Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858

Allan Kardec

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P. ─ Como podem os Espíritos agir sobre a matéria? Isto parece contrário a todas as ideias que fazemos da natureza dos Espíritos.

R. ─ Em vossa opinião, o Espírito nada é, e isto é um erro. Já vos dissemos que o Espírito é alguma coisa, e por isso pode agir por si mesmo, mas o vosso mundo é muito grosseiro para que ele possa fazê-lo sem um intermediário, isto é, sem um laço que una o Espírito à matéria.

OBSERVAÇÃO: Sendo imaterial, ou pelo menos impalpável, o laço que une o Espírito à matéria, esta resposta não resolveria a questão se não tivéssemos o exemplo de forças igualmente imponderáveis que agem sobre a matéria: assim é que o pensamento é a causa primeira de todos os movimentos voluntários; que a eletricidade derruba, levanta e transporta massas inertes. Porque se lhe desconhece o móvel, seria ilógico concluir que não existe. Pode, pois, o Espírito ter suas alavancas, para nós desconhecidas. A Natureza nos prova diariamente que seu poder não se limita ao testemunho dos nossos sentidos. Nos fenômenos espíritas, a causa imediata é incontestavelmente um agente físico, mas a causa primeira é uma inteligência que age sobre esse agente, como o nosso pensamento age sobre os nossos membros. Quando queremos bater, o nosso braço é que age; não é o pensamento que bate, mas é ele que dirige o braço.

P. ─ Entre os Espíritos que produzem efeitos materiais, os que costumamos chamar de batedores formam uma classe especial ou são os mesmos que produzem os movimentos e os ruídos?

R. ─ O mesmo Espírito pode, por certo, produzir efeitos diversos, mas há os que se ocupam mais particularmente de certas coisas, assim como entre vós tendes os ferreiros e os carregadores.

P. ─ O Espírito que age sobre um corpo sólido, para mover ou para bater, penetra na substância do corpo ou age fora dela?

R. ─ Uma coisa e outra. Já dissemos que a matéria não é um obstáculo para os Espíritos, porque eles tudo penetram.

P. ─ As manifestações materiais, tais como os ruídos, os movimentos de objetos e todos os fenômenos que nos apraz provocar frequentemente, são produzidos indistintamente pelos Espíritos superiores e pelos inferiores?

R. ─ São apenas os Espíritos inferiores que se ocupam dessas coisas. Os Espíritos superiores por vezes os empregam como farias com um carregador, a fim de chamar a atenção. Podes crer que os Espíritos de uma categoria superior estejam às vossas ordens para vos divertir com travessuras? É como se perguntasses se, no teu mundo, são os homens sábios e sérios que fazem papel de palhaços e bufões.

OBSERVAÇÃO: Os Espíritos que se revelam por efeitos materiais, em geral são de ordem inferior. Divertem ou espantam aqueles para quem os espetáculos visuais têm mais atração que o exercício da inteligência; são, de certo modo, os saltimbancos do mundo espírita. Por vezes agem espontaneamente; outras, por ordem de Espíritos superiores.

Se as comunicações dos Espíritos superiores oferecem um interesse mais sério, as manifestações físicas têm igualmente utilidade para o observador; revelam-nos forças desconhecidas da Natureza, e dão-nos meios de estudar o caráter e, se assim podemos dizer, os costumes de todas as classes da população espírita.

P. ─ Como provar que o poder oculto que age nas manifestações espíritas está fora do homem? Não poderíamos pensar que reside em nós mesmos, isto é, que agimos sob o impulso do nosso próprio Espírito?

R. ─ Quando uma coisa é feita contra a tua vontade e o teu desejo, é que não és tu que a produzes, embora muitas vezes sejas a alavanca de que se serve o Espírito para agir, e tua vontade lhe venha em auxílio; podes ser para ele um instrumento mais ou menos cômodo.

OBSERVAÇÃO: É sobretudo nas comunicações inteligentes que se patenteia a intervenção de um poder estranho. Quando espontâneas e estranhas ao nosso pensamento e ao nosso controle; quando respondem a perguntas cuja solução é desconhecida pelos assistentes, devemos procurar fora de nós a causa dessas comunicações. Isto se torna evidente para quem quer que observe os fatos com atenção e perseverança. As nuanças de detalhes escapam ao observador superficial.

P. ─ Todos os Espíritos são capazes de dar manifestações inteligentes?

R. ─ Sim, pois todos eles são inteligências. Como, porém, os há de todos os graus, como entre vós, uns dizem coisas sem sentido ou estúpidas, e outros coisas sensatas.

P. ─ Todos os Espíritos estão aptos a compreender as perguntas que se lhes fazem?

R. ─ Não. Os Espíritos inferiores são incapazes de compreender certas perguntas, o que não os impede de responderem certo ou errado. É ainda como entre vós.

OBSERVAÇÃO: Por aí se vê quanto é essencial estar atento contra a crença no ilimitado saber dos Espíritos. Eles são como os homens; não basta interrogar o primeiro que aparece para ter uma resposta sensata: é preciso saber a quem nos dirigimos.

Aquele que deseja conhecer os costumes de um povo deve estudá-los de um extremo a outro da escala. Ver apenas uma classe é fazer uma ideia falsa, pois se julga o todo pela parte. A população dos Espíritos é como a nossa; há de tudo: o bom, o mau, o sublime, o trivial, o saber e a ignorância. Quem não os houver observado seriamente, em todos os graus, não se pode gabar de conhecê-los. As manifestações físicas dão-nos a conhecer os Espíritos de camadas inferiores; são a rua e a choupana. As comunicações instrutivas e sábias põem-nos em contato com os Espíritos elevados; são a elite social: o castelo, o Instituto.

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