Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1859

Allan Kardec

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Médico da marinha e viajante naturalista, falecido a 11 de dezembro de 1858 com 64 anos de idade. Foi evocado a 24 do mesmo mês, por um de seus amigos, o Sr. Sardou.

1. ─ (Evocação).
─ Eis-me aqui. Que queres?

2. ─ Qual o teu estado atual?
─ Estou errante como os Espíritos que deixam a Terra e sentem o desejo de avançar pelo caminho do bem. Buscamos, estudamos e depois escolhemos.

3. ─ Modificaram-se as tuas ideias sobre a natureza do homem?
─ Muito. Bem podes avaliar.

4. ─ Que pensas agora sobre o gênero de vida que levaste, na existência que acabas de deixar aqui na Terra?
─ Estou contente, porque trabalhei.

5. ─ Pensavas que para o homem tudo acaba no túmulo. Daí o teu epicurismo e o desejo que por vezes exprimias de viver séculos, a fim de bem gozar a vida. Que pensas dos vivos que têm apenas essa filosofia?
─ Lamento-os. Todavia, isto lhes é útil. Com tal sistema podem apreciar friamente tudo quanto entusiasma os outros. Isto lhes permite julgar de maneira sadia muitas coisas que facilmente fascinam os crédulos.

NOTA: É a opinião pessoal do Espírito, que damos como tal e não como máxima.

6. ─ O homem que se esforça moralmente, mais do que intelectualmente, procede melhor do que aquele que se liga sobretudo ao progresso intelectual e despreza o moral?
─ Sim. O aspecto moral é mais importante. Deus dá espírito como recompensa aos bons, ao passo que o moral deve ser adquirido.

7. ─ Que entendes por espírito que Deus dá?
─ Uma vasta inteligência.

8. ─ Entretanto há muitos maus que possuem uma vasta inteligência. ─ Já o disse. Perguntastes o que era preferível procurar adquirir, e eu vos disse que o moral era preferível. Mas quem trabalha o aperfeiçoamento de seu Espírito pode adquirir um alto grau de inteligência. Quando compreendereis os subentendidos?

9. ─ Estás completamente desprendido da influência material do corpo?
─ Sim. Aquilo que a respeito vos foi dito abrange apenas uma parte da Humanidade.

NOTA: Aconteceu algumas vezes que Espíritos evocados, mesmo alguns meses depois de sua morte, declararam que ainda se encontravam sob a influência da matéria. Todos eles, porém, tinham sido homens que não haviam progredido nem moral nem intelectualmente. É a esta parte da Humanidade que se refere o Espírito de Paul Gaimard.

10. ─ Tiveste na Terra outras existências além da última?
─ Sim.

11. ─ Esta última é uma consequência da precedente?
─ Não. Houve um grande intervalo entre elas.

12. ─ Apesar do intervalo não poderia, entretanto, haver uma certa relação entre essas duas existências?
─ Se bem me entendes, cada minuto de nossa vida é consequência do minuto anterior.

NOTA: Assistindo a esta reunião, o Dr. B. externou a opinião de que certos instintos, por vezes despertados em nós, bem poderiam ser o reflexo de uma existência anterior. Cita vários casos perfeitamente verificados em senhoras jovens que, durante a gravidez, foram levadas a atos ferozes, como, por exemplo, uma que agarrou o braço de um jovem açougueiro e lhe deu valentes dentadas; outra que cortou a cabeça de uma criança e ela própria a levou ao Comissariado de Polícia; uma terceira que matou o marido, cortou-o em pedacinhos, salgou-o e dele se alimentou durante vários dias. Perguntou aquele médico se, em existência anterior, não teriam elas sido antropófagas.

13. ─ Ouviste o que acaba de dizer o Dr. B. Serão esses instintos, que nas senhoras grávidas têm o nome de desejos, uma consequência de hábitos contraídos numa existência anterior?
─ Não. São uma loucura transitória; uma paixão no seu mais alto grau. O Espírito fica eclipsado pela vontade.

NOTA: O Dr. B. faz notar que os médicos consideram realmente esses atos como casos de loucura passageira. Nós compartilhamos tal opinião, mas por outros motivos, uma vez que as pessoas não familiarizadas com os fenômenos espíritas geralmente são levadas a atribuí-los exclusivamente às causas que conhecem. Estamos persuadidos de que devemos ter reminiscências de certas disposições morais anteriores. Diremos, até, que é impossível que as coisas se passem de outro modo, pois o progresso só se realiza paulatinamente. Mas não é este o caso de que se trata, porque as pessoas em causa não davam nenhum sinal de ferocidade, fora daquele estado patológico. Evidentemente nelas não havia senão uma perturbação momentânea das faculdades morais. Reconhece-se o reflexo das disposições anteriores por meio de outros, de certa maneira inequívocos, que desenvolveremos em artigo especial, apoiado pelos fatos.

14. ─ Em tua última existência realizaste simultaneamente progresso moral e intelectual?
─ Sim. Principalmente intelectual.

15. ─ Poderias dizer-nos qual o gênero de tua penúltima existência?
─ Oh! Fui obscuro. Tive uma família, que tornei infeliz. Mais tarde o expiei duramente. Mas por que mo perguntais? Isto já passou e agora me acho em nova fase.

NOTA: Paul Gaimard morreu solteiro, com a idade de 64 anos. Mais de uma vez se lamentou por não haver constituído um lar.

16. ─ Esperas reencarnar brevemente?
─ Não. Quero antes pesquisar. Gostamos deste estado de erraticidade porque a alma é mais senhora de si; o Espírito tem mais consciência de sua força. A carne pesa, obscurece e entrava.

NOTA: Todos os Espíritos dizem que no estado de erraticidade pesquisam, estudam, observam, a fim de fazer a escolha. Não está aí a contrapartida da vida corporal? Não erramos, às vezes, durante anos, antes de nos fixarmos numa carreira que consideramos mais adequada ao nosso progresso? Por vezes não a mudamos, à medida que amadurecemos? Cada dia não é empregado em buscar o que fazer no dia seguinte?
Ora, que representam as diversas existências corpóreas para o Espírito, senão fases, períodos, dias da vida espírita que é, como bem o sabemos, a vida normal, pois a vida corpórea é apenas transitória e passageira? Nada mais sublime que esta teoria. Não está ela em concordância com a harmoniosa grandiosidade do Universo? Ainda uma vez, não fomos nós que a inventamos e lamentamos não possuir esse mérito. Entretanto, quanto mais a aprofundamos, mais a achamos fecunda em soluções de problemas até aqui não explicados.

17. ─ Em que planeta pensas ou desejas reencarnar?
─ Não sei. Dai-me tempo para procurar.

18. ─ Que gênero de existência pedirias a Deus?
─ A continuação da última; o maior desenvolvimento possível das faculdades intelectuais.

19. ─ Parece que colocas em primeira linha as faculdades intelectuais e que deixas as faculdades morais em segundo plano, contrariando o que disseste anteriormente.
─ Meu coração ainda não se encontra suficientemente bem formado para poder apreciar as outras.

20. ─ Vês outros Espíritos e te relacionas com eles?
─ Sim.

21. ─ Entre esses há alguns que tenhas conhecido na Terra?
─ Sim. Dumont-d’Urville.

22. ─ Vês também o Espírito de Jacques Arago, com quem viajaste?
─ Sim.

23. ─ Esses Espíritos estão nas mesmas condições em que estás?
─ Não. Uns são mais elevados, outros menos.

24. ─ Referimo-nos aos Espíritos de Dumont-d’Urville e de Jacques Arago.
─ Não quero especificar.

25. ─ Estás satisfeito por te havermos evocado?
─ Sim, principalmente por causa de uma pessoa.

26. ─ Poderemos fazer algo por ti?
─ Sim.

27. ─ Se te evocássemos dentro de alguns meses, terias ainda a bondade de
responder as nossas perguntas?
─ Com prazer. Adeus.

28. ─ Tu te despedes. Queres ter a bondade de dizer para onde vais?
─ Sem mais delongas (para expressar-me como teria feito há poucos dias), vou atravessar um espaço mil vezes mais considerável que o percurso que fiz na Terra em minhas viagens, que considerava tão longas, e isto em menos de um segundo, de um pensamento. Vou a uma reunião de Espíritos, onde tomarei lições e onde poderei aprender minha nova ciência, minha vida nova. Adeus.

OBSERVAÇÃO: Quem tivesse conhecido perfeitamente o Sr. Paul Gaimard constataria que esta comunicação está marcada pelo cunho de sua individualidade. Aprender, ver, conhecer era a sua paixão dominante. Eis o que explica suas viagens ao redor do mundo e às regiões do Polo Norte, bem como suas excursões à Rússia e à Polônia, quando da primeira irrupção do cólera na Europa. Dominado por essa paixão e por essa necessidade de satisfazê-la, conservava um raro sangue frio ante os
maiores perigos. Foi assim que graças à sua calma e à sua firmeza soube livrar-se das garras de uma tribo de antropófagos que o havia surpreendido no interior de uma ilha da Oceania.

Uma frase sua caracteriza perfeitamente essa avidez de ver fatos novos, de assistir ao espetáculo de acidentes imprevistos. Um dia, diante do mais dramático período de 1848, exclamou ele: “Que felicidade viver numa época tão fértil em acontecimentos extraordinários e imprevistos!”

Quase que unicamente voltado para as ciências que tratam da matéria organizada, seu espírito havia negligenciado muito as ciências filosóficas. Assim, poder-se-ia dizer que lhe faltava elevação em tais ideias. Contudo nenhum ato de sua vida prova que jamais tivesse desconhecido as grandes leis morais impostas à Humanidade. Em suma, o Sr. Paul Gaimard tinha uma bela inteligência. Essencialmente probo e honesto, naturalmente obsequioso, era incapaz de causar o menor prejuízo a quem quer que fosse. Apenas se lhe pode fazer a censura de ter sido, talvez, demasiadamente amigo dos prazeres; mas nem o mundo nem os prazeres corromperam o seu raciocínio ou o seu coração. Assim, o Sr. Paul Gaimard fez por merecer as saudades de seus amigos e de quantos o conheceram.
SARDOU

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