Instruções práticas sobre as manifestações espíritas

Allan Kardec

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MANIFESTAÇÕES APARENTES
As manifestações aparentes mais ordinárias dão-se no sono, pelos sonhos: são as visões. Jamais foram os sonhos explicados pela ciência. Julga ela tudo haver dito, atribuindo-os a um efeito da imaginação. Mas não diz o que é a imaginação, nem como produz ela essas imagens tão claras e tão límpidas que, por vezes, nos aparecem. É explicar uma causa desconhecida por outra que não o é menos. A questão permanece, assim, por inteiro. Dizem que é uma lembrança das preocupações da vigília, mas, mesmo admitindo tal solução, que não é única, restaria saber qual é esse espelho mágico que assim conserva a impressão das coisas; como explicar sobretudo essas visões de coisas reais, que jamais foram vistas no estado de vigília e nas quais jamais se pensou? Só o Espiritismo nos poderia dar a chave desse fenômeno bizarro, que passa inapercebido por força de sua mesma vulgaridade, como todas as maravilhas da natureza que calcamos aos nossos pés[1]. Não cabe no nosso plano examinar todas as particularidades que podem os sonhos apresentar; cingimo-nos a dizer o que podem eles ser; uma visão atual das coisas presentes ou ausentes; uma visão retrospectiva do passado e, nalguns casos excepcionais, um pressentimento do futuro. Por vezes são quadros alegóricos, que os Espíritos fazem passar aos nossos olhos, a fim de nos darem avisos úteis e conselhos salutares, quando se trata de bons Espíritos, ou para induzir-nos em erro e lisonjear as nossas paixões se, se trata de Espíritos imperfeitos.

As pessoas que vemos em sonho são verdadeiras visões. Se sonhamos mais frequentemente com as que preocupam a nossa mente, é que o pensamento é um modo de evocação e por ele nós chamamos a nós o Espírito dessas pessoas, sejam elas vivas ou mortas.

Seria uma injúria ao bom senso de nossos leitores refutar tudo quanto existe de absurdo e de ridículo naquilo que vulgarmente é apresentado como interpretação dos sonhos.

As aparições propriamente ditas dão-se em estado de vigília, quando gozamos da plenitude e da inteira liberdade de nossas faculdades. É incontestavelmente o gênero de manifestações mais adequado a excitar a curiosidade, mas é, também, o menos fácil de obter-se. Podem os Espíritos manifestar-se ostensivamente de vários modos: por vezes é sob forma de flamas ligeiras e de luares mais ou menos brilhantes, sem qualquer analogia, tanto pelo aspecto quanto pelas circunstâncias nas quais se produzem, com os fogos fátuo e outros fenômenos físicos cuja causa está perfeitamente demonstrada. Outras vezes tomam os traços de uma pessoa conhecida ou desconhecida, sobre cuja individualidade podemos iludir-nos, conforme as ideias de que estejamos imbuídos. É então uma imagem vaporosa, etérea, que não encontra qualquer obstáculo nos corpos sólidos. Os fatos desse gênero são numerosos. Mas antes de os atribuir à imaginação ou à charlatanice, devem levar-se em conta as circunstâncias em que os mesmos se produzem, a posição e, principalmente, o caráter do narrador.

Em certos casos a aparição se torna tangível, isto é, adquire momentaneamente e sob o império de certas circunstâncias, as propriedades da matéria sólida. Então não é mais pelos olhos que constatamos a realidade, mas pelo tato. Se se pudesse atribuir à ilusão ou a uma espécie de fascinação a aparição apenas visual, a dúvida já não seria permissível quando se pode tocar, pegar e apalpar, quando ela mesma nos agarra e nos abraça[2].




[1] Vide o verbete Sonho no vocabulário.


[2] Vide na REVISTA ESPÍRITA, meses de março, abril e maio de 1858, a descrição e a explicação das manifestações desse gênero. Vide, também, trabalhos mais recentes de escritores espíritas e sua abundante documentação. N. do editor francês.


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