Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1859

Allan Kardec

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Senhor Allan Kardec.

Felicito-me por estar em contato convosco através do gênero de estudos a que mutuamente nos entregamos. Há mais de vinte anos eu me ocupava com uma obra que devia ter por título Estudo sobre os Germens. Deveria ser especialmente sobre fisiologia, entretanto minha intenção era demonstrar a insuficiência do sistema de Bichat, que não admite senão a vida orgânica e a vida de relação. Eu queria provar que existe um terceiro modo de existência, que sobrevive aos dois outros, em estado anorgânico. Esse terceiro modo não é outra coisa senão a vida anímica ou espírita, como a chamais. Numa palavra, é o gérmen primitivo que engendra os dois outros modos de existência: orgânica e de relação. Também queria demonstrar que os germens são de natureza fluídica, que são biodinâmicos, atrativos, indestrutíveis, autógenos e em número definido, tanto no nosso planeta quanto em todos os meios circunscritos.

Quando apareceu Céu e Terra, de Jean Reynaud, fui obrigado a modificar minhas convicções. Reconheci que o meu sistema era demasiado estreito, e admiti, como ele, que os astros, pela troca de eletricidade que podem estabelecer reciprocamente, por meio de várias correntes elétricas, devem necessariamente favorecer a transmigração dos germens ou Espíritos da mesma natureza fluídica. Quando se falou das mesas girantes, entreguei-me logo a essa prática e obtive resultados tais que não tive mais nenhuma dúvida quanto às manifestações.

Compreendi logo que chegara o momento em que o mundo invisível ia tornar-se visível e tangível, e que, desde então, marchávamos para uma revolução sem precedentes nas Ciências e na Filosofia. Entretanto, eu estava longe de esperar que um jornal espírita pudesse estabelecer-se tão depressa e manter-se na França. Hoje, senhor, graças à vossa perseverança, é um fato consumado e de grandíssimo alcance.

Estou longe de pensar que todas as dificuldades foram vencidas. Encontrareis muitos obstáculos e sofrereis muitos gracejos, mas, no final das contas, a verdade brilhará; chegar-se-á a reconhecer a justeza da observação do nosso célebre professor Gay-Lussac, que nos dizia em seu curso, a propósito dos corpos imponderáveis e invisíveis, que estas eram expressões inexatas que apenas constatavam a nossa limitação no estado atual da Ciência, acrescentando que seria mais lógico chamá-los de imponderados.

Assim também quanto à visibilidade e à tangibilidade. Aquilo que para um não é visível, o é para outro, mesmo a olho nu. Exemplo: os sensitivos. Enfim, a audição, o olfato e o paladar, que não passam de modificações da propriedade tangível, são nulos no homem quando comparados com os do cão, da águia e de outros animais.

Nada há, pois, de absoluto, nessas propriedades, que se multiplicam conforme os organismos. Nada há de invisível, de intangível, de imponderável. Tudo poderá ser visto, tocado ou pesado, quando nossos órgãos, que são os nossos primeiros e mais preciosos instrumentos, se tiverem tornado mais sutis.

A tantas experiências a que deveis ter recorrido para constatar o nosso terceiro modo de existência, a vida espírita, peço que acrescenteis a seguinte: Magnetizai um cego de nascença e, no estado sonambúlico, fazei-lhe uma série de perguntas sobre as formas e as cores. Se o sensitivo for lúcido, provar-vos-á, de modo peremptório, que sobre essas coisas tem um conhecimento que não lhe foi possível adquirir senão em uma ou várias existências anteriores.

Termino, senhor, pedindo-vos aceiteis minhas felicitações muito sinceras pelo gênero de estudos a que vos consagrais. Como jamais temi manifestar as minhas opiniões, podeis inserir esta em vossa revista, se a julgardes útil. Vosso servo muito dedicado,

MORHÉRY, Doutor em Medicina.

OBSERVAÇÃO: Sentimo-nos feliz com a autorização que o Dr. Morhéry nosconcede para a publicação, com o seu nome, da notável carta que acabamos de ler. Ela prova que há nele, ao lado do homem de ciência, o homem sensato, que vê algo além das nossas sensações e que sabe fazer o sacrifício de suas opiniões pessoais em face da evidência. Nele a convicção não é fé cega, mas raciocinada. É a dedução lógica do sábio que não pensa saber tudo.

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