Instruções práticas sobre as manifestações espíritas

Allan Kardec

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POSSESSO – Conforme à ideia ligada a este vocábulo, possesso é aquele em quem se alojou o demônio. O demônio o possui, isto é, apoderou-se de seu corpo. (Vide Demônio). Tomando demônio não na sua acepção vulgar, mas no sentido de mau Espírito, Espírito impuro, Espírito malfeitor, Espírito imperfeito, tratar-se-ia de saber se um Espírito dessa natureza ou de qualquer outra pode estabelecer domicílio no corpo de um homem, conjuntamente com o que nele está encarnado, ou a este se substituindo. Poderse-ia perguntar em que se toma, neste último caso, a alma assim expulsa. A doutrina espírita diz que o Espírito unido ao corpo não pode ser separado definitivamente senão pela morte; que um outro Espírito não pode meter-se em seu lugar nem se unir ao corpo, simultaneamente com aquele. Mas, também, diz que um Espírito imperfeito pode ligar-se a um Espírito encarnado, dominá-la, dominar o seu pensamento e, caso ele não tenha força para lhe resistir, constrangê-la a fazer isto ou aquilo, a agir deste ou daquele modo; submetendo-o, por assim dizer, à sua influência. Assim, não há possessão, no sentido absoluto do vocábulo: há subjugação; não se trata de desalojar um mau Espírito, mas - para nos servirmos de uma comparação material - de o fazer largar a presa, o que sempre é possível quando se o quer seriamente. Mas há pessoas que se comprazem numa dependência que lisonjeia seus gostos e seus desejos.

A superstição vulgar atribui à possessão do demônio certas doenças que não têm outra causa senão uma alteração dos órgãos. Tal crença era muito espalhada entre os judeus. Para eles curar essas doenças era expulsar os demônios. Seja qual for a causa da doença, desde que se dê a cura isto nada tira do poder daquele que a opera. Jesus e seus discípulos podiam, pois, expulsar os demônios, para se servirem da linguagem comum. Se tivessem falado de outro modo não teriam sido compreendidos e talvez nem mesmo acreditados. Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa, conforme o sentido ligado às palavras. As maiores verdades podem parecer absurdas quando não se considera senão a forma.

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