá-lo do país se não passa de um mágico? Dirão que é no interesse da religião. Seja. Mas, então, é ela tão frágil que pode ser tão facilmente comprometida? Em Roma, como alhures, os escamoteadores executam, com mais ou menos habilidade, o golpe da garrafa encantada, na qual a água se transforma em todas as espécies de vinhos, e o do chapéu mágico, no qual se multiplicam pães e outros objetos. Entretanto não receiam que isto desacredite os milagres de Jesus Cristo, pois se sabe que não passam de imitações. Se temem o Sr. Home, é que há de sua parte algo de sério, e não de passes de mágica.

Tal é a consequência que disso tirará qualquer pessoa que refletir um pouco.

Não entrará na cabeça de ninguém sensato que um governo, que uma corte soberana composta de homens que, a bem da verdade, não passam por tolos, se apavore diante de um mito. Certamente não seremos o único a fazer esta reflexão, e os jornais que se apressaram em divulgar o incidente, visando ridicularizá-lo, muito naturalmente vão provocá-la, de sorte que o resultado, como o de tudo o que já foi feito para matar o Espiritismo, será o de popularizar a ideia. Assim um fato aparentemente insignificante terá, inevitavelmente, consequências mais sérias do que tinham pensado. Não duvidamos que ele tenha sido suscitado para apressar a eclosão do Espiritismo na Itália, onde já conta com numerosos representantes, mesmo entre o clero. Também não duvidamos que a cúria de Roma não se torne, mais cedo ou mais tarde, e sem o querer, um dos principais instrumentos de propagação da doutrina nesse país, porque está determinado que seus próprios adversários deverão servir à sua propagação, por todos os meios de que se utilização para destruí-la. Cego, portanto, é aquele que não vê nisto o dedo da Providência. Sem contradita, este será um dos mais consideráveis fatos da história do Espiritismo; um dos que melhor atestam seu poder e sua origem.

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