Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1859

Allan Kardec

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Meus bons amigos e crentes fiéis. Desejei vir aqui, entre vós, para vos encorajar no caminho que seguis com tanto ânimo, relativamente à questão espírita. Vosso zelo é apreciado no mundo dos Espíritos. Prossegui, mas não vos descuideis, porque os obstáculos vos entravarão ainda por algum tempo. Assim como a mim, a vós não faltarão detratores, Há um século preguei o Espiritismo e tive inimigos de todos os gêneros. Também tive fervorosos adeptos, e isso sustentou a minha coragem.

A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço. Assim, as penas não são eternas, bem o vejo. Deus é muito justo e muito bom para punir eternamente a criatura que não tem força suficiente para resistir às paixões. Também aquilo que eu dizia do mundo dos Anjos, que é o que pregam nos templos, não passava de ilusão dos meus sentidos. De boa-fé eu julgava ver, e o disse, mas me enganei. Vós, sim, estais no melhor caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo.

Continuai, mas sede prudentes, para que os vossos inimigos não tenham armas muito fortes contra vós. Vedes o terreno que ganhais diariamente. Coragem, pois! O futuro vos está garantido. O que vos dá forças é que falais em nome da razão. Tendes perguntas a dirigir-me? Eu vos responderei.

SWEDENBORG

1. ─ Foi em Londres, em 1745, que tivestes a primeira revelação. Vós a desejáveis? Então já vos ocupáveis das questões teológicas?
─ Já me ocupava com isso, mas de modo algum havia desejado essa revelação. Ela me veio espontaneamente.

2. ─ Qual foi o Espírito que vos apareceu e disse ser o próprio Deus? Era realmente Deus?
─ Não. Acreditei no que me dizia porque nele via um ser sobre-humano e por isso fiquei lisonjeado.

3. ─ Por que tomou ele o nome de Deus?
─ Para ser melhor obedecido.

4. ─ Pode Deus manifestar-se diretamente aos homens?
─ Certamente poderia, mas não o faz mais.

5. ─ Houve então um tempo em que ele se manifestou?
─ Sim, nas primeiras idades da Terra.

6. ─ Aquele Espírito vos fez escrever coisas que hoje reconheceis como errôneas, fê-lo com boa ou com má intenção?
─ Não o fez com má intenção. Ele próprio estava enganado, pois não era bastante esclarecido. Hoje eu vejo que as ilusões do meu próprio Espírito e da minha inteligência o influenciavam, malgrado seu. Entretanto, no meio de alguns erros de sistema, fácil é reconhecer grandes verdades.

7. ─ O fundamento da vossa doutrina repousa sobre as correspondências. Ainda acreditais nessas relações que descobríeis entre cada coisa do mundo material e cada coisa do mundo moral?
─ Não. É uma ficção.

8. ─ Que entendeis por estas palavras: Deus é o próprio homem?
─ Deus não é o homem: o homem é que é uma imagem de Deus.

9. ─ Por favor, desenvolvei o vosso pensamento.
─ Digo que o homem é a imagem de Deus, porque a inteligência, o gênio que ele por vezes recebe do céu é uma emanação da Onipotência Divina. Ele representa Deus na Terra, pelo poder que exerce sobre toda a Natureza e pelas grandes virtudes que tem a possibilidade de adquirir.

10. ─ Devemos considerar o homem como uma parte de Deus?
─ Não. O homem não é parte da Divindade. É apenas a sua imagem.

11. ─ Poderíeis dizer-nos de que maneira eram recebidas por vós as comunicações dos Espíritos? Escrevíeis aquilo que vos era revelado, à maneira dos médiuns, ou por inspiração?
─ Quando eu estava em silêncio e em recolhimento, meu Espírito como que ficava deslumbrado, em êxtase, e eu via claramente uma imagem à minha frente, que me falava e ditava o que eu deveria escrever. Por vezes, minha imaginação se misturava a isso.

12. ─ Que devemos pensar do fato narrado pelo cavaleiro de Beylon, relativamente à revelação que fizestes à rainha Luísa Ulrica?
─ Essa revelação é verdadeira. Beylon a desnaturou.

13. ─ Qual a vossa opinião sobre a Doutrina Espírita, tal qual é hoje?
─ Eu vos disse que estais num caminho mais seguro que o meu, visto que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu tinha que lutar contra uma ignorância muito maior e sobretudo contra a superstição.

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