Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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O Sr. Jourdan faz uma pergunta, ou antes, uma objeção necessariamente motivada pela insuficiência de seus conhecimentos sobre a matéria.

“Assim, diz ele, não é absolutamente impossível que alguns desses seres acidentalmente entrem em relação com os homens, mas o que nos parece pueril é que seja necessário o concurso material de uma mesa, de uma prancheta ou de um médium qualquer para que tais relações se estabeleçam.

“De duas, uma: ou essas comunicações são úteis, ou são ociosas. Se são úteis,

os Espíritos não devem ter necessidade de ser chamados de maneira misteriosa; de ser evocados e interrogados para ensinar aos homens o que importa saber. Se são ociosas, por que a elas recorrer?”

No seu Filósofo ao pé do fogo, acrescenta a respeito: “Eis um dilema do qual a escola espírita terá dificuldade para sair.”

Não. Certamente ela não tem dificuldade para sair dele, porque de há muito se havia proposto a isso, e também há muito o havia resolvido, e se não o foi pelo Sr. Jourdan é que ele não conhece tudo. Ora, cremos que se ele tivesse lido o Livro dos Médiuns, que trata da parte prática e experimental do Espiritismo, teria sabido o que pensar sobre o assunto.

Sim, sem dúvida seria pueril e este vocábulo empregado por conveniência pelo Sr. Jourdan seria muito fraco; dizemos que seria ridículo, absurdo e inadmissível que para relações tão sérias quanto as do mundo visível com o invisível, os Espíritos necessitassem, para nos transmitir seus ensinos, de um utensílio tão vulgar quanto uma mesa, uma cesta ou uma prancheta, porque daí seguir-se-ia que quem estivesse privado de tais acessórios também estaria privado de suas lições. Não. Não é assim. Os Espíritos são apenas as almas dos homens, despojadas do grosseiro envoltório do corpo, e existem Espíritos desde quando existem homens no Universo (não dizemos na Terra). Esses Espíritos constituem o mundo invisível que enche os espaços; que nos cerca; em meio ao qual vivemos sem o suspeitar, como vivemos, sem o perceber, em meio ao mundo microscópico. Em todos os tempos esses Espíritos exerceram sua influência sobre o mundo visível; em todos os tempos, os que são bons ou sábios ajudaram o gênio pelas inspirações, ao passo que outros se limitam a nos guiar nos atos ordinários da vida. Mas essas inspirações, que ocorrem pela transmissão de pensamento a pensamento, são ocultas e não podem deixar qualquer traço material. Se o Espírito quiser manifestar-se ostensivamente, é preciso que aja sobre a matéria; se quer que o seu ensino, ao invés de ter a indefinição e a incerteza do pensamento, tenha precisão e estabilidade, precisa de sinais materiais e para tanto ─ que nos permitam a expressão ─ serve-se de tudo quanto lhe cai às mãos, desde que nas condições apropriadas à sua natureza. Serve-se de uma pena ou um lápis, se quiser escrever; de um objeto qualquer, mesa ou caçarola, se quiser bater, sem que por isso sinta-se humilhado. Há algo mais vulgar que uma pena de ganso? Não é com isto que os maiores gênios legam as suas obras-primas à posteridade? Tirai-lhes todo meio de escrever; o que fazem? Pensam; mas seus pensamentos se perdem, se ninguém os recolhe. Suponde um literato maneta, Como ele se arranja? Tem um secretário que apanha o seu ditado. Ora, como os Espíritos não podem sustentar a pena sem intermediário, fazem-na sustentar por alguém que se chama um médium, que inspiram e dirigem. Por vezes esse médium age com conhecimento de causa: é um médium propriamente dito. Outras vezes age sem consciência da causa que o solicita: é o caso de todos os homens inspirados, que assim são médiuns sem o saber. Vê-se, pois, que a questão das mesas e pranchetas é inteiramente acessória e não a principal, como creem os que não estão bem informados. Elas foram o prelúdio dos grandes e poderosos meios de comunicação, como o alfabeto é o prelúdio da leitura corrente.

A segunda parte do dilema não é menos fácil de resolver. Diz o Sr. Jourdan: “Se essas comunicações são úteis, os Espíritos não devem ter necessidade de ser chamados de maneira misteriosa, de ser evocados, etc.”

Digamos de início que não nos cabe regular o que se passa no mundo dos Espíritos. Não podemos dizer: As coisas devem ou não devem ser desta ou daquela maneira, pois seria querer reger a obra de Deus. Os Espíritos querem mesmo nos iniciar em parte ao seu mundo, porque esse mundo talvez seja nosso amanhã. Cabenos tomá-lo tal qual é, e se não nos convier, não será nem mais nem menos, porque Deus não o mudará para nós.

Isto posto, apressemo-nos a dizer que jamais há evocação misteriosa ou cabalística. Tudo se faz simplesmente, em plena luz e sem fórmula obrigatória. Os que julgarem tais coisas necessárias ignoram os primeiros elementos da Ciência Espírita.

Em segundo lugar, se as comunicações espíritas só existissem em consequência de uma evocação, seguir-se-ia que elas seriam um privilégio dos que sabem evocar, e que a imensa maioria dos que jamais disso ouviram falar teriam sido dele privadas. Ora, isto estaria em contradição com o que dissemos há pouco das comunicações ocultas e espontâneas. Essas comunicações são para todo mundo, para o pequeno como para o grande, para o rico como para o pobre, para o ignorante como para o sábio. Os Espíritos que nos protegem; os parentes e amigos que perdemos, não precisam ser chamados. Eles estão juntos de nós e, embora invisíveis, nos cercam com sua solicitude; só o nosso pensamento basta para os atrair, provando-lhes a nossa afeição, porque, se não pensarmos neles, é muito natural que não pensem em nós.

Perguntareis, então, com que finalidade evocar? Vejamos. Suponde que estejais na rua, cercado por uma multidão compacta, que fala e zumbe aos vossos ouvidos; mas entre elas percebeis ao longe um conhecido a quem quereis falar em particular. Que fazeis, se não puderdes chegar a ele? Chamais, e ele vem a vós. Dá-se o mesmo com os Espíritos. Ao lado dos que estimamos e que talvez nem sempre estejam lá, existe a multidão de indiferentes. Se quiserdes falar a um determinado Espírito, como não podeis ir a ele, retido que estais pela grilheta corporal, vós o chamais, e eis todo o mistério da evocação, que não tem outro fim senão o de vos dirigirdes a quem quiserdes, ao invés de escutar o primeiro que se apresente. Nas comunicações ocultas e espontâneas, de que falamos antes, os Espíritos que nos assistem nos são desconhecidos; fazem-no malgrado nosso. Por meio das manifestações materiais, escritas ou outras, eles revelam a sua presença de maneira patente e podem dar-se a conhecer, caso o queiram. É um meio de saber com quem estamos sintonizados e se temos em nosso redor amigos ou inimigos. Os inimigos não faltam no mundo dos Espíritos, como entre os homens. Lá, como cá, os mais perigosos são os que não conhecemos. O Espiritismo prático dá-nos os meios de conhecê-los.

Em resumo, quem não conhece o Espiritismo senão pelas mesas girantes faz dele uma ideia tão mesquinha e tão pueril quanto aquele que só conhecesse a Física por certos brinquedos infantis. Mas, quanto mais se avança, mais se alarga o horizonte e só então é que se compreende o seu verdadeiro alcance, porque ele nos desvenda uma das forças mais poderosas da Natureza, força que ao mesmo tempo age sobre o inundo moral e o inundo físico. Ninguém contesta a reação que sobre nós exerce o meio material, visível ou invisível, no qual estamos mergulhados. Se estamos numa multidão, essa multidão de seres reage também sobre nós, moral e fisicamente. Com a morte, as nossas almas vão para algum lugar no espaço. Para onde vão? Como não há para elas nenhum lugar fechado e circunscrito, o Espiritismo diz e prova pelos fatos que esse algum lugar é o espaço; elas formam em torno de nós uma população inumerável. Ora, como admitir que esse meio inteligente tenha menos ação que o meio ininteligente? Aí está a chave de um grande número de fatos incompreendidos, que o homem interpreta conforme os seus preconceitos e que explora ao sabor de suas paixões. Quando essas coisas forem compreendidas por todos, desaparecerão os preconceitos e o progresso poderá seguir sua marcha sem entraves.

O Espiritismo é uma luz que aclara os mais tenebrosos refolhos da sociedade; é, pois, muito natural que os que temem a luz, busquem extingui-la. Mas, quando a luz tiver tudo penetrado, será preciso que os que buscam a escuridão se decidam a viver em plena luz. Então veremos cair muitas máscaras. Todo homem que realmente quer o progresso não pode ficar indiferente a uma das causas que mais devem contribuir para ele e que prepara uma das maiores revoluções morais até agora sofridas pela Humanidade. Como se vê, estamos bem longe das mesas girantes. A distância que existe entre este modesto começo e suas consequências é a mesma que havia entre a maçã de Newton e a gravitação universal.

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