Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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NOTA: Nos três ditados que se seguem, o Espírito desenvolve cada um dos três tipos esboçados no primeiro. (Vide o nº. de janeiro de 1861).
I

Aqui no vosso mundo inferior, o interesse, o egoísmo e o orgulho abafam a generosidade, a caridade e a simplicidade. O interesse e o egoísmo são os dois gênios maus do financista e do novo-rico; o orgulho é o vício do que sabe, e principalmente do que pode. Quando um coração verdadeiramente pensador examina esses três vícios horríveis, sofre, porque, tende a certeza, o homem que pensa sobre o nada e sobre a maldade deste mundo é, em geral, uma criatura cujos sentimentos e instintos são delicados e caridosos. E, bem o sabeis, os delicados são infelizes, como já disse La Fontaine, que esqueci de pôr ao lado de Molière. Só os delicados são infelizes, porque sentem.

Hamlet é a personificação dessa parte infeliz da Humanidade, que sofre e chora sempre e que se vinga, vingando Deus e a moral. Hamlet teve que castigar vícios vergonhosos em sua família: o orgulho e a luxúria, isto é, o egoísmo. Essa alma terna e melancólica, aspirando à verdade, empanou-se ao sopro do mundo, como um espelho que não pode mais refletir o que é bom e o que é justo. E essa alma tão pura derramou o sangue de sua mãe e vingou a sua honra. Hamlet é a inteligência impotente, o pensamento profundo lutando contra o orgulho estúpido e contra a impudicícia materna. O homem que pensa e que vinga um vício da Terra, seja qual for, é culpado aos olhos dos homens, mas muitas vezes não o é aos olhos de Deus. Não penseis que eu queira idealizar o desespero. Eu fui bastante castigado, mas há tanta névoa ante os olhos do mundo!”

NOTA: Tendo sido pedida ao Espírito a sua apreciação sobre La Fontaine, do qual acabara de falar, acrescentou:

“La Fontaine não é mais conhecido do que Corneille e Racine. Conheceis muito pouco os vossos literatos, entretanto, os alemães conhecem tanto Shakespeare quanto Goethe. Para voltar ao meu assunto, La Fontaine é o francês por excelência, que esconde a sua originalidade e a sua sensibilidade sob o nome de Esopo e de pensador alegre. Mas, tende certeza, La Fontaine era um delicado, como vos dizia há pouco. Vendo que não era compreendido, afetou essa singeleza que dizeis falsa. Nos vossos dias teria sido alistado no regimento dos falsos modestos. A verdadeira inteligência não é falsa, mas muitas vezes a gente tem que uivar com os lobos, e foi isso que perdeu La Fontaine na opinião de muita gente. Não vos falo de seu gênio: este é igual, senão superior ao de Molière.

II

Para voltar ao nosso cursinho de literatura muito familiar, Don Juan é, como já tive a honra de vos dizer, o tipo mais perfeitamente acabado de gentil-homem corrupto e blasfemo. Molière o elevou até o drama, porque, na verdade, a punição de Don Juan não devia ser humana, mas divina. É pelos golpes inesperados da vingança celeste que tombam as cabeças orgulhosas. O efeito é tanto mais dramático quanto mais imprevisto.

Eu disse que Don Juan era um tipo, mas, na verdade, é um tipo raro, porque realmente se veem poucos homens dessa têmpera, de vez que quase todos são covardes. Refiro-me à classe dos indiferente e dos corruptos.

Muitos blasfemam, mas vos garanto que poucos ousam blasfemar sem medo. A consciência é um eco que lhes devolve a blasfêmia e a escutam tremendo de medo, embora se riam diante do mundo. São os hoje chamados de fanfarrões do vício. Esse tipo de libertino é numeroso nos vossos dias, mas estão muito longe de serem os filhos de Voltaire.

Para voltar ao nosso assunto, Molière, como autor mais sábio e observador mais profundo, não só condenou os vícios que atacam a Humanidade, mas condena também os que ousam endereçar-se a Deus.

III

Vimos até agora dois tipos: um generoso e infeliz, outro feliz para o mundo, mas miserável aos olhos de Deus. Resta-nos ver o mais feio, o mais ignóbil, o mais repugnante. Refiro-me a Tartufo.

Na Antiguidade, a máscara da virtude já era medonha, porque, sem se haver depurado pela moral cristã, o paganismo também tinha virtudes e sábios. Mas, diante do altar do Cristo, essa máscara é ainda mais feia, por ser a do egoísmo e da hipocrisia. Talvez o paganismo tenha tido menos Tartufos do que a religião cristã. Explorar o coração do homem sábio e bom; lisonjear todas as suas ações; enganar as pessoas confiantes por uma aparente piedade; levar a profanação até receber a Eucaristia com o orgulho e a blasfêmia no coração, eis o que faz Tartufo, o que fez e o que fará sempre.

Ó vós, homens imperfeitos e mundanos que condenais um princípio divino e uma moral sobre-humana porque dela quereis abusar! Estais cegos quando confundis os homens com aquele princípio, isto é, Deus com a Humanidade. É porque esconde as suas torpezas sob o manto sagrado que Tartufo é horrível e repugnante. Maldição sobre ele, porque ele amaldiçoava quando era perdoado e planejava uma traição enquanto pregava a caridade.

Gérard de Nerval.

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