Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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Numa comunicação que o Espírito de Georges ditou à Senhora Costel, publicada na Revista de outubro de 1860, sob o título O despertar do Espírito, foi dito que não há relações amistosas entre os Espíritos errantes; que até mesmo aqueles que se amaram não trocam sinais de reconhecimento. Sobre muitas pessoas essa teoria causou uma impressão muito penosa, principalmente porque os leitores da Revista consideram aquele Espírito elevado, e admiraram a maioria de suas comunicações. Se essa teoria fosse absoluta, estaria em contradição com o que tantas vezes foi dito, que no momento da morte os Espíritos amigos vêm receber o recém chegado; ajudam-no a se desvencilhar dos laços terrenos e, de certo modo, o iniciam em sua nova vida. Por outro lado, se os Espíritos inferiores não se comunicassem com os mais adiantados, não poderiam progredir.

Procuramos refutar essas objeções num artigo da Revista de novembro de 1860, sob o título Relações afetuosas dos Espíritos, mas eis os comentários que, a pedido nosso, o próprio Georges deu em sua comunicação:

“Quando um homem é surpreendido pela morte nos hábitos materialistas de uma vida que jamais lhe deixou tempo livre para se ocupar de Deus; quando, ainda palpitando de angústias e de pavores terrenos chega ao mundo dos Espíritos, ele se assemelha a um viajante que ignora a língua e os costumes da terra que visita. Mergulhado na perturbação, é incapaz de se comunicar e de compreender até as próprias sensações, bem como as alheias; erra, envolto no silêncio. Então sente germinarem, brotarem e se desenvolverem lentamente pensamentos desconhecidos, e uma nova alma floresce na sua. Chegada a tal ponto, a alma cativa sente caírem suas amarras, e qual uma ave posta em liberdade, lança-se para Deus, soltando um grito de alegria e de amor. Então se comprimem ao seu redor os Espíritos dos parentes, os amigos purificados que silenciosamente haviam-no acolhido em seu retorno. São em número pequeno aqueles que podem, logo após a libertação do corpo, comunicar-se com os amigos nesse reencontro. É necessário ter merecido, e só os que realizaram gloriosamente as suas migrações é que, desde o primeiro momento, se acham bastante desmaterializados para gozar desse favor que Deus concede como recompensa.

Apresentei uma das fases da vida espírita. Não tive a intenção de generalizar, e como se vê, não falei senão do estado nos primeiros instantes que se seguem à morte, o qual pode ser mais ou menos duradouro, conforme a natureza do Espírito. De cada um depende abreviá-lo, desprendendo-se dos laços terrenos já na vida corpórea, pois só o apego às coisas materiais o impede de fruir a felicidade da vida espiritual.”

GEORGES

OBSERVAÇÃO: Nada mais moral que essa doutrina, pois mostra que nenhuma fruição prometida pela vida futura é obtida sem mérito; que a própria felicidade de rever os seres queridos e de comunicar-se com eles pode ser adiada. Numa palavra, que a situação na vida espírita é, em tudo, o que dela fizermos pela nossa conduta na vida corpórea.

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