Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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Já que estamos falando dos jornalistas a propósito do Espiritismo, não paremos

no caminho. Esses senhores em geral não nos mimoseiam, e como não fazemos mistério de suas críticas, hão de nos permitir apresentar a contrapartida e opor à opinião do Sr. Deschanel e de outros, a de um escritor cujo valor e influência ninguém contesta, sem que nos possam taxar de amor-próprio. Aliás, os elogios não se dirigem à nossa pessoa ou, pelo menos, não os tomamos para nós e reportamos a honra aos guias espirituais que bondosamente nos dirigem. Não poderíamos, pois, prevalecer-nos do mérito que se possa encontrar em nossos trabalhos; aceitamos os elogios, não como indício de nosso valor pessoal, mas como uma consagração da obra que empreendemos e que, com a ajuda de Deus, esperamos levar a bom termo, pois ainda não estamos no fim e o mais difícil ainda não está feito. Sob esse aspecto, a opinião do Sr. Louis Jourdan tem um certo peso, porque se sabe que não fala levianamente por falar ou para encher colunas com palavras. Certamente ele pode enganar-se, como qualquer outro, mas, em todo caso, sua opinião é sempre conscienciosa.

Seria prematuro dizer que o Sr. Jourdan é um adepto confesso do Espiritismo. Ele próprio declara nada haver visto e não estar em contato com nenhum médium. Julga a coisa conforme seu sentir íntimo e como não parte da negação da alma e de qualquer força extra-humana, vê na Doutrina Espírita uma nova fase do mundo moral e um meio de explicar o que até então era inexplicável. Ora, admitindo a base, sua razão não se recusa absolutamente a lhe admitir as consequências, ao passo que o Sr. Figuier não pode admitir tais consequências, desde que repele o princípio fundamental. Não tendo estudado tudo, nem tudo aprofundado nesta vasta Ciência, não é de admirar que suas ideias não estejam estabelecidas sobre todos os pontos e, por isso mesmo, certas questões ainda devam parecer-lhe hipotéticas. Mas como, homem de senso, não diz: “Não compreendo, logo, não é.” Ao contrário, diz: “Não sei por que não aprendi, mas não nego.” Como homem sério, não faz troça com uma questão que toca os mais sérios interesses da Humanidade e, como homem prudente, cala-se sobre aquilo que ignora, temendo que os fatos não venham, como a tantos outros, desmentir as suas negações e que lhe possam opor este argumento irresistível: “Falais do que não sabeis.” Assim, passando sobre as questões de detalhe, para as quais confessa sua incompetência, limita-se à apreciação do princípio, e esse princípio, apenas o raciocínio o leva a admitir-lhe a possibilidade, como acontece diariamente.

O Sr. Jourdan publicou primeiro um artigo sobre o Livro dos Espíritos na revista Le Causeur nº 8, de abril de 1860. Um ano decorrido e nós ainda não falamos disso dessa Revista, prova de que não somos muito apressados em nos prevalecermos dos elogios, enquanto citamos textualmente, ou indicamos, as mais amargas críticas, prova também de que não tememos a sua influência. Esse artigo foi reproduzido em sua nova obra Un Philosophe au coin du feu[1], da qual constitui um capítulo. Dele extraímos as passagens seguintes:

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“Prometi formalmente voltar a um assunto sobre o qual apenas disse algumas palavras, e que merece uma atenção muito particular. É o Livro dos Espíritos, contendo os princípios da doutrina e da filosofia espíritas. O vocábulo pode vos parecer bárbaro, mas que fazer? As coisas novas precisam de nomes novos. As mesas girantes chegaram ao espiritismo, e nós estamos hoje de posse de uma doutrina completa, inteiramente revelada pelos Espíritos, porque esse Livro dos Espíritos não é feito pela mão do homem. O Sr. Allan Kardec limitou-se a recolher e pôr em ordem as respostas dadas pelos Espíritos às inumeráveis perguntas que lhes foram feitas, respostas breves, que nem sempre satisfazem à curiosidade do interrogador, mas que, consideradas em conjunto, constituem com efeito uma doutrina, uma moral e, quem sabe? Talvez uma religião.

“Julgai-o vós mesmos. Os Espíritos se explicaram claramente sobre as causas primeiras, sobre Deus e o infinito, sobre os atributos da Divindade. Deram-nos os elementos gerais do Universo, o conhecimento do princípio das coisas, as propriedades da matéria. Disseram os mistérios da Criação, a formação dos mundos e dos seres vivos, as causas da diversidade das raças humanas. Daí ao princípio vital há apenas um passo, e eles nos disseram o que era o princípio vital, o que eram a vida e a morte, a inteligência e o instinto.

“Depois levantaram o véu que nos oculta o mundo espírita, isto é, o mundo dos Espíritos e nos disseram qual era a sua origem e qual a sua natureza; como se encarnavam e qual o objetivo dessa encarnação; como se efetuava a volta da vida corpórea à vida espiritual. Espíritos errantes, mundos transitórios, percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos, relações de além-túmulo, relações simpáticas e antipáticas dos Espíritos, volta à vida corporal, emancipação da alma, intervenção dos Espíritos no mundo corpóreo, ocupações e missões dos Espíritos, nada nos foi ocultado.

“Eu disse que os Espíritos estavam, não só fundando uma doutrina e uma filosofia, mas também uma religião. Com efeito, eles elaboraram um código do mundo moral, no qual se acham formuladas leis cuja sabedoria me parece muito grande e, para que nada lhe falte, disseram quais seriam as penas e os prazeres futuros, e o que se deveria entender pelos vocábulos Paraíso, Purgatório e Inferno. É, como se vê, um sistema completo, e não experimento nenhum embaraço em reconhecer que se o sistema não tem a coesão poderosa de uma obra filosófica, se contradições aparecem aqui e ali, é pelo menos muito notável por sua originalidade, por seu alto alcance moral, pelas soluções imprevistas que dá às delicadas questões que em todos os tempos inquietaram ou ocuparam o espírito humano.

“Sou completamente estranho à escola espírita; não conheço o seu chefe, nem os seus adeptos; jamais vi funcionar a menor mesa girante; não tenho contato com nenhum médium; não testemunhei nenhum desses fatos sobrenaturais ou maravilhosos dos quais encontro os relatos incríveis nas publicações espíritas que me enviam. Não afirmo nem repilo absolutamente as comunicações dos Espíritos; creio a priori que essas comunicações são possíveis e minha razão absolutamente não se alarma por isto. Para nelas crer, não necessito da explicação que há pouco tempo me dava um sábio amigo, o Sr. Louis Figuier, sobre esses fatos que ele atribui à influência magnética dos médiuns.

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“Nada vejo de impossível em que se estabeleçam relações entre o mundo invisível e nós. Não me pergunteis como e por quê; eu nada sei a respeito. Isto é uma questão de sentimento e não de demonstração matemática. É, pois, um sentimento que exprimo, mas um sentimento que nada tem de vago e no meu espírito e no meu coração toma formas bastante precisas.

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“Se pelo movimento dos pulmões podemos tirar do espaço infinito que nos envolve, os fluidos, os princípios vitais necessários à nossa existência, é bem evidente que estamos em relação constante e necessária com o mundo invisível. Esse mundo é povoado por Espíritos errantes como almas penadas e sempre prontas a responder ao nosso chamado? Eis o que é mais difícil de admitir, mas, também, o que seria temerário negar absolutamente.

“Sem dúvida não é difícil crer que todas as criaturas de Deus não se assemelhem aos tristes habitantes do nosso planeta. Somos muito imperfeitos; somos submetidos a necessidades grosseiras, para que não seja difícil imaginar que existam seres superiores que não sofram nenhuma pena corporal; seres radiosos e luminosos, espírito e matéria como nós, mas espírito mais sutil e mais puro, matéria menos densa e menos pesada; mensageiros fluídicos que unem entre si os universos, sustentam, encorajam os astros e as raças diversas que os povoam, para a realização de suas tarefas.

“Pela aspiração e pela respiração estamos em relação com toda a hierarquia dessas criaturas, desses seres cuja existência não podemos compreender e cujas formas não podemos representar. Assim, não é absolutamente impossível que alguns desses seres acidentalmente entrem em relação com os homens, mas o que nos parece pueril é que seja necessário o concurso material de uma mesa, de uma prancheta ou de um médium qualquer para que tais relações se estabeleçam.

“De duas, uma: ou essas comunicações são úteis, ou são ociosas. Se são úteis, os Espíritos não devem ter necessidade de ser chamados de maneira misteriosa; de ser evocados e interrogados para ensinar aos homens o que importa saber. Se são ociosas, por que a elas recorrer?

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“Não tenho qualquer repugnância em admitir essas influências, essas inspirações, essas revelações, se quiserdes. O que repilo absolutamente é que, sob pretexto de revelação, venham dizer-me: Deus falou, portanto ides submeter-vos. Deus falou pela boca de Moisés, do Cristo, de Maomé, por isso sereis judeus, cristãos, ou muçulmanos, senão incorrereis nos castigos eternos e, enquanto esperamos, iremos amaldiçoar-vos e vos torturar aqui.

“Não! Não! Semelhantes revelações não quero a preço algum. Acima de todas as revelações, de todas as inspirações, de todos os profetas presentes, passados e futuros, há uma suprema lei: a lei da liberdade. Com esta lei por base, admitirei, sem discussão, tudo o que vos agradar. Suprimi esta lei e só haverá trevas e violência. Eu quero ter a liberdade de crer ou não crer e dizê-lo alto e bom som. É o meu direito e quero usá-lo. É a minha liberdade e faço questão de conservá-la. Dizeis-me que não crendo no que me ensinais, perco minha alma. É possível. Quero minha liberdade até esse limite; quero perder minha alma, se isto me apraz. Assim, quem aqui será o juiz de minha salvação ou de minha perda? Quem, então, poderá dizer: Aquele foi salvo e este perdido sem remissão? Então a misericórdia de Deus não será infinita?

Será que alguém no mundo pode sondar o abismo de uma consciência?

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“É porque esta doutrina também se encontra no curioso livro do Sr. Allan Kardec, que me reconcilio com os Espíritos que ele interrogou. O laconismo de suas respostas prova que os Espíritos não têm tempo a perder; e, se de alguma coisa me admiro, é que ainda o tenham bastante para responder complacentemente ao chamado de tanta gente que perde o seu a evocá-los.

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“Tudo quanto dizem de maneira mais ou menos clara, mais ou menos sumária os Espíritos, cujas respostas o Sr. Allan Kardec coligiu, foi exposto e desenvolvido com notável clareza por Michel, que se me afigura, por certo, o mais adiantado e o mais completo de todos os místicos contemporâneos. Sua revelação é, ao mesmo tempo, uma doutrina e um poema, doutrina sã e fortificante, poema brilhante. A única vantagem que encontro nas perguntas e respostas que o Sr. Allan Kardec publicou é que apresentam, sob uma forma mais acessível à grande massa dos leitores, e sobretudo das leitoras, as principais ideias sobre as quais importa chamarlhes a atenção. Os livros de Michel não são de leitura fácil; exigem uma tensão de espírito muito continuada. O livro de que falamos, ao contrário, pode ser uma espécie de vade mecum; se o tomamos, se o deixamos aberto em qualquer página, de súbito a curiosidade nos é despertada. As perguntas dirigidas aos Espíritos são as que nos preocupam a todos. As respostas são por vezes muito fracas; outras vezes condensam em poucas palavras a solução dos problemas mais árduos, e sempre oferecem um vivo interesse ou salutares indicações. Não sei de curso de moral mais atraente, mais consolador, mais encantador que esse. Todos os grandes princípios sobre os quais se fundam as civilizações modernas ali são confirmados, especialmente o princípio dos princípios: a liberdade! O espírito e o coração saem dali asserenados e fortalecidos.

“São sobretudo os capítulos relativos à pluralidade dos sistemas e à lei do progresso coletivo e individual que têm um atrativo e um encanto poderosos. De minha parte, os Espíritos do Sr. Allan Kardec nada me ensinaram a este respeito. Há muito eu acreditava firmemente no desenvolvimento progressivo da vida através dos mundos; que a morte é o umbral de uma existência nova, cujas provas são proporcionais aos méritos da existência anterior. Aliás, é a velha fé gaulesa, era a doutrina druídica, e os Espíritos nisto nada inventaram, mas o que acrescentaram é uma série de deduções e de regras práticas excelentes na maneira de conduzir a vida. Sob esse aspecto, como sob muitos outros, a leitura desse livro, independentemente do interesse e da curiosidade provocada por sua origem, pode ter um alto caráter de utilidade para os caracteres indecisos; para as almas inseguras que flutuam no terreno da dúvida. A dúvida é o pior dos males! É a mais horrível das prisões, da qual é preciso sair a qualquer preço. Esse livro estranho ajudará homens e mulheres a consolidar a sua vida, a quebrar os ferrolhos da prisão, precisamente porque é apresentado sob forma simples e elementar, sob a forma de um catecismo popular, que todo mundo pode ler e compreender.”

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Após citar algumas perguntas sobre o casamento e o divórcio, que ele acha um pouco pueris e que não são tratadas ao seu gosto, o Sr. Jourdan assim termina:

“Apresso-me a dizer, entretanto, que todas as respostas dos Espíritos não são tão superficiais quanto as de que acabo de falar. É o conjunto desse livro que é admirável; é o assunto geral que é marcado por uma certa grandeza e por uma viva originalidade. Quer emane ou não de uma fonte sobrenatural, a obra é empolgante sob vários aspectos e apenas pelo fato de ter-me interessado vivamente, sou levado a crer que possa interessar a muita gente.”



[1] Um filósofo ao pé do fogo. 1 volume in-12, preço 3 francos; Livraria Dentu.


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