Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1859

Allan Kardec

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Benvenuto Cellini

1. ─ (Evocação).
─ Interrogai. Estou pronto. Podeis demorar-vos como quiserdes, pois tenho tempo para vos dar.

2. ─ Lembrai-vos da existência que passastes na Terra, no século XVI, entre 1500 e 1570?
─ Sim, sim.

3. ─ Atualmente, qual a vossa situação como Espírito?
─ Vivi em vários outros mundos e estou muito satisfeito com a posição que hoje ocupo. Não é um cimo, mas estou progredindo.

4. ─ Tivestes outras existências corporais na Terra, depois daquela que conhecemos?
─ Corporais, sim. Na Terra, não.

5. ─ Quanto tempo ficastes errante?
─ Não posso calcular. Alguns anos.

6. ─ Quais as vossas ocupações nesse estado errante?
─ Trabalhava pelo meu aperfeiçoamento.

7. ─ Voltais eventualmente à Terra?
─ Poucas vezes.

8─ Assististes ao drama em que sois representado? Que pensais dele?
─ Fui vê-lo várias vezes. Fiquei satisfeito como Cellini, mas pouco como Espírito que havia progredido.

9. ─ Antes da existência pela qual vos conhecemos, tivestes outras na Terra?
─ Não, nenhuma.

10. ─ Poderíeis dizer o que éreis em vossa precedente existência?
─ Minhas ocupações eram muito diferentes da que tive na Terra.

11. ─ Que mundo habitais?
─ Não o conheceis e não o vedes.

12. ─ Poderíeis dar-nos a sua descrição do ponto de vista físico e do moral?
─ Sim, facilmente. Do ponto de vista físico, meus caros amigos, satisfez-me a sua beleza plástica. Ali nada choca a vista; todas as linhas se harmonizam perfeitamente; a mímica é meio de expressão permanente; os perfumes nos rodeiam e não temos nada a desejar para o nosso bem-estar físico, porque as necessidades pouco numerosas a que estamos sujeitos logo são satisfeitas.

Do ponto de vista moral, a perfeição é menor, pois ali ainda podem ver-se consciências perturbadas e Espíritos dedicados ao mal. Não é a perfeição, longe disso, mas, como já disse, é o seu caminho, e todos esperamos um dia alcançá-la.

13. ─ Quais as vossas ocupações no mundo que habitais?
─ Trabalhamos as artes. Sou artista.

14. ─ Em vossas memórias contais uma cena de feitiçaria e de endemoninhamento que se teria passado no Coliseu, em Roma, e na qual teríeis tomado parte, recordai-vos?
─ Sem muita clareza.

15. ─ Se a lêssemos, a leitura avivaria a vossa lembrança?
─ Sim. Dar-me-ia a noção.

Fez-se então a leitura do seguinte trecho de suas memórias:

“Em meio a essa vida estranha, eu me liguei a um sacerdote siciliano, de espírito muito fino e profundamente versado nas letras gregas e latinas. Um dia nossa conversa caiu sobre necromancia e eu lhe disse que durante toda a minha vida tinha desejado ardentemente ver e aprender algo dessa arte. Para abordar semelhante empresa é necessário ter una alma firme e intrépida, respondeu o sacerdote.

“Uma noite, entretanto, o padre fez os seus preparativos e me disse que procurasse um ou dois companheiros. Convidou um homem de Pistoia, que também se ocupava de necromancia e dirigimo-nos ao Coliseu. Aí o padre vestiu-se à maneira dos necromantes, depois começou a riscar círculos no chão, acompanhando isto com as mais belas cerimônias que se possam imaginar.

Havia trazido perfumes preciosos, drogas fétidas e fogo. Quando tudo estavaem ordem ele fez uma abertura no círculo e ali nos introduziu, um a um, levando-nos pela mão. Depois distribuiu os papéis. Pôs o talismã nas mãos de seu amigo necromante; encarregou os outros da vigilância do fogo e dos perfumes, depois do que começou as conjurações. Essa cerimônia durou mais de hora e meia. O Coliseu encheu-se de legiões de Espíritos infernais. Quando o padre viu que eram bastante numerosos, voltou-se para mim, que cuidava dos perfumes, e disse:

“─ Benvenuto, pede-lhes alguma coisa.
“Respondi que desejava que eles me reunissem à minha siciliana Angélica.

“Não obstante nenhuma resposta tivéssemos naquela noite, fiquei encantado com o que tinha visto.

“O necromante me disse que era necessário voltar uma segunda vez e que eu obteria tudo quanto quisesse, desde que trouxesse um rapazinho ainda virgem.

“Escolhi um dos meus aprendizes e trouxe mais dois amigos meus.

“Ele pôs-me nas mãos o talismã, mandando que o voltasse para a direção que me fosse indicada. Meu aprendiz ficou colocado debaixo do talismã. O necromante começou suas terríveis evocações. Chamou pelo nome uma porção de chefes de legiões infernais e lhes deu ordens em hebraico, em grego e em latim, em nome do Deus incriado, vivo e eterno. Em breve o Coliseu encheu-se de uma quantidade de demônios cem vezes maior que da primeira vez. A conselho do necromante, pedi novamente para me encontrar com Angélica. Ele voltou-se para mim e me disse:

“Não os ouviste anunciar que em um mês estarias com ela?” E pediu-me que tivesse firmeza, porque havia ainda mil legiões que não tinham sido chamadas, acrescentando que essas eram mais perigosas e que, de vez que haviam respondido ao meu pedido, era necessário tratá-las com brandura e despedi-las tranquilamente.

Por outro lado o menino exclamava com espanto que percebia milhares de homens terríveis que nos ameaçavam, e quatro enormes gigantes, armados dos pés à cabeça, que pareciam querer penetrar em nosso círculo. Entrementes, a tremer de medo, o necromante tentava conjurá-los, ensaiando a mais doce entonação de voz. O menino mergulhava a cabeça entre os joelhos e gritava:

─ “Eu quero morrer assim! Estamos mortos!
“Então eu lhe disse:

“─ Estas criaturas estão todas abaixo de nós. Aquilo que vês não passa de fumaça e sombra. Levanta, pois, os teus olhos.”
“Apenas me havia obedecido, exclamou:

“─ Todo o Coliseu está em chamas e o fogo vem sobre nós.”
“O necromante mandou que fosse queimada assa-fétida. Agnolo, encarregado
dos perfumes, estava semimorto de pavor.

“O ruído e o mau cheiro fizeram o menino levantar a cabeça. Ouvindo o meu riso, animou-se um pouco e disse que os demônios começavam a retirada. Ficamos assim até o momento em que soaram as matinas. Disse-nos o menino que apenas avistava alguns demônios a grande distância. Por fim, quando o necromante concluiu o cerimonial e tirou os paramentos, saímos do círculo.

“Enquanto voltávamos para casa, pela Via dei Banchi, ele garantia que dois demônios faziam piruetas à nossa frente, ora correndo sobre os telhados, ora pelo chão.

“O necromante jurava que desde que havia posto o pé num círculo mágico,
jamais lhe havia acontecido algo tão extraordinário. Depois tentou convencer-me a me dedicar com ele a um livro que nos deveria proporcionar riquezas incalculáveis e nos dar os meios de obrigar os demônios a indicar-nos os lugares onde estão ocultos os tesouros que a terra guarda em seu seio...

“Depois de diferentes relatos mais ou menos ligados ao que precede, conta Benvenuto como, ao cabo de trinta dias, ou seja, no prazo fixado pelos demônios, ele encontrou sua Angélica.”

16. ─ Poderíeis dizer-nos o que existe de verídico nesta cena?
─ O necromante era um charlatão; eu era um romancista e Angélica era a minha amante.

17. ─ Revistes o vosso protetor Francisco I?
─ Certamente. Ele reviu muitos outros que não foram seus protegidos.

18. ─ Como o julgáveis em vida e como o julgais agora?
─ Direi como o julgava: como um príncipe e, como tal, enceguecido por sua
educação e pelos que o cercavam.

19. ─ E agora, que dizeis dele?
─ Ele progrediu.

20. ─ Ele protegia os artistas por um sincero amor às artes?
─ Sim, mas também por prazer e por vaidade.

21. ─ Onde se acha ele atualmente?
─ Está vivo.

22. ─ Na Terra?
─ Não.

23. ─ Se o evocássemos agora, ele poderia vir e conversar conosco?
─ Sim. Mas não forceis os Espíritos dessa maneira. Vossas evocações devem ser preparadas com muita antecedência, e então, pouco tereis a perguntar ao Espírito.
Desse modo vos arriscareis muito menos a serdes enganados, pois às vezes isso se dá. (São Luís).

24. ─ (A São Luís): Poderíeis fazer com que dois Espíritos viessem conversar
um com o outro?
─ Sim.
─ Nesse caso seria útil ter dois médiuns?
─ Sim, é necessário.

NOTA: O diálogo em questão ocorreu em outra sessão. Publicá-lo-emos no próximo número.

25. (A Cellini): ─ Qual a origem da vossa vocação para a arte? Seria devido a um especial desenvolvimento anterior?
─ Sim. Durante muito tempo fui atraído pela poesia e pela beleza da linguagem. Na Terra prendi-me à beleza como reprodução. Hoje me ocupo da beleza como invenção.

26. ─ Tínheis também habilidade militar, pois o Papa Clemente VII vos confiou a defesa do Castelo de Santo Ângelo. Entretanto, o vosso talento de artista não vos devia dar muita aptidão para a guerra.
─ Tinha talento e sabia aplicá-lo. Em tudo é necessário discernimento, sobretudo na arte militar de então.

27. ─ Poderíeis dar alguns conselhos aos artistas que buscam seguir as vossas pegadas?
─ Sim. Dir-lhes-ei apenas que mais do que fazem e mais do que fiz, busquem a pureza e a verdadeira beleza. Eles me compreenderão.

28. ─ A beleza não é relativa e convencional? O europeu julga-se mais belo que o negro, e o negro mais belo que o branco. Se há uma beleza absoluta, qual o padrão? Podeis dar a vossa opinião a respeito?
─ Com prazer. Não quis aludir a uma beleza convencional. Pelo contrário, a beleza está em toda parte, como um reflexo do Espírito sobre o corpo e não apenas como forma corpórea. Como dissestes, um negro pode ser belo, de uma beleza apreciada apenas por seus semelhantes, é verdade. Do mesmo modo vossa beleza terrena é deformidade para o Céu, assim como para vós, brancos, o belo negro quase que se vos afigura disforme. Para o artista, o belo é a vida, o sentimento que sabe dar à obra. Com isso dará beleza às coisas mais vulgares.

29. ─ Poderíeis guiar um médium na execução de modelagens, assim como Bernard de Palissy em relação aos desenhos?
─ Sim.

30. ─ Poderíeis levar o médium de quem vos servis no momento a produzir alguma coisa?
─ Como os outros, mas preferiria um artista, que conhecesse os truques da arte.

OBSERVAÇÃO: Prova a experiência que a aptidão de um médium para tal ou qual gênero de produção depende da flexibilidade que apresenta ao Espírito, abstração feita do seu talento. O conhecimento do ofício e os meios materiais de execução não constituem o talento, mas é compreensível que, dirigindo o médium, nele encontre o Espírito menos dificuldade mecânica a vencer. Entretanto, veem-se médiuns que fazem coisas admiráveis, embora lhes faltem as primeiras noções, como no caso dos desenhos, da poesia, das gravuras, da música, etc., mas então é que existe neles uma aptidão inata, sem dúvida devida a um desenvolvimento anterior, do qual apenas conservaram a intuição.

31. ─ Poderíeis dirigir a senhora G. S., aqui presente, que é artista, mas que jamais conseguiu produzir algo como médium?
─ Se ela tiver vontade, experimentarei.

32. (A Sra. G. S.): ─ Quando queres começar?
─ Quando quiseres, a partir de amanhã.

33. ─ Como, porém, saberei que a inspiração virá de ti?
─ A convicção vem com as provas. Deixai que venha lentamente.

34. ─ Por que não tive êxito até este momento?
─ Pouca persistência e falta de boa vontade por parte do Espírito a quem solicitas.

35. ─ Agradeço-te pela assistência que me prometes.
─ Adeus. Até a vista, companheira de trabalho.

NOTA: A Sra. G. S. pôs-se à obra, mas ainda ignoramos quais os resultados.

Girard de Codember

Ex-aluno da Escola Politécnica, membro de várias associações científicas, autor de um livro intitulado: Le Monde spirituel, ou science chrétienne de communiquer intimement avec les puissances célestes et les âmes heureuses. Falecido em novembro de 1858, foi evocado na Sociedade a 14 de janeiro seguinte.

1. ─ (Evocação).
─ Aqui me acho. Que querem?

2. ─ Atendeis ao nosso chamado de boa vontade?
─ Sim.

3. ─ Quereis dizer-nos o que pensais atualmente do livro que publicastes?
─ Cometi alguns erros, mas ali há coisas aproveitáveis. Creio que, sem autoelogio, vós mesmos concordareis com o que disse.

4. ─ Dizeis principalmente que tivestes comunicações com a mãe do Cristo. Vedes agora se era realmente ela?
─ Não. Não era ela, mas um Espírito que lhe tomava o nome.

5. ─ Com que fim esse Espírito lhe tomava o nome?
─ Ele me via seguir por um caminho errado e aproveitava para me empurrar ainda mais. Era um Espírito perturbador, um ser leviano, mais inclinado ao mal do que ao bem. Sentia-se feliz por ver a minha falsa alegria. Eu era o seu joguete, como muitas vezes vós homens o sois dos próprios semelhantes.

6. ─ Como é que vós, dotado de uma inteligência superior, não percebestes o ridículo de certas comunicações?
─ Eu estava fascinado e tomava por bom tudo quanto me diziam

7. ─ Não julgais que essa obra possa fazer mal, no sentido de prestar-se ao ridículo, relativamente às comunicações de além-túmulo?
─ Nesse sentido, sim. Mas eu disse também que havia coisas aproveitáveis, como também verdadeiras e que, sob um outro ponto de vista, impressionam as massas. Naquilo que nos parece mau, por vezes encontramos uma boa semente.

8. ─ Sois agora mais feliz do que quando vivo?
─ Sim. Mas tenho muita necessidade de esclarecer-me, pois ainda me acho nas brumas que se seguem à morte. Estou como o aluno que começa a soletrar.

9. ─ Quando vivo conhecestes O Livro dos Espíritos?
─ Nunca lhe havia prestado atenção. Tinha ideias preconcebidas. Nisto eu pecava, pois nunca é demais aprofundar-se e estudar todas as coisas. Mas o orgulho está sempre presente, criando-nos ilusões. Isto é próprio dos ignorantes em geral, que não estudam senão aquilo que preferem e não ouvem senão aqueles que os elogiam.

10. ─ Mas não éreis um ignorante. Vossos títulos bem o provam.
─ Que é o sábio da Terra ante a Ciência do céu? Aliás, sempre há a influência de certos Espíritos, interessados em afastar-nos da luz.

OBSERVAÇÃO: Isto corrobora o que já foi dito, que certos Espíritos inspiram o afastamento das pessoas que poderiam dar conselhos úteis e frustrar os seus planos. Essa influência jamais seria a de um bom Espírito.

11. ─ E agora, que pensais desse livro?
─ Eu não poderia dizê-lo sem elogios, e nós não elogiamos. Deveis compreender-me.

12. ─ Modificou-se a vossa opinião relativamente às penas futuras?
─ Sim. Eu acreditava nas penas materiais. Agora creio nas penas morais.

13. ─ Podemos fazer algo que vos seja agradável?
─ Sempre. Que cada um faça, à noite, uma prece em minha intenção. Serei reconhecido. Principalmente não me esqueçais.

OBSERVAÇÃO: O livro do Sr. de Codemberg causou alguma sensação e, digamos mesmo, uma penosa sensação entre os esclarecidos partidários do Espiritismo, em consequência da extravagância de certas comunicações que se prestam ao ridículo. Sua intenção era louvável, pois era um homem sincero, mas é um exemplo do domínio que certos Espíritos podem exercer, adulando e exagerando ideias e preconceitos daqueles que não ponderam com muita severidade os prós e os contras das comunicações espíritas. Ele nos mostra principalmente o perigo de divulgá-los muito levianamente para o público, porque podem tornar-se motivo de repulsa, fortalecendo certas pessoas na incredulidade e, assim, fazendo maior mal do que bem, porque dão armas aos inimigos da causa. Nunca seríamos demasiadamente cautelosos a este respeito.

Poitevin, o aeronauta

1. ─ (Evocação).
─ Eis-me aqui. Falai.

2. ─ Tendes saudades da vida terrena?
─ Não.

3. ─ Sois mais feliz agora do que quando vivo?
─ Muito.

4. ─ Qual o motivo que vos levou a experiências aeronáuticas?
─ A necessidade.

5. ─ Tínheis ideia de servir à Ciência?
─ De modo algum.

6. ─ Vedes agora a ciência aeronáutica de um ponto de vista diverso do que tínheis quando vivo?
─ Não. Eu a via como a vejo agora, pois a via bem. Via muitos aperfeiçoamentos a introduzir, mas não podia fazê-los por falta de conhecimento. Mas esperai. Virão homens que hão de dar-lhe a importância que ela merece e que merecerá um dia.

7. ─ Credes que a aeronáutica venha a tornar-se um dia de utilidade pública?
─ Sim, certamente.

8. ─ A grande preocupação dos que se dedicam a essa ciência é a busca da dirigibilidade dos balões. Pensais que o conseguirão?
─ Sim, com certeza.

9. ─ Na vossa opinião, qual a maior dificuldade para a dirigibilidade dos balões?
─ O vento e as tempestades.

10. ─ Então não é a dificuldade de encontrar um ponto de apoio?
─ Se dirigíssemos os ventos, dirigiríamos os balões.

11. ─ Poderíeis assinalar o ponto para o qual deveriam ser dirigidas as pesquisas a esse respeito?
─ Deixemos como está.

12. ─ Estudastes em vida os vários sistemas propostos?
─ Não.

13. ─ Poderíeis dar conselhos aos que se ocupam de tais pesquisas?
─ Pensais que os vossos conselhos seriam seguidos?

14. ─ Não seriam os nossos, mas os vossos.
─ Quereis um tratado? Eu mandarei fazê-lo.

15. ─ Por quem?
─ Pelos amigos que me guiaram.

16. ─ Aqui estão dois inventores distintos em matéria de aerostação, os senhores Sanson e Ducroz, que tiveram menções científicas muito honrosas. Tendes ideia de seus sistemas?
─ Não. Muito há que dizer. Eu não os conheço.

17. ─ Admitindo estar resolvido o problema da dirigibilidade, credes na possibilidade de uma navegação aérea em grande escala como sobre o mar?
─ Não, nunca como pelo telégrafo.

18. ─ Não falo da rapidez das comunicações, que jamais podem ser comparadas à do telégrafo, mas do transporte de um grande número de pessoas e de objetos materiais. Que resultado podemos esperar neste sentido?
─ Pouca presteza.

19. ─ Quando em perigo iminente, pensastes no que seríeis depois da morte?
─ Não. Estava inteiramente absorvido nas manobras.

20. ─ Que impressão vos causava o perigo que corríeis?
─ O hábito tinha diminuído o medo.

21. ─ Que sensação tínheis quando estáveis perdido no espaço?
─ Perturbação, mas felicidade. Parece que meu Espírito fugia do vosso mundo. Entretanto, a necessidade de manobrar trazia-me à realidade e fazia-me cair na fria e perigosa posição em que me achava.

22. ─ Vedes com prazer a vossa esposa seguir a mesma carreira aventurosa?
─ Não.

23. ─ Qual a vossa situação como Espírito?
─ Vivo como vós, isto é, posso prover à minha vida espiritual como vós à vossa material.

OBSERVAÇÃO: As curiosas experiências do Sr. Poitevin, sua intrepidez, sua notável habilidade na manobra dos balões, faziam-nos esperar dele maior elevação e grandeza de ideias. O resultado não correspondeu à nossa expectativa. Como vimos, a aerostação não era para ele senão uma indústria, um modo de viver, um gênero especial de espetáculo. Todas as suas faculdades estavam concentradas nos meios de satisfazer à curiosidade pública. Assim é que, nestas conversas de além-túmulo as previsões são muitas vezes incertas: ora são ultrapassadas, ora ficam aquém do que se esperava, o que é prova evidente da independência das comunicações.

Numa sessão particular, através do mesmo médium, Poitevin ditou os conselhos que se seguem, para cumprir a promessa que acabara de fazer. Cada um poderá medir-lhes o valor, pois os damos como objeto de estudo sobre a natureza dos Espíritos e não por seu mérito científico, mais que contestável.

“Para dirigir um balão cheio de gás, encontrareis sempre as maiores dificuldades: a imensa superfície que ele oferece exposta aos ventos; a insignificância do peso que o gás pode transportar; a fragilidade do envoltório, exigida por esse ar sutil. Todas estas causas jamais permitirão dar ao sistema aerostático a grande extensão que desejaríeis vê-lo tomar. Para que o aeróstato tenha uma utilidade real, é preciso que seja um sistema de comunicação poderoso e dotado de uma certa presteza, sobretudo poderoso. Dissemos que representaria um meio termo entre a eletricidade e o vapor. Sim, sob dois pontos de vista:

1.º ─ Deve transportar passageiros com mais rapidez que as ferrovias e mensagens com menos rapidez que o telégrafos;
2.º ─ Não se coloca como meio termo entre os dois sistemas, porque participa, ao mesmo tempo, do ar e da terra, ambos lhe servindo de caminho. Está entre o céu e o mundo.

“Não me perguntastes se por este meio chegaríeis a visitar outros planetas. Entretanto, tal pensamento inquietou muitas cabeças e a sua solução encheria o vosso mundo de espanto. Não. Não o conseguireis. Pensai que para atravessar os espaços inimagináveis, de milhões e milhões de léguas, a luz leva anos. Vede, pois, quanto tempo seria necessário para atingi-los, mesmo levados pelo vapor e pelo vento.

“Para voltar ao tema principal, eu vos dizia, de começo, que se não deveria esperar muito do vosso sistema atual, mas que obteríeis muito mais agindo sobre o ar por compressão forte e extensa. O ponto de apoio que buscais está à vossa frente e vos cerca por todos os lados. Com ele vos chocais em cada um dos vossos movimentos; diariamente ele entrava a vossa rota e influi sobre tudo quanto tocais. Pensai muito nisto e tirai desta revelação tudo quanto for possível. Suas consequências são enormes. Não podemos tomar-vos a mão e levar-vos a forjar os utensílios necessários a esse trabalho. Não vos podemos dar uma indução, palavra por palavra. É preciso que o vosso espírito trabalhe e amadureça os seus projetos, sem o que não compreenderíeis aquilo que fizésseis e não saberíeis manejar os instrumentos. Seríamos nós obrigados a torcer e abrir os vossos êmbolos; então as circunstâncias imprevistas que, um dia ou outro, viessem atrapalhar os vossos esforços, lançar-vos-iam em vossa primitiva ignorância.

“Trabalhai, pois, e encontrareis aquilo que tiverdes procurado. Conduzi o vosso Espírito na direção que vos indicamos e aprendei, pela experiência, que não vos induzimos em erro.”

OBSERVAÇÃO: Embora encerrando verdades incontestes, nem por isto estes conselhos deixam de revelar um Espírito pouco esclarecido, sob certos pontos de vista, pois parece ignorar a verdadeira causa da impossibilidade de atingir outros planetas. É uma prova a mais da diversidade de aptidões e de luzes encontradas, como na Terra, no mundo dos Espíritos. É pela multiplicidade das observações que chegaremos a conhecê-lo, compreendê-lo e julgá-lo. Eis por que damos modelos de comunicações de todo gênero, tomando, porém, o cuidado de ressaltar o forte e o fraco. Esta de Poitevin termina por uma consideração muito justa, que nos parece ter sido suscitada por um Espírito mais filosófico que o seu. Aliás, ele havia dito que tais conselhos seriam redigidos por seus amigos que, definitivamente, nada ensinam.

Nisto encontramos ainda nova prova de que os homens que na Terra tiveram uma especialidade nem sempre são os mais adequados ao nosso esclarecimento como Espíritos, principalmente se não forem bastante elevados e desprendidos da vida terrena.

É lamentável que, para o progresso da aeronáutica, a maioria desses homens intrépidos não possam colocar a sua experiência a serviço da Ciência, enquanto os teóricos são alheios à prática, como marinheiros que jamais tivessem visto o mar. Incontestavelmente, um dia haverá engenheiros aeronautas, como há engenheiros navais, mas só quando eles tiverem, eles próprios, visto e sondado as profundezas do oceano aéreo. Quantas ideias não lhes seriam dadas pelo contato real dos elementos, ideias que escapam à gente do ofício, porque, seja qual for o seu saber, não podem eles, do fundo de seu gabinete, perceber todos os escolhos. Entretanto, se um dia essa ciência deve tornar-se realidade, só o será por intermédio deles. Aos olhos de muita gente isto ainda é uma quimera, por isso os inventores, que em geral não são capitalistas, não encontram nem o apoio nem o encorajamento necessários. Quando a aerostação produzir dividendos, mesmo que em esperança, e puder ser avaliada financeiramente, não lhe faltará o capital. Até lá é necessário contar com a dedicação daqueles que colocam o progresso acima da especulação. Enquanto houver carência de recursos para execução, haverá derrotas, pela impossibilidade de fazer experiências em escala suficientemente vasta ou em condições convenientes. Se somos obrigados a fazer acanhadamente, fazemos mal feito, nisto como em todas as coisas. Não haverá sucesso senão ao preço de sacrifícios suficientes para entrar decisivamente na vida prática. Quem diz sacrifício quer dizer exclusão de qualquer ideia de lucro. Esperemos que a ideia de dotar o mundo com a solução de um grande problema, quando mais não seja do ponto de vista da Ciência, inspire um generoso desinteresse. Mas a primeira coisa a fazer seria dotar os teóricos dos meios necessários à aquisição de experiência no ar, mesmo que fosse através dos meios imperfeitos que possuímos. Se Poitevin tivesse sido um homem de saber e tivesse inventado um sistema de locomoção aérea, sem dúvida teria inspirado mais confiança àqueles que jamais deixaram a terra e provavelmente teria encontrado os recursos que aos outros são recusados.

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