Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1859

Allan Kardec

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1. ─ (Evocação).
─ Falai e eu responderei.

2. ─ Embora estejais morto há 1.743 anos, tendes recordação de vossa existência em Roma ao tempo de Trajano?
─ Por que, então, nós Espíritos não nos poderíamos recordar? Tendes lembrança de muitos atos de vossa infância. Que é para o Espírito uma existência passada senão a infância das existências pelas quais devemos passar antes de chegarmos ao fim das provas? Toda existência terrena ou envolvida pelo véu material, é um passo para o éter e, ao mesmo tempo, uma infância espiritual e material; espiritual, porque o Espírito ainda se acha no começo das provas; material, porque ele apenas acaba de entrar nas fases grosseiras por que deve passar a fim de depurar-se e instruir-se.

3. ─ Poderíeis dizer-nos o que tendes feito desde aquela época?
─ Seria longo dizer o que fiz. Procurei fazer o bem. Sem dúvida não quereis passar horas e horas até que eu conte tudo. Contentai-vos, pois, com uma resposta. Repito: procurei fazer o bem, instruir-me e levar as criaturas terrenas e errantes a se aproximarem do Criador de todas as coisas, daquele que nos dá o pão da vida espiritual e material.

4. ─ Que mundo habitais agora?
─ Pouco importa. Estou um pouco por toda parte. O espaço é o meu domínio e o de muitos outros. Estas são questões que um Espírito sábio e esclarecido pela luz santa e divina não deve responder, a não ser em ocasiões muito raras.

5. ─ Numa carta que escrevestes a Sura relatais três casos de aparição.
Lembrai-vos deles?
─ Eu os sustento porque são verdadeiros. Diariamente tendes fatos semelhantes a que não prestais atenção. Eles são muito simples, mas na época em que vivi eram considerados surpreendentes. Disso não vos deveis admirar. Ponde de lado essas coisas porque tendes outras mais extraordinárias.

6. ─ Contudo, teríamos vontade de vos fazer algumas perguntas a respeito.
─ Responderei de maneira geral e isto vos deve bastar. Entretanto, perguntai, se fizerdes absoluta questão. Darei respostas lacônicas.

7. ─ No primeiro caso, uma senhora aparece a Curtius Rufus e lhe diz que é a África. Mas quem era essa senhora?
─ Uma grande figura. Parece-me que ela é muito simples para homens esclarecidos como os do século XIX.

8. ─ Qual o motivo que impelia o Espírito que apareceu a Atenodoro e por que aqueles ruídos das correntes?
─ Símbolo da escravidão; manifestação; meio de convencer os homens e de lhes chamar a atenção, fazendo falar da coisa e ainda de provar a existência do mundo espiritual.

9. ─ Perante Trajano defendestes a causa dos cristãos perseguidos. Fostes levado por simples motivo de humanidade ou por convicção da verdade de sua doutrina?
─ Eu tinha os dois motivos;,mas a humanidade ocupava o segundo lugar.

10. ─ Que pensais do vosso panegírico de Trajano?
─ Deveria ser refeito.

11. ─ Escrevestes uma história do vosso tempo que se perdeu. Poderíeis reparar tal perda no-la ditando?
─ O mundo dos Espíritos não se manifesta especialmente por estas coisas. Tendes essas formas de manifestações, mas elas têm seu objetivo. São outras tantas balizas, fincadas à direita e à esquerda da grande via da verdade. Mas deixai; não vos ocupeis com isto nem a isto consagreis os vossos estudos. Cabe a nós o cuidado de ver e de julgar o que vos importa saber. Cada coisa tem o seu tempo. Não vos afasteis, pois, da linha que vos traçamos.

12. ─ Temos satisfação de fazer justiça às vossas boas qualidades e, sobretudo, ao vosso desinteresse. Dizem que nada exigíeis dos clientes a quem defendíeis. Tal desinteresse seria tão raro em Roma quanto o é entre nós?
─ Não lisonjeeis as minhas qualidades passadas. Não me preocupam mais. O desinteresse é praticamente inexistente no vosso século. Em cada duzentos homens encontrareis apenas um ou dois realmente desinteressados. Sabeis muito bem que este é um século do egoísmo e do dinheiro. Atualmente os homens são feitos de lama e se revestem de metal. Outrora havia sentimento, o estofo dos Antigos; hoje existe apenas a condição social.

13. ─ Mesmo sem absolver o nosso século, parece que ele vale mais do que aquele em que vivestes e no qual a corrupção estava no auge e a delação não conhecia nada de sagrado.
─ Faço uma generalização muito exata. Sei que à época em que eu vivia não havia muito desinteresse, entretanto havia aquilo que não possuís ou o possuís em dose muito fraca ─ o amor do belo, do nobre, do grande. Falo para todo o mundo. O homem de hoje, sobretudo os povos do Ocidente, e particularmente os franceses, têm o coração pronto para fazer grandes coisas, mas isto não passa de um lampejo passageiro. Logo vem a reflexão e a reflexão considera e diz: o positivo, o positivo antes de mais nada. Então o egoísmo e o dinheiro voltam a tomar a dianteira. Nós nos manifestamos justamente porque vós vos afastais dos princípios dados por Jesus.

Até à vista. Vós não compreendeis.

Observação: Compreendemos muito bem que o nosso século muito deixa a desejar. Sua chaga é o egoísmo e o egoísmo engendra a cupidez e a sede de riquezas.

Sob este ponto de vista estamos longe do desinteresse de que o povo romano deu tantos exemplos sublimes, durante uma certa época, mas que não foi a de Plínio.

Entretanto seria injusto desconhecer a sua superioridade em mais de um ponto, mesmo sobre os mais belos tempos de Roma, que também tiveram os seus exemplos de barbárie. Então havia ferocidade até na grandeza e no desinteresse, ao passo que o nosso século será marcado pelo abrandamento dos costumes e pelos sentimentos de justiça e de humanidade que presidem a todas as instituições que vê nascer e até às questões entre os povos.
ALLAN KARDEC

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