Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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A carta seguinte nos foi enviada pelo Sr. Roustaing, advogado no Tribunal Imperial de Bordéus e antigo presidente da Ordem dos Advogados. Os princípios que aí são claramente expressos por um homem de sua posição, posto entre os mais esclarecidos, talvez levem a refletir aqueles que, julgando-se com o privilégio exclusivo da razão, colocam sem cerimônia todos os adeptos do Espiritismo entre os imbecis.

“Meu caro senhor e muito honrado chefe espírita,

“Recebi a suave influência e colhi o benefício destas palavras do Cristo a Tomé: “Felizes os que não viram e creram”, profundas, verdadeiras e divinas palavras que mostram o mais seguro caminho, o mais racional, que conduz à fé, segundo a máxima de São Paulo, que o Espiritismo cumpriu e realiza: Rationabile sit obsequium vestrum.

“Quando vos escrevi em março último, pela primeira vez, dizia: “Nada vi, mas li e compreendi, e creio.” Deus me recompensou bem por ter crido sem ter visto; depois vi e vi bem; vi em condições proveitosas, e a parte experimental veio animar, se assim me posso exprimir, a fé que a parte doutrinária me havia dado e, fortalecendo-a, imprimir-lhe a vida.

“Depois de ter estudado e compreendido, eu conhecia o mundo invisível como conhece Paris quem a estudou sobre o mapa. Pela experiência, trabalho e observação continuada, conheci o mundo invisível e seus habitantes como conhece Paris quem a percorreu, mas sem ter ainda penetrado em todos os recantos dessa vasta capital. Não obstante, desde o começo do mês de abril, graças ao conhecimento que me proporcionastes, do excelente Sr. Sabe de sua família patriarcal, todos bons e verdadeiros espíritas, pude trabalhar e trabalhei constantemente todos os dias com eles ou em minha casa, em presença e com o concurso dos adeptos de nossa cidade, que estão convictos da verdade do Espiritismo, embora nem todos sejam ainda, de fato e praticamente, espíritas.

“O Sr. Sabvos remeteu exatamente o resultado de nossos trabalhos, obtidos a título de ensinamento por evocações ou por manifestações espontâneas dos Espíritos superiores. Experimentamos tanta alegria e surpresa quanta confusão e humildade, quando recebemos esses ensinamentos tão preciosos e verdadeiramente sublimes de tantos Espíritos elevados que vieram visitar-nos ou nos enviaram mensageiros para falar em seu nome.

“Oh! caro senhor, como sou feliz por não mais pertencer, pelo culto material, à Terra que agora sei não ser para os nossos Espíritos senão um lugar de exílio, a título de provas ou de expiação! Como sou feliz por conhecer e ter compreendido a reencarnação, com todo o seu alcance e todas as suas consequências, como realidade e não como alegoria. A reencarnação, essa sublime e equitativa justiça de

Deus, como ainda ontem dizia o meu guia protetor, tão bela, tão consoladora, desde que deixa a possibilidade de fazer no dia seguinte o que não pudemos fazer na véspera; que faz a criatura progredir para o Criador; “esta justa e equitativa lei”, segundo a expressão de Joseph de Maistre, na evocação de seu Espírito, que fizemos e que recebestes; a reencarnação que é, segundo a divina palavra do Cristo, “o longo e difícil caminho a percorrer para chegar à morada de Deus.”

“Agora compreendo o sentido destas palavras do Cristo a Nicodemos: “Sois doutor da lei e ignorais isto?” Hoje, que Deus me permitiu compreender de maneira completa toda a verdade da lei evangélica, eu me pergunto como a ignorância dos homens, doutores da lei, pôde resistir a este ponto à interpretação dos textos; produzir assim o erro e a mentira que engendraram e alimentaram o materialismo, a incredulidade, o fanatismo ou a poltronaria? Eu me pergunto como esta ignorância, este erro puderam produzir-se quando o Cristo tivera o cuidado de proclamar a necessidade de reviver, dizendo: “É PRECISO NASCER DE NOVO”, e por aí a reencarnação como único meio de ver o reino de Deus, o que já era conhecido e ensinado na Terra e que Nicodemos devia saber: “Sois doutor da lei e ignorais isto!” É verdade que o Cristo acrescenta a cada passo: “Que os que têm ouvidos, ouçam”; e também: “Têm olhos e não veem; têm ouvidos e não ouvem e não compreendem”, o que pode aplicar-se aos que vieram depois dele, bem como aos de seu tempo.

“Eu disse que Deus, na sua bondade, me recompensou por nossos trabalhos até este dia e os ensinos que permitiu nos fossem dados por seus divinos mensageiros, “missionários devotados e inteligentes junto aos seus irmãos, ─ segundo a expressão do Espírito de Fénelon ─ para lhes inspirar o amor e a caridade para com o próximo, o esquecimento das injúrias e o culto da adoração devido a Deus.” Compreendo agora o alcance admirável destas palavras do Espírito de Fénelon, quando fala desses divinos mensageiros: “Viveram tantas vezes que se tornaram nossos mestres.”

“Agradeço com alegria e humildade a esses divinos mensageiros por terem vindo nos ensinar que o Cristo está em missão na Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo, essa terceira explosão da bondade divina, para cumprir aquela palavra final do Evangelho: “Unum ovile et unus pastor”; por nos ter vindo dizer: “Não temais nada! O Cristo (por eles chamado Espírito de Verdade), a Verdade é o primeiro e o mais santo missionário das ideias espíritas.” Estas palavras me tinham tocado vivamente e eu me perguntava: “Mas onde então está o Cristo em missão na Terra?” “A Verdade comanda, conforme a expressão do Espírito de Marius, bispo dos primeiros tempos da Igreja, essa falange de Espíritos enviados por Deus em missão na Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo.”

“Que suaves e puras satisfações dão esses trabalhos espíritas pela caridade feita, com o auxílio da evocação, aos Espíritos sofredores! Que consolação se acha em uma comunicação com os que, na Terra, foram nossos parentes ou nossos amigos; em saber que são felizes ou aliviar-lhes o sofrimento! Que viva e brilhante luz lançam em nossas almas esses ensinos espíritas que, ensinando-nos a verdade completa da lei do Cristo, dão-nos a fé por intermédio de nossa própria razão e nos fazem compreender a onipotência do Criador, sua grandeza, sua justiça, sua bondade e sua misericórdia infinita, colocando-nos assim na deliciosa necessidade de praticar esta lei divina do amor e da caridade! Que sublime revelação nos dão, ensinando que esses divinos mensageiros, fazendo-nos progredir, progridem eles também, a fim de irem engrossar a falange sagrada dos Espíritos perfeitos! Admirável e divina harmonia que nos mostra, ao mesmo tempo, a unidade em Deus e a solidariedade entre todas as criaturas; que nos mostra estas sob a influência e o impulso dessa solidariedade, dessa simpatia, dessa reciprocidade, chamadas a subir e subindo, mas não sem passos falsos e sem quedas, nos seus primeiros ensaios, essa longa e alta escada espírita para, após haver percorrido todos os degraus, chegar ao estado de simplicidade e de ignorância originais, à perfeição intelectual e moral e, por essa perfeição, a Deus. Admirável e divina harmonia que nos mostra esta grande divisão da inferioridade e da superioridade, pela distinção dos mundos que são lugares de exílio, onde tudo são provas ou expiações, e dos mundos superiores, morada dos bons Espíritos, onde estes não têm mais senão que progredir para o bem.

“Bem compreendida, a reencarnação ensina aos homens que aqui se acham num lugar de passagem, onde são livres de não mais voltar, se para tanto fizerem o que é necessário; que o poder, as riquezas, as dignidades, a Ciência não lhes são dados senão a título de provas e como meio de progredir para o bem; que eles não estão em suas mãos senão como um depósito e um instrumento para a prática da lei do amor e da caridade; que o mendigo que passa ao lado de um grão-senhor é seu irmão perante Deus, e talvez o tenha sido perante os homens; que talvez ele tenha sido rico e poderoso. Se agora ele se acha numa condição obscura e miserável, é por ter falido às suas terríveis provas, lembrando assim aquela palavra célebre, do ponto de vista das condições sociais: “Há apenas um passo, do Capitólio à rocha Tarpeia”, mas com a diferença de que, pela reencarnação, o Espírito se ergue de sua queda e pode, depois de haver remontado ao Capitólio, lançar-se de seu pico às regiões celestes, morada esplêndida dos bons Espíritos.

“A reencarnação, ao ensinar aos homens, segundo a admirável expressão de Platão, que não há rei que não descenda de um pastor nem pastor que não descenda de um rei, apaga todas as vaidades terrenas; liberta do culto material e nivela moralmente todas as condições sociais. Ela constitui a igualdade, a fraternidade entre os homens, como para os Espíritos, em Deus e diante de Deus, e a liberdade que sem a lei do amor e da caridade não passa de mentira e de utopia, como no-lo dizia ultimamente o Espírito de Washington. Em seu conjunto, o Espiritismo vem dar aos homens a unidade e a verdade em todo progresso intelectual e moral, grande e sublime empreendimento do qual não passamos de apóstolos muito humildes.

“Adeus, meu caro senhor. Após três meses de silêncio, eu vos fatigo com uma carta muito longa. Respondei quando puderdes e quiserdes. Eu me proporia a fazer uma viagem a Paris para ter o prazer de vos conhecer pessoalmente, de fraternalmente vos apertar a mão. Minha saúde a isto se opõe no momento.

Podeis fazer desta carta o uso que achardes conveniente. Eu me honro de ser declaradamente e publicamente espírita.

Vosso mui devotado,

ROUSTAING, Advogado.

Como nós, todos apreciarão a justeza dos pensamentos expressos nesta carta. Vê-se que, embora iniciado recentemente, o Sr. Roustaing passou a mestre em assunto de apreciação. É que estudou séria e profundamente, o que lhe permitiu apanhar com rapidez todas as consequências dessa grave questão do Espiritismo e, ao contrário de muita gente, não parou na superfície. Nada tinha visto ainda, diz ele, e estava convencido, porque havia lido e compreendido. Tem ele isto de comum com muita gente e sempre frisamos que estes, longe de serem superficiais, são, ao contrário, os que mais refletem. Ligando-se mais ao fundo do que à forma, para eles a parte filosófica é o principal e os fenômenos propriamente ditos são acessórios e eles dizem que ainda mesmo que os fenômenos não existissem, nem por isso deixaria de haver uma filosofia, a única que resolve os problemas até hoje insolúveis; a única que dá do passado e do futuro do homem a teoria mais racional. Ora, eles preferem uma doutrina que explica a uma que não explica, ou que explica mal. Quem quer que reflita compreende muito bem que se poderia fazer abstração das manifestações e nem por isso deixaria de subsistir a doutrina. As manifestações vêm corroborá-la, confirmá-la, mas não são a sua base essencial. O discurso de Channing, que acabamos de citar, é prova disso, porque, cerca de vinte anos antes desse grande desdobramento das manifestações na América, somente o raciocínio o havia conduzido às mesmas consequências.

Há um outro ponto, pelo qual também se reconhece o espírita sério. Pelas citações que o autor desta carta faz dos pensamentos contidos nas comunicações que recebeu, ele prova que não se limitou a admirá-las como belos trechos literários, bons para conservar num álbum, mas ele as estuda, medita sobre elas e delas tira proveito. Infelizmente há muitos para quem esse alto ensinamento constitui letra morta; que colecionam essas belas comunicações, como certas pessoas colecionam belos livros, sem os ler.

Há outra coisa pela qual devemos felicitar o Sr. Roustaing. É a declaração com a qual termina a sua carta. Infelizmente nem todos têm, como ele, a coragem de sua opinião, o que estimula os adversários. Entretanto, é preciso reconhecer que de algum tempo para cá as coisas mudaram muito neste particular. Há dois anos apenas, muitas pessoas só falavam do Espiritismo entre quatro paredes; só compravam livros às escondidas e tinham cuidado em não deixá-los à vista. Hoje é bem diferente. Já se familiarizaram com os epítetos grosseiros dos trocistas e deles se riem, ao invés de se admirarem. Não mais temem confessar-se espíritas alto e bom som, como não temem dizer-se partidários de tal ou qual filosofia, do magnetismo, do sonambulismo, etc. Discutem livremente o assunto com qualquer um que surge, como discutiriam os clássicos e os românticos, sem se sentirem humilhados por serem favoráveis a estes ou àqueles. É um progresso imenso, que prova duas coisas: o progresso das ideias espíritas em geral e a pouca consistência dos argumentos dos adversários. Terá como consequência impor silêncio a estes últimos, que se julgavam fortes, pois se supunham mais numerosos; mas quando, de todos os lados encontram com quem falar, não diremos que serão convertidos, mas guardarão reserva. Conhecemos uma cidadezinha provinciana, na qual, há um ano, o Espiritismo não contava senão com um único adepto, que era apontado a dedo, como um animal raro e tido como tal; quem sabe talvez até deserdado pela família ou demitido de seu cargo. Hoje os adeptos ali são numerosos. Reúnem-se abertamente, sem ligar para o que digam, e quando viram entre eles autoridades municipais, funcionários, oficiais, engenheiros, advogados, escrivãos, etc., que não ocultam suas simpatias pela causa, os trocistas pararam as chacotas e o jornal local, dirigido por um espírito forte, que já havia lançado suas setas e preparava-se para pulverizar a nova doutrina, temendo ter pelas costas gente mais forte, guardou um prudente silêncio. Esta é a história de muitas outras localidades, que se generalizará à medida que os partidários do Espiritismo, cujo número aumenta dia a dia, levantarem a cabeça e a voz. Bem podem desejar abater uma cabeça que se mostra, mas quando há vinte, quarenta, cem, que não receiam falar alto e firme, olham duas vezes, o que dá coragem a quem não a tem.

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